De onde nasce a vontade de falar sobre os rituais de despedida da vida? No caso das autoras do livro Pé na Cova, de Helena Drummond e Letícia Torres, tudo começou quando Helena, com seu olhar atento ao outro, percebeu que só havia notado a presença dos coveiros durante o enterro de sua avó paterna quando seu pai, em meio àquele momento de dor, agradeceu gentilmente aos profissionais pelo trabalho realizado.
Tempos depois, quando chegou o momento de escolher o tema do trabalho de conclusão do curso de jornalismo, aquela experiência, que já havia despertado diversos questionamentos na futura jornalista, encontrou eco em uma leitura feita durante a graduação: o livro-reportagem “Não reclamados: vidas esquecidas no Instituto Médico Legal”. Foi então que Helena convidou sua amiga de curso, Letícia, para que juntas e com muito cuidado e respeito, conhecessem e contassem as histórias dos coveiros e dos cemitérios de Belo Horizonte, além de tudo aquilo que se entrelaça às vivências desses profissionais.
O que começou como um projeto acadêmico foi tomando outras formas durante a apuração, até que as jornalistas perceberam que deveriam fazer um livro-reportagem para falar sobre tudo o que estavam pesquisando. A primeira visita a um cemitério ocorreu em março de 2025, quando foram ao Cemitério Bosque da Esperança, na Região Norte de Belo Horizonte.
As autoras contam que, naquele primeiro momento, já foi possível perceber que estavam diante de rotinas muito diferentes das que conheciam. Desde o início, tiveram o interesse de contar aquelas histórias para além do trabalho. É um serviço solitário e silencioso, em que, quando há algum barulho, é de dor.
Nessa primeira visita, foram recebidas e acompanhadas pelo coordenador do local. A expectativa inicial das autoras era conversar diretamente com os coveiros, mas o contato com esses trabalhadores aconteceu gradualmente. Foi também nessa ocasião que elas acompanharam uma exumação. O que mais chamou a atenção foi a naturalidade com que os coveiros realizavam o procedimento, conversando entre si enquanto trabalhavam. Para Helena, a experiência mostrou como uma atividade que talvez possa causar estranhamento em quem não está acostumado com aquele ambiente faz parte da rotina dos profissionais.
Como é relatado no livro, a familiaridade dos profissionais com os procedimentos não significa ausência de sentimentos. Assim como qualquer trabalho, esse também tem suas peculiaridades, e a rotina vai mostrando o melhor caminho para realizar as tarefas com cuidado. A rotina envolve situações difíceis, como o sepultamento de crianças e períodos de grande pressão, como a pandemia de COVID-19. Segundo as autoras, alguns trabalhadores chegaram a realizar cerca de 20 sepultamentos por dia naquele período, convivendo também com o medo de levar a doença para dentro de casa.
Durante a pesquisa, elas também perceberam que os profissionais enfrentam preconceito por causa do trabalho que exercem. A maioria dos coveiros vem de famílias de baixa renda, é formada por homens negros e recebe salários baixos. Por ser uma atividade que exige esforço físico, a presença masculina também é predominante na profissão. O livro traz alguns relatos de situações de constrangimento fora dos cemitérios, como olhares tortos em lugares comuns, como, por exemplo, em supermercados. É possível perceber que existe uma dificuldade da sociedade em enxergar esses trabalhadores para além da função que exercem.
Israel Carlos Pedro é coveiro há mais de 30 anos: "Não é fácil porque a gente tem que se pôr no lugar do outro"
Faça chuva ou faça sol
É um trabalho que não tem trégua. Faça chuva ou faça sol, os trabalhadores estarão lá, auxiliando entes queridos na última despedida de alguém que se foi. Na última sexta-feira (30/10), apesar da chuva, o dia seguia no Cemitério do Bonfim como qualquer outro, quando Jair Amaral, fotógrafo do Jornal Estado de Minas, chegou para fazer alguns dos registros desta reportagem. Nesse dia foi possível conhecer um pouco mais da história de Israel Carlos Pedro, que trabalha como coveiro há 30 anos. No local, também estava Mauro Lúcio, coordenador do cemitério, que recebeu o fotógrafo e apresentou o profissional e o espaço.
Ao falar sobre o trabalho de enterrar e exumar corpos, Israel explica que a adaptação depende muito da mentalidade de cada pessoa. Há profissionais que conseguem se acostumar à atividade, enquanto outros não conseguem lidar com as exigências físicas e psicológicas da função. Ao longo de três décadas, ele conta que presenciou muitas histórias difíceis e dolorosas. Para ele, a experiência permite compreender os procedimentos e incorporá-los à rotina, mas não elimina a delicadeza de cada situação.
“Trabalhar com isso depende muito do seu psicológico, da sua capacidade. Não é fácil porque a gente tem que se pôr no lugar do outro, porque o sofrimento da família é uma coisa muito complicada”, afirma. Segundo ele, a situação pode se tornar ainda mais pesada quando o sepultamento envolve mortes difíceis, que intensificam o sofrimento dos familiares.
O profissional também conta que é necessário preparo para lidar com as diferentes reações de quem está ali para sepultar alguém. Enquanto algumas pessoas demonstram carinho e agradecimento, outras acabam direcionando a revolta do luto aos trabalhadores. “Tem pessoas que vão chegar e vão te tratar muito bem, tem pessoas que vão chegar e vão descarregar o problema em cima de você como se você fosse o problema”, relata.
Apesar das situações difíceis, Israel conta que esse trabalho mudou sua própria forma de enxergar a vida. “A gente aprende a ser mais humano”, conta ele, ao compartilhar os aprendizados da convivência com a dor do outro.
A experiência de Israel se aproxima de uma das principais descobertas das autoras durante a produção do livro: por trás dos procedimentos realizados nos cemitérios, existem trabalhadores que precisam lidar com sentimentos que não são os seus, mas que encontram no ambiente de trabalho todos os dias.
Reflexões e aprendizados
Em entrevista com as autoras do livro, foi possível entender um pouco mais de como se desenvolveu a pesquisa e a escrita do livro, além das reflexões e aprendizados que vieram a partir dessa vivência.
Para Helena, conhecer essas histórias mudou sua maneira de olhar para os cemitérios e para a própria experiência de vida. “Para mim, nunca vai ser mais a mesma coisa. E toda vez que eu tiver contato com qualquer coisa nesse gênero, de pessoas que trabalham em várias partes e processos da morte, vou entender o quão delicado e quão gentil é esse tipo de trabalho. Você se doar a pessoas que estão sofrendo para fazer um bom trabalho, entregar o que seja o seu serviço, que seja enterrar ou cuidar de um corpo”, conta a jornalista. Ela diz que passou a enxergar com mais atenção a delicadeza e a generosidade envolvidas na profissão, além de ter se aproximado da própria religiosidade.
Já Letícia chama a atenção para a importância de olhar para os coveiros para além da função que exercem. Durante as entrevistas, as autoras conheceram profissionais que, mesmo lidando diariamente com a morte, têm planos, famílias e desejos que não se limitam ao ambiente de trabalho. Um dos relatos que marcou a pesquisa foi o de Elton Pedro da Rocha, gerente do Cemitério da Paz e antigo coveiro. Ao falar sobre a própria morte, ele brincou que a família poderia resolver os detalhes quando chegasse a sua hora. Naquele momento, sua maior preocupação era aproveitar a vida e fazer as coisas de que mais gosta, como sair de férias e ir ao cinema com a família.
A conversa levou Letícia a refletir sobre as condições de trabalho e o direito desses profissionais de terem uma vida para além dos cemitérios. Como relatam no livro, muitos profissionais trabalham em mais de um lugar para conseguir o próprio sustento. A necessidade de falar sobre salários justos, férias, finais de semana e tempo com a família também faz parte da discussão sobre a valorização da categoria, abordada no livro. “O trabalho tem que ser só uma instância da vida. Eu acho que essas pessoas, assim como todas as outras, têm que ter uma vida fora do trabalho e ter o direito de viver suas vidas antes de morrer”, defende.
Outro aspecto observado pelas autoras é o respeito aos diferentes rituais religiosos. Durante a pesquisa, elas ouviram relatos de trabalhadores que aguardavam o fim de cerimônias e homenagens antes de dar continuidade aos procedimentos, independentemente da crença da família. Na pandemia, porém, algumas dessas práticas foram interrompidas pelas restrições sanitárias, o que tornou a despedida ainda mais difícil para muitas pessoas.
Entre as experiências de Helena, Letícia e Israel, há uma percepção em comum: o trabalho nos cemitérios tem suas particularidades, como qualquer outra profissão, mas exige sensibilidade de quem está em contato diário com a morte. É preciso compreender a dor alheia, respeitar as diferentes formas de despedida e aprender a lidar constantemente com momentos difíceis. Toda despedida envolve alguém que deixa saudades.
Local de memórias
A partir da escrita do livro, as autoras tiveram conhecimento de um famoso projeto que acontece há 14 anos no Cemitério do Bonfim, o mais antigo da cidade. O projeto, liderado pela professora-doutora em história da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), Marcelina Almeida, tem o intuito de apresentar um pouco da história e da cultura da cidade.
Como explicou Marcelina, o Cemitério do Bonfim recebe visitas mensais que convidam a população a conhecer a história, a arquitetura e o acervo artístico e cultural do espaço. A iniciativa é resultado de uma ação de extensão e pesquisa realizada em parceria entre a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZ) e a Uemg. Por meio de atividades educativas e lúdicas, o projeto busca ampliar o olhar dos visitantes sobre o cemitério e sua importância para a história de Belo Horizonte.
Desde 2018, as visitas seguem roteiros temáticos que exploram diferentes aspectos do acervo, como religiosidade, arte, protagonismo feminino, política e futebol. As atividades são realizadas entre fevereiro e novembro, preferencialmente no último domingo de cada mês, das 9h às 12h. A participação é gratuita e requer inscrição pelo site da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Todos os participantes recebem certificado digital de comparecimento.
Além de ser o primeiro fundado na capital mineira, o cemitério preserva a memória de algumas personalidades que marcaram a época em que viveram, como a religiosa Irmã Benigna, conhecida pela dedicação aos mais necessitados; o político Olegário Maciel, que governou Minas Gerais no início da década de 1930; e o escritor e jornalista Roberto Drummond, autor do romance Hilda Furacão.
A última visita de 2026 será realizada em 29 de novembro, com o tema “Arte e artistas no espaço cemiterial”. A organização já trabalha na elaboração do calendário de atividades para 2027.
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* Estagiária sob supervisão da editora Ellen Cristie
