Um país que passa por um processo de envelhecimento populacional complexo não poderia ir às urnas para as eleições gerais sem considerar os seus desafios etários. Antes mesmo do primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva sinalizava que o público idoso faria parte de suas prioridades na campanha pelo quarto mandato na Presidência da República. O que se passou até o petista, que acaba de completar 81 anos, receber 64,2 milhões de votos e garantir a segunda reeleição ao cargo certamente fugiu do script.


Se se falava, inicialmente, em lançamento de programas para a criação de centros de convivência com oferta de serviços múltiplos – da saúde ao lazer –, o Brasil acordou nessa segunda-feira com a percepção de que, em se tratando de envelhecimento, a ótica assistencialista não basta. Foram inúmeros os registros de homens e mulheres que, mesmo sem a obrigatoriedade do voto e com nítidas dificuldades, depositaram nas urnas, no domingo, seus desejos para o país – de mais cuidado, é claro, mas também de zelo pela democracia. Fizeram história. E é preciso que sejam considerados.


Ficará a cargo de estudiosos da ciência política e do comportamento humano explicar a virada inédita do petista que culminou no novo passe para a Presidência. Não se trata, obviamente, de questão de resposta única. Com relação à contribuição do que as redes têm chamado de “soldados com prioridades”, ao menos um ponto já se sobressai: o etarismo. Flávio Bolsonaro tinha sua jovialidade como trunfo – sobretudo porque pautou a campanha a partir da ideia de mudança –, mas a forma como tratou o adversário, principalmente nos debates, abriu espaço para o entendimento de que deixou vir à tona os seus preconceitos, o que pode ter gerado efeito reverso.


Há de se ressaltar que o bolsonarismo tem uma base sólida entre idosos, motivados por pautas ligadas a segurança pública, valores conservadores e manutenção da ordem. São, inclusive, homens e mulheres alvos recorrentes de etarismo. Mas a postura de Flávio Bolsonaro diante de um adversário octogenário pode ter mobilizado outros grupos de mais vividos. No primeiro discurso logo após a confirmação de sua vitória, Lula os reconheceu: “Quero agradecer o esforço das pessoas idosas que foram votar. Vi cenas de pessoas sendo carregadas pelos netos para votar, pessoas com doenças e dificuldade de locomoção que foram votar”.

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Passado o pleito, o que se espera é que o interesse despertado pelos idosos brasileiros se converta em ação. Lula conquistou a maior votação para um presidenciável na história do país e é também o homem mais velho no comando da Presidência. Quando deixar o quarto mandato, pelas projeções, o Brasil terá mais idosos do que crianças – 41,5 milhões de pessoas com ao menos 60 anos, a quinta maior população idosa do mundo. É civilizatório, portanto, que essas pessoas façam parte da lista de prioridades do Executivo federal e de outras instâncias do poder público para além de interesses eleitorais. Entre os planos para seu quarto mandato, Lula deseja criar o Ministério do Idoso.

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