Ondas de calor combinadas com estiagens que ameaçam o abastecimento de água e são capazes de afetar a saúde dos mineiros, elevando a tendência sobretudo de casos de insuficiências cardíacas, respiratórias e renais, além do aumento de doenças transmitidas por vetores, como a dengue. Tempestades repentinas e devastadoras, ameaçando moradias, inundando ruas e bloqueando vias. Quebra de safras, redução da produção de carne, leite e ovos. Os possíveis efeitos de um super El Niño sobre Minas Gerais representam um desafio concreto para autoridades e já mobilizam órgãos públicos.
Diante dessas ameaças, por meio de decreto estadual, o governo de Minas formalizou a criação de um comitê de crise e estruturou um plano intersetorial de contingência para enfrentar anomalias provocadas pelo fenômeno climático extremo. A mobilização preventiva responde ao alerta conjunto divulgado pelo Painel El Niño — composto por Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
O trabalho intergovernamental projeta 100% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027. De acordo com o mesmo documento técnico interinstitucional, há alta probabilidade de desvios térmicos na superfície do Oceano Pacífico Equatorial acima de 2°C entre esta primavera e o próximo verão, configurando um evento de intensidade extrema.
Seca, chuva e tecnologia
“A Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec-MG) já tem os planos previstos para desastres ligados às chuvas, à seca e também aos desastres tecnológicos. A Defesa Civil não é apenas um órgão, ela é o sistema, em que combinamos ações da Defesa Civil com secretarias como Saúde, Agricultura, Meio Ambiente e Infraestrutura, cada uma com suas ações orçamentárias próprias”, explica o coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende, chefe do Gabinete Militar do Governador e coordenador estadual de Defesa Civil.
O oficial revela que a formalização do plano estadual partiu de deliberações diretas do primeiro escalão para garantir respostas imediatas para cidades mais ameaçadas. “Para tornar mais robustas essas ações, que já convergem, e considerando o monitoramento contínuo do El Niño, o governo optou por implementar esse comitê por decreto. O ponto de partida foi uma decisão no nível estratégico dos secretários, os tomadores de decisão, garantindo ações alinhadas não só para a resposta a desastres, mas sobretudo para a prevenção”, afirma o coronel Paulo Roberto.
O primeiro setor crítico
O teste inicial de resistência do plano estadual recai sobre o sistema de saúde pública, submetido aos efeitos da alternância entre períodos áridos e temporais violentos, segundo diagnóstico da Cedec-MG e relatórios meteorológicos. “Em todas as regiões, a Saúde vai com a gente para falar dos impactos causados pela seca, como doenças respiratórias, e pelo excesso de chuva, que deflagra o avanço das arboviroses, principalmente a dengue e a chikungunya”, aponta o chefe da Cedec-MG.
A preocupação das autoridades estaduais se apoia no histórico: durante o último ciclo de super El Niño, Minas Gerais bateu recordes de infecções por dengue, segundo registros da Secretaria de Estado de Saúde. Paralelamente, o ressecamento do ar e a poluição concentrada agravam ou favorecem casos de insuficiências renais, cardíacas e pulmonares na população vulnerável, conforme dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Para evitar a sobrecarga de atendimentos nas cidades polo, a Secretaria de Estado de Saúde montou uma estrutura regionalizada de retaguarda, segundo informa o comando da Defesa Civil estadual. O plano hospitalar da pasta prevê a ampliação imediata do quadro de plantonistas, a abertura de leitos e a reposição contínua de medicamentos e vacinas em unidades regionais, detalha o coronel Paulo Roberto.
Educação é arma contra desastres
Para além das ações imediatas de chuva e seca, o governo de Minas estruturou um plano estratégico permanente voltado à educação pública contra desastres, baseado em cooperação internacional com a província de Yamanashi, no Japão. “Alertas e alarmes são importantes, mas o principal é o comportamento humano. Temos essa parceria com o Japão focada em prevenção e nosso quarto plano é a educação em Defesa Civil com crianças e adolescentes, que têm capacidade enorme de transformar atitudes no presente”, afirma o chefe da Cedec-MG, coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende.
Minas contra o super el niño
Governo estadual cria comitê de crise e estrutura plano de contingência para conter impactos de temporais, calor extremo e estiagem prolongada
Alertas e ações
- Probabilidade de 100% de persistência do fenômeno climático até o início de 2027, com anomalias térmicas oceânicas superiores a 2°C
Previsão de pelo menos seis grandes ondas de calor no país até dezembro, devido a bloqueios atmosféricos de ar seco - Histórico de 50 mil mortes causadas por calor extremo em 20 anos em 14 regiões metropolitanas brasileiras, volume 20 vezes maior que os óbitos por deslizamentos
Quase um quarto da população dos maiores municípios mineiros sob ameaça direta de alagamentos repentinos e cheias de rios
Quebra da previsibilidade de safra e risco de perdas severas em lavouras de café, soja, milho, feijão e hortaliças - Formalização do Comitê Estadual e Plano de Enfrentamento pelo Decreto Estadual 49.283/2026, para articular Defesa Civil e secretarias.
Prevenção, proteção e cuidados
Remoção preventiva em encostas: desocupar habitações em áreas de risco geológico antes da consolidação de temporais, para evitar soterramentos
Vigilância contra doenças: eliminar focos de acúmulo de água para barrar a proliferação de dengue e chikungunya nas chuvas; manter hidratação contra crises renais e respiratórias no tempo seco
Manejo agrícola: recorrer à assistência técnica da Emater e Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) para planejar semeadura e irrigação diante de secas intercaladas por temporais
Isolamento industrial: isolar áreas de docas, câmaras frias e salas limpas industriais para evitar entrada de poeira e umidade que causam corrosão e fungos
Controle térmico industrial: reduzir o tempo de abertura de portas industriais climatizadas para proteger matérias-primas e equipamentos sensíveis
Atenção aos canais oficiais: acompanhar comunicados meteorológicos e alertas da Defesa Civil para modular comportamentos em áreas sujeitas a enxurradas
Resposta estadual a desastres
Monitoramento no Centro de Inteligência: reuniões técnicas semanais com municípios e parceiros para calibrar alertas, sem gerar pânico
Capacitação e aparelhamento: treinamento presencial de servidores municipais e entrega de kits com viaturas e notebooks vinculada à aprovação de planos de contingência
Acionamento em até 24 horas: envio de equipe estadual e pacote inicial de suporte assim que a capacidade de socorro do município diante de eventos extremos for extrapolada
Apoio técnico burocrático: orientação imediata às prefeituras no preenchimento de sistemas de decretação de emergência para destravar verbas de reconstrução
Gestão de campo: instalação física do Posto de Comando em localidade atingida por eventos extremos, sob a metodologia do Sistema de Comando em Operações
Abrigamento e ajuda humanitária: entrega de colchões, cestas e kits dormitório com desmobilização rápida de escolas para retorno da rotina pública
Alerta no agro
Raio-X das perdas projetadas na agropecuária mineira
Soja
3,5 milhões de toneladas ameaçadas por estresse hídrico no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (58% da safra de Minas)
Milho
2,5 milhões de toneladas sob risco de quebra pluviométrica no cerrado mineiro (32% do volume estadual)
Café arábica
Risco de abortamento de flores por calor intenso no Sul/Sudoeste (650 mil toneladas / 41%) e Zona da Mata (370 mil toneladas / 23%)
Hortaliças e batata
Perdas por evapotranspiração acelerada no Triângulo Mineiro (750 mil toneladas de hortaliças e 450 mil toneladas de batata)
Bovinocultura de leite
Queda na captação por estresse calórico no rebanho do Triângulo e Alto Paranaíba, bacia que gera 2,33 milhões de toneladas anuais (25% do estado)
Corte, suínos e aves
Degradação de pastagens no Noroeste e risco de mortandade térmica em granjas de postura no Sul de Minas e na Grande BH
Do risco negligenciado à ameaça bem conhecida
A previsão de um super El Niño, com influência até o próximo ano, representa um fator de risco iminente mapeado para o território mineiro que poucas vezes é considerado: o calor severo. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) projeta que o Brasil poderá registrar pelo menos seis grandes ondas de calor até dezembro deste ano. Meteorologistas do Cemaden destacam que centros de alta pressão atmosférica atuam como bloqueios que retêm o ar seco e quente, dissipam a nebulosidade e aceleram a perda de umidade do solo.
Os perigos dessa dinâmica atmosférica são subdimensionados, segundo alerta a professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e integrante do comitê técnico da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Com base em estatísticas do Sistema Único de Saúde (SUS), a pesquisadora destaca que as ondas de calor provocaram 50 mil mortes em 14 regiões metropolitanas do país entre 2000 e 2020. “Isso é 20 vezes maior do que as mortes por deslizamentos de terra no mesmo período; as ondas de calor ainda são um desastre completamente negligenciado”, adverte Renata Libonati.
Nas cidades mineiras, no entanto, para além do calor, a força das tempestades de primavera e verão mantém sob ameaça física direta cerca de um quarto dos moradores de grandes centros urbanos, aponta pesquisa do Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi). Belo Horizonte concentra 2,3 milhões de habitantes sob risco hidrológico alto e geológico médio nas bacias dos ribeirões Arrudas, Onça e Pampulha, de acordo com modelo de inteligência artificial da Uniasselvi.
A mancha de vulnerabilidade urbana se repete em Contagem, com 621 mil moradores na área de influência do Arrudas, e em Betim, com 411 mil cidadãos ameaçados pelas cheias do Rio Betim, calcula a Uniasselvi. Ainda na Grande BH, os municípios históricos de Santa Luzia e Sabará, banhados pela calha do Rio das Velhas, somam alto perigo de inundações em áreas ribeirinhas, aponta a mesma instituição acadêmica. O estudo da Uniasselvi também classifica com alto risco para enchentes as cidades de Governador Valadares, Ipatinga, Coronel Fabriciano, Teófilo Otoni, Almenara, Januária, Uberlândia e Divinópolis.
Resposta modulada
“Nosso primeiro passo, para nem subestimar o evento e nem potencializá-lo além do que se deve, criando pânico, é fazer um monitoramento contínuo no Centro de Inteligência, com briefings semanais para municípios e parceiros. O fenômeno climático não é desastre; o desastre ocorre quando ele encontra as vulnerabilidades nas comunidades, como ocupações irregulares de encostas e baixa resiliência hídrica no semiárido”, destaca o coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende, chefe do Gabinete Militar do Governador e da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec-MG).
O oficial adverte que o relevo acidentado e as moradias precárias exigem a remoção preventiva e forçada de famílias antes da consolidação de temporais prolongados. “É importante ter clareza de quais são as áreas de risco de cada município e do tratamento a ser adotado. Teremos casos em que famílias necessitam ser removidas porque há a possibilidade concreta de a residência vir a ser engolida pela terra ou soterrada em um deslizamento. Os gestores locais precisam conhecer o risco para saber como se comportar”, adverte o chefe da Defesa Civil estadual.
Para acelerar a pronta identificação desses pontos críticos, a Defesa Civil capacitou presencialmente 840 servidores públicos de 230 prefeituras na atual fase estadual preparatória para o El Niño, informa a Cedec-MG. A resiliência municipal também é reforçada pela doação de kits de Defesa Civil, com viaturas, computadores e trenas digitais, benefício já entregue a 80% das cidades do estado, calcula o coronel Paulo Roberto. O fornecimento desses equipamentos estruturais, contudo, é condicionado à apresentação e aprovação de planos municipais de contingência consistentes, estabelece a coordenadoria.
Padrão de ação
Quando os eventos extremos superam a barreira da prevenção local, a Defesa Civil de Minas prevê um protocolo rígido de resposta imediata, segundo o comando da corporação. “Desde o fim de 2024, colocamos a meta de responder em menos de 24 horas a todos os municípios que solicitarem socorro, chegando com um pacote inicial: apoio técnico burocrático na decretação para captação de verbas, envio imediato de equipe de resposta, ajuda humanitária e a articulação de todas as secretarias estaduais”, detalha o coronel Paulo Roberto.
No plano de campo, as operações de resgate e contenção usam metodologia gerencial internacional do Sistema de Comando em Operações, pontua o chefe da Cedec-MG. “A equipe técnica de resposta enviada ao município instala fisicamente o Posto de Comando no local afetado e passa a operar o Sistema de Comando em Operações, integrando todos os serviços públicos de emergência”, detalha o coronel Paulo Roberto.
A logística humanitária descentralizada pelo estado providencia kits dormitório, colchões, cestas de alimentos e produtos de limpeza e higiene para socorrer pessoas desabrigadas, informa a Defesa Civil. O uso de prédios públicos e escolas como alojamentos, entretanto, é desenhado pela Defesa Civil como medida de curtíssimo prazo para não comprometer a rotina local, esclarece o coronel da Cedec-MG.
“Os abrigos são temporários e precisamos restabelecer a normalidade rapidamente, para que as pessoas voltem para suas casas e as crianças retornem à escola. A intervenção estadual ocorre quando a capacidade do município é extrapolada, mas não adianta o estado ser forte se o município, que é onde a vida acontece, estiver desestruturado”, avalia o coordenador da Defesa Civil.
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Preparação para o agro
Na economia rural, a instabilidade pluviométrica traz ameaças de perdas severas à agricultura e pecuária mineiras, indica levantamento agronômico Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi). “Montamos uma grande frente em conjunto com a Secretaria de Agricultura e a Emater. Como se espera um prolongamento da estiagem intercalado por pancadas fortes de chuva, há quebra daquela previsibilidade de plantio e colheita necessária ao produtor. Colocamos os técnicos em contato com o agro para orientar a preparação do setor”, afirma o coronel Paulo Roberto, chefe da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil.
