A coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues assumiu o comando-geral da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), aos 48 anos, em 23 de maio deste ano. Naquele dia, ela se tornou a primeira mulher aocupar tal posto em toda a história de 249 anos da corporação. Belo-horizontina, Cleide é filha de militar e tem longa carreira na PMMG: ingressou na corporação em 1997, quando tinha 18 anos. Em 2000, concluiu o curso de formação de oficiais. Ao longo da trajetória militar, formou-se bacharel em Direito e especialista em Direito Militar, Gestão Estratégica de Pessoas e Violência Doméstica. Antes de se tornar comandante-geral, ela ocupava a Diretoria de Proteção Social (DS) da corporação. Em entrevista a Ricardo Carlini, no EM Minas, programa da TV Alterosa, em parceria com o jornal Estado de Minas e Portal Uai, Cleide fala não sobre a própria trajetória, dentro e fora da corporação, e também sobre os desafios e as realizações de comandar uma das maiores forças de segurança do país.


As mulheres já mandam em tudo: a mulher que comanda a Polícia Militar é ainda mais mandona?
Não, de forma alguma. Todas as decisões são tomadas em conjunto, com muita tranquilidade, serenidade e firmeza na execução.


Como a tropa, que é predominantemente masculina, recebeu a senhora?
A recepção foi excepcional. É muito bom nós conseguirmos ver nos olhos das pessoas a validação de toda uma carreira, de tudo aquilo que foi construído ao longo do tempo. E eu vejo esse reconhecimento nos olhos de cada um. O mesmo reconhecimento que eu vi quando fui a primeira mulher comandante de uma companhia Tático Móvel em Belo Horizonte, quando eu assumi a subchefia do Gabinete Militar do Governador também; fui a primeira mulher a assumir essa função. Então, a carreira que nós construímos ao longo do tempo traz uma legitimidade muito grande e esse reconhecimento das pessoas.


Vocês ascendem na carreira militar muito jovens porque já vêm da academia, certo?
Sim, eu entrei para a academia aos 18 anos de idade, logo que eu me formei no ensino médio.


A vida militar está no DNA da família ou a senhora é a primeira?
Meu pai é terceiro-sargento reformado, da reserva da Polícia Militar; meu irmão também é terceiro-sargento, hoje; e meu marido é primeiro-sargento da reserva.


Sua mãe estava presente quando a senhora assumiu a Polícia Militar, e as imagens dela causaram repercussão. Fale sobre ela.
O nome da minha mãe é Maria Geralda. Ela tem 73 anos de idade e cresceu no interior de Minas. Ela sempre sonhou em ser advogada, mas acabou que, por circunstâncias da vida, ela não pôde exercer a profissão que ela havia escolhido e abdicou de trabalhar fora para cuidar de nós quatro. Somos quatro irmãos.


A senhora se emocionou quando ela se pronunciou na posse, certo? Dona Geralda deve ter muito orgulho.
Ela tinha um pesar muito grande por não ter trabalhado fora. E meu marido sempre fala com ela: "Dona Geralda, a senhora não trabalhou fora, mas olha o que a senhora fez. Olha o que a senhora ajudou a construir: quatro filhos, três casados, quatro netos, todos profissionais, todos com casa própria”. Então, aquilo que ela fez por nós era o propósito que ela tinha; era o que estava reservado para ela, junto com meu pai. A gente sempre tenta mostrar isso para ela. Em que pese ela não tenha trabalhado fora, o que ela fez por nós não tem preço.


Parece que algumas famílias estão se desmanchando e que há uma geração que condena o papel paterno, o papel materno. A senhora concorda?
É muito triste a gente fazer essa constatação, porque aquilo que a gente enxerga dentro da sociedade, hoje, é muito em consequência disso. Minha mãe nunca deixou a gente ir para as festas nas casas dos colegas, brincar sozinho na rua... Para algumas pessoas, hoje, isso pode parecer uma mentalidade retrógrada ou que está querendo prender os filhos, mas a gente agradece muito. Todas as vezes que a gente ia brincar na rua, ela ficava em pé. Então, a gente ficava pedindo a Deus pra ela não ficar cansada, porque na hora em que ela cansasse, todo mundo tinha que entrar em casa. Ela falava assim: “olha, eu tenho quatro filhos. Vocês precisam aprender a trabalhar, a brincar entre vocês. Vocês precisam fortalecer os laços entre vocês.” E nós tínhamos divisão de tarefas. Então, a gente tinha um tipo de escala de serviço em casa mesmo, em que cada um, durante a semana, fazia alguma coisa: nossa negociação era essa. “Ó, eu sou responsável pelo almoço agora, nesta semana, e você, pelo jantar. Vamos trocar? Ou vamos trocar lavar o banheiro? Ou vamos trocar e arrumar a casa?" Tudo isso é importante para a formação das pessoas. Toda essa nossa vivência, tanto tendo meu pai e tendo minha mãe ensinando aquilo que a gente deveria fazer e aquilo que a vida iria cobrar pra gente no futuro, foi importante para todos os quatro.


O que está faltando hoje, na sociedade, coronel?
Resgatar essa referência de autoridade do pai e da mãe. Eu já era primeiro-tenente, eu tinha horário para chegar em casa. E eu já estava namorando com quem veio a ser meu marido. Então, nós precisamos estar mais próximos, e a nova geração precisa aprender a ouvir os pais. Porque quando os pais falam alguma coisa, não é porque estão querendo tolher a liberdade do filho, muito pelo contrário. Estão querendo, muitas vezes, que os filhos não sofram aquilo que eles já sofreram anteriormente. E eu sei que quando a gente é jovem, não é fácil de aceitar. Minha mãe era assim, eu tinha horário pra chegar em casa, e era às onze da noite; às cinco para as onze, ela já ligava perguntando onde é que eu estava. E, da mesma forma, foi com os meus irmãos. Eu consigo ver hoje, tendo o meu filho, o quão importante isso foi para nós. Depois que a gente conta isso tudo, compartilha com o meu filho, a gente fala das nossas vivências, ele mesmo já tem o horário, que ele mesmo já estabelece, inclusive aonde que ele vai, com quem que ele vai. É tudo como combinado. Então ele mesmo já fala: "olha, mamãe, estou querendo ir a tal lugar." Então, meu marido leva, e a gente busca.


Além da senhora, que é a primeira comandante-geral da Polícia Militar, Minas Gerais também tem a coronel Jordana de Oliveira Filgueiras Daldegan do comando do Corpo de Bombeiros e a dra. Letícia Baptista Gamboge Reis na chefia da Polícia Civil. Assim, toda a segurança pública do estado está na mão de mulheres.
Sim, é uma honra muito grande fazer parte desse momento da história. Nós reconhecemos a autoridade e todo o trabalho feito pela Dra. Letícia, e a gente sempre reconhece o bom serviço prestado por ela, toda a competência dela, que abriu as portas para que outras pudessem vir. E a Coronel Jordana assumiu o Corpo de Bombeiros, eu tive essa oportunidade de ter assumido a Polícia Militar de Minas Gerais. Então, o que as mulheres muitas vezes esperam é uma oportunidade para mostrar que elas podem, que elas são capazes e que liderança, profissionalismo, dedicação, independe de gênero. Todos nós podemos fazer muito mais se tivermos a oportunidade pra tal.


A polícia é inteligência, prevenção e também acolhimento. Hoje, com facções e organizações criminosas surgindo, é mais difícil combater o crime?
Hoje nós precisamos avançar da mesma forma que o crime avança na questão da tecnologia, da predição das ações criminosas. Nós vamos trabalhando com inteligência, com dedicação, com tecnologia, para que nós possamos fazer esse combate à criminalidade.


O nível de armamento que está na mão dessas organizações aumentou muito? Hoje, é apreendido quase um fuzil por semana em Minas.
O que eu gosto de destacar é realmente a ação da apreensão. Ou seja, eles podem estar chegando, mas imediatamente nós estamos fazendo a apreensão e a prisão de todos os indivíduos que estão portando esse tipo de armamento, dando uma pronta resposta e demonstrando que aqui, em Minas Gerais, não haverá tomada de território. Nós vamos continuar a agir com firmeza. Eu tenho por hábito de ligar para os policiais militares que participam de alguma ocorrência de destaque, e é muito interessante verificar o quanto eles conhecem as histórias de cada criminoso que está dentro da área de responsabilidade de atuação de cada um deles. Como a gente consegue fazer todo esse mapeamento e fazer esse enfrentamento em conjunto com os outros órgãos de segurança pública. Então, hoje, em Minas, nós temos um combate ferrenho a todo tipo de organização criminosa, e estamos dando pronta resposta em todas as ações.


Mas não seria um trabalho de enxugar gelo? Recentemente, um ladrão de fios foi preso pela 80ª vez. Casos assim, demonstram falhas da justiça?
O enfrentamento à criminalidade deve ser multifacetado. Então, todos os órgãos e instituições envolvidos precisam agir, de alguma forma, para que seja dada continuidade a todas as ações iniciais, que muitas vezes partem da Polícia Militar. E cada órgão vai responder dentro do seu grau de responsabilidade. Dentro da instituição, eu, por ter trabalhado boa parte da minha vida na área operacional, com as equipes, sempre tentava demonstrar para eles que é necessário que nós continuemos, independentemente das ações a serem adotadas pelos outros órgãos e por outras instituições, porque nós temos compromisso com a nossa missão, com aquilo que nós temos que fazer. Então, se eu vou estar dentro da instituição entre 30 e 35 anos, eu preciso efetuar a prisão de todas aquelas pessoas que infrinjam a lei; eu preciso fornecer segurança para toda a sociedade mineira, independentemente de quem sejam essas pessoas a serem presas.


A Polícia Militar fez ações recentes em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, e também no Triângulo Mineiro. O interior do estado, hoje, demanda tanta atenção quanto a Região Metropolitana?
Nós conseguimos, através de um sistema desenvolvido dentro da instituição, acompanhar indícios de tentativa de tomada de territórios e de governança criminal. Através desse sistema e através das informações que nos chegam, a gente consegue mapear esses lugares e saturar, de maneira que a gente consiga identificar todos os envolvidos e agir prontamente. E nós temos essa ação desenvolvida tanto na capital quanto no interior do estado, tão logo seja detectado algum indício de tentativa de tomada de território.


A Polícia Militar de Minas Gerais tem 249 anos e é a tropa de Tiradentes. A senhora faz parte da história da corporação, junto com outros militares. Conte quais foram as primeiras atividades na tropa e o que mais chamou atenção nesses 30 anos de carreira.
É uma honra comandar a Polícia Militar de Minas Gerais, instituição que eu amo. Juntando os meus 30 anos, juntando os 30 anos do meu marido, os 30 anos do meu pai, e os 20 anos do meu irmão, boa parte dessa história se confunde com a história da nossa família. É uma instituição que eu amo, uma instituição que me deu tudo o que eu tenho, e é tudo o que meu marido e meu pai também sempre falam. Meu pai, hoje, já não tem mais condições de falar; ele não acompanhou a minha ascensão, mas eu tenho certeza de que, no fundo, ele conseguiu perceber tudo que aconteceu ao redor dele. E eu faço isso tudo primeiramente por honra a Deus, que me colocou aqui, mas também pra poder honrar o nome da minha família. E eu tenho tentado tomar um cuidado muito grande para destacar uma função ou outra, porque outro dia eu destaquei o tempo que eu fiquei na Diretoria de Proteção Social, que cuida da proteção social, da saúde dos policiais militares. E, aí, o pessoal da comunicação me chamou atenção e falou assim: “Senhora, e a Diretoria de Comunicação Organizacional? E a Companhia Independente de Prevenção à Violência Doméstica? E o Tático Móvel lá de Venda Nova? E a radiopatrulha, também lá em Venda Nova?” Então, eu acho que todas essas atividades, elas me ajudaram a crescer, me ajudaram a me desenvolver.


Na questão da violência doméstica, da violência contra a mulher, são muitos os casos. O que está acontecendo?
Trabalhar na prevenção à violência doméstica, para mim, foi gratificante. Entender um universo que, muitas vezes, está distante da nossa vivência. E trabalhar com as vítimas nos mostrou que a gente precisa, cada vez mais, levar conhecimento às pessoas. Eu sempre gosto de trabalhar, de falar nas palestras, quando eu tenho a oportunidade de ministrar, que nós precisamos rever muitos dos nossos valores. E alguns valores estão sendo deixados de lado. Muitas pessoas atrelam muito a questão da violência doméstica ao embate entre machismo e feminismo. Só que há uma história curiosa que aconteceu no Canadá: um avião teve que retornar para o ponto zero, porque uma criança não quis colocar o cinto de segurança. E, aí, a gente fica pensando: como é que essa criança vai crescer? Quais são os valores que ela tem? Alguém, alguma vez, impôs limite a ela? Provavelmente, pode ser que ela venha a ser um agressor no futuro, porque se ela conseguiu fazer com que um avião com 200 pessoas retornasse ao ponto zero, que mulher, no futuro, poderá falar com ele que não quer mais manter um relacionamento? As pessoas não aceitam o ‘não’, não aceitam o término, não aceitam que passou e que está no momento de reiniciar a sua história. E quando a gente fala que a violência está aumentando, o que eu percebia na prevenção é que essa violência existe, porque quantas pessoas, hoje, não fazem o registro do boletim de ocorrência? Quando nós íamos fazer contato com as vítimas, elas falavam assim: “Tem 5 anos que eu vivo desse jeito. Tem 10 anos que eu vivo desse jeito.” Tinha mulher que há 40 anos vivia daquela forma. A violência, ela estava acontecendo; só não estava sendo registrada. Ela não era notificada e estava longe dos nossos olhos. E, hoje, não. A partir do momento em que a gente concede entrevistas, que a gente traz para a discussão a questão da violência doméstica, que a gente leva ao conhecimento das pessoas e consegue fazer com que elas consigam identificar o que é violência...

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Encoraja a denúncia?
E mostra que existe uma rede que pode tentar ajudar de alguma forma a fortalecê-las, para elas saírem da situação de violência em que elas se encontram. E elas registram. E, se for conversar com elas, elas vão falar: "Olha, não foi a primeira vez. Já estava acontecendo há mais tempo." Ou seja, a violência fazia parte da nossa sociedade: a gente só não conseguia enxergar. Hoje, a gente enxerga. Então, essa violência existe e sempre existiu. Nós, como rede de enfrentamento à violência doméstica, precisamos nos fortalecer e nos unir cada vez mais para fortalecer essas mulheres e conseguir fazer com que elas saiam da situação de violência em que elas se encontram. É claro que existem situações em que os feminicídios ocorrem, e as mulheres, elas nunca registraram (agressões anteriores), ou foi o único fato realmente que aconteceu. Mas a experiência nos mostra que, na grande maioria dos casos, é uma evolução de uma violência que ela vai acontecendo no dia a dia. Uma experiência muito boa mesmo que nós tivemos foi esse trabalho em rede. Porque quando a mulher entrava no sistema, e a gente trabalhava com ela na prevenção à violência doméstica, a gente conseguia ver a evolução dos casos, e era gratificante. Era muito bom! No início, a gente percebia que elas às vezes já não tinham mais a alegria de arrumar o cabelo, de passar um batom, de fazer uma unha, de cuidar dela mesma, né? E à medida que o acompanhamento ele ia evoluindo, e que aí a gente ia conseguindo mostrar para elas as possibilidades de conseguir sair daquela situação de violência em que elas se encontravam, ao final ela já surgia uma outra pessoa. Ela tinha reencontrado a paz. Há todo um sistema pronto para poder receber e dar sustentação a elas.

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