Um total de 89 guatemaltecos, muitos deles com grandes dívidas após pagar milhares de dólares aos traficantes de pessoas, chegaram à Guatemala nesta quarta-feira (3), no primeiro voo de deportados dos Estados Unidos de 2024, informou uma fonte oficial.

Após um recorde de mais de 55.000 guatemaltecos deportados em 2023, este primeiro grupo de expulsos, 47 deles menores de idade, chegou à pista da força aérea da capital, vindos de El Paso, Texas, disse a jornalistas a porta-voz do Instituto Guatemalteco de Migração (IGM), Alejandra Mena.

"A cada dia, a situação é mais difícil no país e a economia não dá mais. É preciso buscar novos horizontes para ver a forma de progredir com a família", disse à AFP, ao descer do avião, um dos deportados, Roberto Ramírez.

Este motorista de ônibus admitiu que a viagem foi "muito difícil" pelo receio de ser deportados pela Migração e pelos "cartéis" das drogas, pois, embora tenham viajado com traficantes de pessoas, conhecidos como "coiotes", tinham que "deixar dinheiro para poder passar por certos lugares".

Ramírez, originário do município de Santa Lucía Cotzumalguapa (sul), viajou com a filha pequena e precisou hipotecar a casa para pagar os "coiotes". Agora, diz que terá que tentar viajar outra vez de forma irregular para pagar a dívida.

Outro deportado, Luis Pineda, disse que por causa da viagem agora tem uma dívida de 10.000 dólares, (cerca de R$ 49 mil, na cotação atual), mas que voltará a tentar, embora admita que foi enganado pelos traficantes e que a travessia é arriscada.

"Sofremos, passamos dez dias em um tipo de hotel e outros nove dias enfiados lá [em um centro de detenção], trancados nos Estados Unidos", lembrou, após informar que iniciou a travessia no dia 12 de dezembro.

Milhares de guatemaltecos emigram a cada ano de forma irregular rumo os Estados Unidos para fugir da violência e da pobreza, que afeta quase 60% dos 17,7 milhões de habitantes do país, segundo dados oficiais.

- "Enganados" -

Muitos deportados escondiam os rostos com as mãos ou os casacos diante da presença da imprensa.

Ramírez assegurou que foram enganados por agentes migratórios dos Estados Unidos porque nunca lhes disseram que seriam deportados e, "mediante engano", os embarcaram no avião de volta para seu país de origem.

"Dizem a todos nós que vão nos deixar entrar, mas é pura história. Prometeram-nos e a informação que nos deram foi de que estavam deixando todos entrar e é mentira", disse Pineda, que também viajava com a filha.

No ano passado, foram expulsos do território americano o recorde de 55.302 guatemaltecos, segundo o IGM.

As remessas familiares enviadas do exterior para a Guatemala em 2022, em sua maioria dos Estados Unidos, somaram 18,04 bilhões de dólares (R$ 88,7 bilhões) e e este ano poderia fechar com o recorde de 20 bilhões de dólares (R$ 98,4 bilhões), segundo projeções do Banco da Guatemala (Central, Banguat).

Estes recursos econômicos são essenciais para a economia da Guatemala, pois em 2022 superaram o valor das exportações, de 15,7 bilhões de dólares (R$ 77,2 bilhões).

O Ministério das Relações Exteriores estima que cerca de 2,7 milhões de guatemaltecos vivam nos Estados Unidos, mas apenas 400.000 têm documentos para trabalhar no país.

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