Despertar de manhã cedo, abrir a janela e contemplar a barragem Santa Lúcia, na Região Centro-Sul de BH, são prazeres que fazem a diferença no cotidiano do galerista Murilo Castro. Morador de um apartamento de cobertura no Bairro Santa Lúcia, ocupando quinto e sexto andares, ele tem na parte superior um jardim formado por cinco pés de limão siciliano, três jabuticabeiras, a ornamental kaizuka, além de canteiros de hortaliças, temperos, morangos e alecrim. “Daqui de cima, avisto a Vila Paris, o Bairro Santo Antônio e outras partes da cidade, paisagem emoldurada pelas plantas”, diz o mineiro de Araxá (Região Alto Paranaíba), residente em BH desde 1975.


Murilo considera privilégio habitar o imóvel construído nos anos 1970 e desfrutar do verde. A palavra, por sinal, é sublinhada com entusiasmo, pois a cor predomina no ambiente. “Quando comprei o apartamento, havia apenas uma videira, e mais tarde foi feito o paisagismo”, explica.


Ao ar livre, ele diz bem-humorado: “Você não imagina quantos passarinhos chegam aqui. Muitas vezes, tenho a impressão de flutuar neste espaço, ainda mais porque o verde atrai canarinhos, bem-te-vis e sabiás...fico como se fosse um drone”. Para ele, o terraço representa lugar para reflexão, receber amigos – “tudo muito zen”.


Enquanto vai mostrando as plantas da área, que ganhou mais forma e força a partir de 2022, Murilo volta os olhos para o passado recente e lembra que “a pandemia mudou o mundo”. Foi então que sentiu mais necessidade de se integrar à natureza, encontrar o ponto ideal para contemplação e convívio. “Vejo esse brilho maravilhoso das águas da represa e fico feliz. E melhor, não tenho problemas com pernilongos.”


Nesse clima “reconfortante”, são importantes alguns cuidados para manter a saúde desse “jardim suspenso”. Se a chuva de setembro trouxe mudança de ares e deixou o cheiro agradável de terra molhada, se tornam fundamentais, no período de estiagem, a irrigação, as podas, a retirada de folhas e galhos secos. Enfim, o trato. “Mas tão bom quanto ficar olhando para as plantas é a interação com cada uma, o cultivo, o zelo. Caso a pessoa não tenha muito espaço em casa, acredito que um vaso se torna absolutamente necessário, afinal nós, seres humanos, precisamos do contato com a natureza.”

"Já morei em casa, sempre fui fascinada pelas árvores e demais elementos da natureza. Aqui mesmo na frente da varanda tem uma castanheira que acompanho há anos. Gosto de apreciar as mudanças na cor das folhas, ver o crescimento do tronco. Veio dessa árvore a inspiração para meu jardim suspenso", Rose Mary Chiari, na varanda do seu apartamento no Bairro Gutierrez  

Jair Amaral/EM/D.A Press


NA VARANDA E NO CORAÇÃO, ORQUÍDEAS COLOREM O DIA


Também na Região Centro-Sul da capital, desta vez no Bairro Gutierrez, a belo-horizontina Rose Mary Chiari tem a companhia de pés de jabuticaba, romã e pitanga, guardando espaço para receber, em breve, também os de figo, amora e limão siciliano. No segundo andar, ela faz um agrado aos seus olhos e aos de amigos com vasos de orquídeas, de várias tonalidades, e de outras flores dispostos na varanda que inclui canteiros de hortaliças e ervas aromáticas a exemplo de tomilho, alecrim, sálvia e manjericão.


“Trago um pedaço da natureza para dentro de casa”, afirma a empresária do setor de massas. Pela manhã, ela gosta de tomar seu café na varanda florida e colorida, e fica satisfeita ao ouvir o canto de galos na vizinhança. “Acredita que sobraram quatro jabuticabas?”, aponta com alegria ao se levantar da mesa, mostrar as últimas frutas do pé e oferecer ao repórter.


A relação de Rose com o reino vegetal mistura admiração, afeto, observação. “Já morei em casa, sempre fui fascinada pelas árvores e demais elementos da natureza. Aqui mesmo na frente da varanda tem uma castanheira que acompanho há anos. Gosto de apreciar as mudanças na cor das folhas, ver o crescimento do tronco. Veio dessa árvore a inspiração para meu jardim suspenso.” Estar junto da natureza, principalmente numa cidade grande, é “poético e salutar”, acrescenta, pois tudo vai se renovando com o tempo, mesmo “que não tenhamos estações tão bem definidas como em outros países”.


Formada em letras e comunicação social, Rose aprendeu muito com a mãe, Iracema Ferreira Chiari, que, antes de trabalhar com massas italianas, foi dona de uma floricultura e era “encantada” pela natureza, em especial as avencas. “Nada melhor do que ver um broto nascendo, regar as plantas, manter a saúde das flores. Sempre procuro ver a beleza, e acredito que o belo e o bom se complementam. Na verdade, são companheiros”, diz Rose.

 

"Costumo colocar água de arroz e casca de batata na samambaia. Devemos tratar as plantas muito bem. Nem que for um vasinho de flor, a pessoa deve ter em casa para alegrar o dia", Lurdes Rosa de Jesus, moradora do aglomerado Morro do Papagaio, ao lado da samambaia chorona  

GABRIELA MATOS/ARQUIVO PESSOAL


SAMAMBAIA CHORONA SÓ TRAZ ALEGRIA A DONA LURDES

Nas alturas do aglomerado Morro do Papagaio, também na Centro-Sul, dona Lurdes Rosa de Jesus, de 81 anos, tem cantinho reservado para uma planta “verdinha em folha”, cheia de história e com quase dois metros de altura. Trata-se de uma samambaia chorona. “É minha paixão. Fica aqui perto da porta, cuido muito dela”, diz a viúva, que tem cinco filhos, seis netos e quatro bisnetos.


Natural de Tarumirim, na Região do Rio Doce, dona Lurdes começou a gostar de plantas, principalmente de jardins, quando chegou à meia idade. E a relação se fortaleceu com afeto, cuidado, água e adubação. “Costumo colocar água de arroz e casca de batata na samambaia. Devemos tratar as plantas muito bem. Nem que for um vasinho de flor, a pessoa deve ter em casa para alegrar o dia”, acredita.
A chegada da samambaia à casa de dona Lourdes, há alguns anos, foi surpreendente. Um de seus filhos viu a planta abandonada, na rua, e decidiu levá-la para a mãe. “Quando vi, retirei da lata em que estava, cortei os galhos secos e coloquei no (vaso de fibra) xaxim. Com o tempo, foi ficando cada vez mais bonita, e agora está deste tamanho”.


Embora goste de flores, dona Lurdes tem agora apenas folhagens no seu pequeno jardim, mas já são suficientes para completar seu dia. “Minha filha brincou outro dia: ‘Ó, mãe, quando a senhora começar a conversar com as plantas, vou ficar preocupada’.” Depois de dar uma risada, ela arremata. “As plantas são companheiras e amigas, é bom ter sempre por perto”.


Do alto do Morro do Papagaio, a moradora vê a cidade a seus pés, mas não há mais tanto verde como quando chegou a BH, recém-casada. “Os prédios hoje tomam conta de quase todo o espaço”, resume.

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ONDE COMEÇOU A HISTÓRIA DE CIDADE JARDIM?


Belo Horizonte ficou conhecida, ao longo de décadas, como Cidade Jardim. Mas de onde nasceu essa ideia? Quem explica é o pesquisador da história da capital, Yuri Mello Mesquita: “Ao longo dos anos, BH ressignificou várias vezes em seu discurso político o conceito de ‘Cidade Jardim’, muitas vezes para propalar o plantio de árvores, a moldura verde da Serra do Curral ou para usos político-eleitorais e administrativos. O conceito remonta ao urbanista inglês Ebenezer Howard (1850-1928), mas ganhou vida própria aqui”. “Originalmente”, diz o historiador, “a ideia se relacionava a uma cidade planejada no interior de um cinturão verde agrícola, que serviria, também, para o abastecimento alimentar da urbe. Desejava-se uma maior fruição da cidade, por meio do aproveitamento das funções necessárias às necessidades humanas, tanto rurais quanto urbanas. O meio biofísico era valorizado, com uma forte presença na urbe”. Segundo Yuri, essas ideias foram apropriadas desde a fundação de BH, e posteriormente o “verde” moldou um sentido de pertencimento coletivo aos moradores da capital mineira. “Isso explica as inúmeras vezes que esse conceito político foi reinventado.”

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