O luto decorrente de um desastre é diferente daquele pelo qual as pessoas passam em consequência de outras mortes. É o que a experiência em consultórios, academia e a leitura da triste realidade do tráfego registrado nas estradas mineiras e brasileiras mostraram à psicóloga Adalgisa Lopes. Com ampla trajetória dedicada à avaliação psicológica de condutores e à segurança viária, ela preside a Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (ACTrans-MG), onde lidera a representação institucional das clínicas credenciadas junto ao Detran-MG, à Assembleia Legislativa (ALMG) e aos conselhos de classe. Atua ativamente no debate público sobre a valorização da perícia psicológica e a preservação de vidas no trânsito.

Qual é a diferença entre o luto por morte no trânsito e outro tipo de morte?


O luto por morte no trânsito é diferente do luto por uma morte esperada, de uma pessoa doente, por exemplo, que tem aquele processo visível. O luto é mais difícil após um acidente, porque é uma morte súbita. É violenta e, o pior de tudo, pode ser evitável. Um câncer gravíssimo não tem retorno, mas um acidente de trânsito poderia não ter acontecido. E a família não tem tempo de se despedir e nem de se preparar. Tudo só acontece. Por isso, um conselho a quem viaja agora no feriado é ter paciência. Sair cedo. A maioria dos acidentes ocorrem quando se está chegando. Então, tenha paciência.


Qual é o impacto para quem sofre essa perda súbita?


Há cinco fases no luto, que podem não ser lineares, com recaídas dependendo de cada um. Mas, geralmente, as pessoas passam pela negação, depois vem a raiva, depois a barganha, que é ela pensando o que poderia ter feito para evitar aquilo. Na sequência, temos a depressão e a aceitação. A morte súbita trava essas fases por ser muito traumática. Primeiramente, a pessoa experimenta o choque. Acha que pode não ser a pessoa, que se trata de um engano. E isso pode causar um embotamento funcional. Naquele momento, a pessoa pode não sentir nada, porque é irreal para ela. Passa por todo o processo, burocracia, funerária, velório e, às vezes, sem chorar, enquanto outros entram em desespero total, gritam, desmaiam. No segundo momento, ocorre um confronto com a realidade. É a fase mais dolorosa, quando se revive o acidente. Quer ir ao local, saber mais detalhes de quem estava junto, entender se a pessoa sofreu, imaginar aquele momento. Os últimos momentos. Afloram sentimentos de raiva. Do outro motorista, de Deus e até de si mesmo. Então vem a culpa, por que não insistiu para a pessoa ficar, por que não a reteve mais cinco minutos. E então passamos ao medo. Medo dos outros filhos morrerem, demais familiares morrerem, medo de andar de carro, medo de andar de moto. Aparecem os sintomas físicos disso tudo, como a insônia. Às vezes, uma compulsão muito grande, a pessoa começa a beber demais, a fumar demais, a comer demais. A sentir dores no peito, crises de choro, falta de ar.


Nesses processos, o que mais ajuda na superação?


Em primeiro lugar, é preciso saber que o luto não acaba nunca. Ele só muda de lugar e se torna uma saudade que te acompanha. Por isso, é importante deixar a pessoa falar. Porque quando ela fala, por mais repetitivo que pareça, traz a pessoa que se foi de volta ao seu convívio. É como quando você come algo, lembra com carinho e comenta que sua avó costumava fazer aquilo para você. Se transformou em saudade. Mas é preciso ter paciência. Muita gente volta ao lugar do acidente para entender tudo. Não é uma morbidez, é a mente da pessoa tentando entender o sentido: por que isso aconteceu? E às vezes também é muito comum do luto travar, a pessoa ficar nesse lugar, desse sofrimento por muito tempo, tentando achar uma resposta. Às vezes a pessoa vai repetir e falar daquilo, e as outras pessoas vão achar aquilo repetitivo e se aborrecerem. Mas é nesse momento que a pessoa consegue ressignificar tudo isso que ela viveu, porque primeiro você precisa entender essa lógica. À medida que eu falo de quem morreu, estou trazendo essa pessoa para o mundo.


Vemos pelos números uma crescente morte de motociclistas. Há relatos de pais e esposas ansiosos quando os filhos saem para trabalhar por causa do grande volume de acidentes. Como a senhora vê essa situação?


A gente sabe que a maior parte das vítimas em motocicletas são os entregadores, pessoas de baixa renda. E vemos um comportamento que, de certa forma, quer invalidar o luto de um motociclista, quando as pessoas falam assim: "Ah, moto é perigoso mesmo”. É como se o motociclista fosse culpado. Não deveria andar de moto. Ou os familiares não deveriam deixá-lo andar de moto, como se isso fosse possível. A gente sabe que as pessoas compram a moto para trabalhar, porque elas não têm condições de comprar outro tipo de veículo. Um carro é muito caro. Isso são coisas que a gente ouve e que são muito perversas se a gente for pensar, né?


Que outros impactos as mortes de motociclistas trazem?


Temos um luto diferente na família. Porque ela tem que ir ao IML reconhecer o corpo, tem que lidar com a questão de seguro, com a polícia e reviver tudo aquilo novamente. A questão de quem vai sustentar a família que deixou. Os impactos econômicos são enormes. No Brasil, em 10 anos, foram R$ 130 bilhões gastos em atendimento a pessoas acidentadas no trânsito. As vítimas motociclistas estão em uma idade produtiva, são jovens de 18 a 39 anos. Se ele não morrer, ele tem sequela permanente, que impacta no INSS.


Neste Dia de Finados, como superar essa dor?

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As pessoas precisam chegar até o momento de entender que não vamos evitar a morte de ninguém quando ela acontece. Quando o fato acontece, escapa da nossa possibilidade de agir. Por isso a terapia é muito importante. Para reorganizar isso tudo que aconteceu, a rotina, os vínculos. Ajudar a pessoa a sair desse lugar de dor e voltar a ser quem ela era. É preciso aprender a viver sem essa pessoa que se foi. Tentar ver fotos, criar pequenos rituais, reorganizar os papéis dentro de casa. Às vezes, a pessoa tinha uma função ali e que outros terão de assumir. E esse é o momento da saída do luto, o último momento, de tentar entender e aí a psicoterapia é importante e vai ajudar.

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