Uma parede da casa de Kauê Ferreira desabou: "Não faço a mínima ideia de como é que ela caiu"

Jair Amaral/EM/D.A Press

Setembro ainda é, em tese, mês de pouca chuva em Belo Horizonte. As primeiras pancadas, que costumam aparecer apenas no fim do mês, se anteciparam este ano. Em 14 dias, três das 10 regionais da capital já ultrapassaram a média climatológica esperada para setembro, de 49,2mm. Somente no Barreiro foram 155,2 milímetros acumulados nesse período, ou 315,4% acima da média. Em razão do volume de chuva registrado em 12 horas e a previsão de novos temporais, a região está sob alerta de risco geológico forte até amanhã (16/9). Com o solo encharcado, a Defesa Civil Municipal orienta os moradores a redobrar a atenção para sinais de movimentação do terreno, além do risco de quedas de muros, deslizamentos e desabamentos. A regional é também a primeira em ocorrências recebidas pelo órgão, com 23 dos 32 chamados atendidos entre a tarde de domingo (13/9) e de ontem. O Estado de Minas esteve no local e registrou o drama dos moradores da Vila Pinho. Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) explica o que torna setembro de 2026 um mês atípico e fala da previsão de mais chuva para os próximos dias.


A quantidade de chuva em BH, especialmente na Região do Barreiro, chama a atenção não apenas pelo volume, mas pela frequência e intensidade dos temporais. Nesse domingo (13/9), a chuva veio acompanhada de ventos fortes e provocou estragos em diferentes pontos. Na Vila Pinho, parte do telhado da Escola Municipal Vila Pinho foi arrancada pela força do vento e caiu na Rua José Francisco Pereira.
Na manhã de ontem (14/9), ainda era possível encontrar ruas cobertas de lama, imóveis danificados e moradores tentando conter a entrada de água nas casas. Próximo da escola destelhada, mora a auxiliar de produção Silene Duarte, de 47 anos. “Parece que caiu um raio aqui dentro de casa”, descreve sobre os momentos de tensão vividos durante a tempestade de domingo. “A gente estava jantando, só consegui acolher os meninos. Os telhados da escola e dos vizinhos vieram voando, caindo tudo em cima da minha casa”, relembra. Ela é moradora da região há 40 anos e afirma nunca ter vivido uma situação parecida. A auxiliar vive com os quatro filhos no imóvel.


A força do vento, segundo a moradora, quebrou vidros das janelas, levou as telhas do salão da cunhada e deixou sua varanda destruída. Na manhã de ontem (14/9), a família limpava e tirava os entulhos do local. A reportagem registrou ainda estragos deixados pela tempestade em outras casas no entorno da escola. Muitas casas destelhadas e pedaços de telhas espalhados pela rua.


sem casa e sem pertences

Entre os moradores afetados também estão Valderni Silva e Gleyson Soares, que vivem no local há 15 anos com os três filhos, Evellyn, de 12 anos, Wallace, de 10, e Danillo, de 7. Segundo o casal, esta é a segunda vez em apenas seis meses que a família perde praticamente tudo por causa da chuva.


Quando a água começou a subir, ninguém estava dentro da casa. Gleyson estava chegando e conta que a ausência da família naquele momento evitou uma situação que poderia ter consequências ainda mais graves. Ao chegar, encontrou a água já em uma altura estimada entre 1,5 metro e 2 metros em alguns pontos da residência. “Eu tive sorte que, graças a Deus, eu estava chegando em casa. Porque, se nós estivéssemos dentro de casa, talvez a história fosse outra. Talvez não estaríamos aqui hoje contando ela”, relata. A água entrou pela residência e carregou lama e sujeira para dentro dos cômodos. Geladeira, fogão, cama, televisão, celular, alimentos, produtos de higiene e outros objetos foram perdidos.


A família conseguiu retirar apenas alguns objetos antes de deixar o imóvel. “Consegui juntar pouquíssimas coisas em uma bolsa. Algumas roupas, apenas”, conta. A situação também afetou diretamente a rotina dos três filhos. O material escolar das crianças foi perdido durante a inundação. Valderni afirma que ainda precisa ir à escola para comunicar o ocorrido e explicar a ausência dos filhos nas atividades.


Depois da chuva, a família passou a noite na casa da mãe de Gleyson. Os três filhos permaneciam no local nesta segunda-feira, enquanto os pais retornaram à residência atingida para tentar organizar o que restou e avaliar os próximos passos. A preocupação é ainda maior porque um dos filhos tem autismo e, segundo a mãe, apresenta maior sensibilidade a sons e mudanças bruscas de ambiente. Por isso, a família decidiu não seguir, por enquanto, a orientação da Defesa Civil de ir para em um abrigo.


A poucos metros dali, a história se repete. Valdiceia Silva, que mora com os dois filhos, Yuri e Gabrielly, teve a casa invadida pela água e perdeu móveis, objetos pessoais e parte da estrutura do imóvel. Segundo ela, a água atingiu primeiro uma residência vizinha e, depois, avançou para outras casas do beco. Valdiceia afirma que um muro de arrimo teria sido atingido pela força da água, provocando uma sequência de danos em imóveis próximos. De acordo com a moradora, a água passou pela área externa e entrou na residência pelos pontos mais baixos. "Foi enchendo, com os buracos enchendo, entrou para dentro de casa", conta.


A Defesa Civil esteve no imóvel e orientou Valdiceia a deixá-lo. Segundo a moradora, os agentes informaram que existe risco de um novo episódio semelhante e que os próximos procedimentos de avaliação deverão envolver a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel). Até a tarde desta segunda-feira, porém, ela ainda não sabia quando uma equipe da companhia poderia fazer uma vistoria no endereço.

‘Não tem mais nada’

Outro imóvel atingido pela chuva fica próximo dali e pertence a Kauê Ferreira, que mora com o sobrinho de 15 anos. Na noite do temporal, Kauê estava trabalhando. O adolescente permanecia em casa quando a água começou a entrar. O sobrinho telefonou para familiares para avisar sobre a situação. Pouco depois, Kauê recebeu a notícia de que parte da estrutura da residência havia cedido. Uma parede caiu. O telhado também foi danificado, e a água tomou o interior da casa. Televisão, geladeira e outros eletrodomésticos foram atingidos e, segundo o morador, ficaram sem condições de uso. “Não faço a mínima ideia de como é que ela caiu. Tinha uma TV aqui, a TV caiu, queimou. A geladeira queimou também. Todas as coisas que eu comprei queimaram, gente. Não tem mais nada”, lamenta.


A cama ficou molhada e diversos outros objetos foram perdidos. Enquanto recebia as notícias no trabalho, Kauê tentou sair mais cedo para verificar a situação, mas não conseguiu deixar o serviço imediatamente devido às demandas. “Fiquei desesperado lá no trabalho. Eu pedi para eles me liberarem cedo, mas havia muito movimento. Eles acabaram não me liberando”, relata. Quando conseguiu chegar em casa, a água já havia provocado os principais danos.


Mês atípico

Segundo o meteorologista Lizandro Gemiacki, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o comportamento deste setembro é considerado atípico em razão de frentes frias terem conseguido avançar mais para a Região Norte de Minas Gerais e influenciar áreas que normalmente ainda estariam sob um padrão mais seco. “Setembro ainda é um período de seca, então a climatologia de chuvas ainda é pequena. As primeiras pancadas normalmente começam no final do mês”, explica.


Neste ano, porém, as frentes frias avançaram pelo estado e influenciaram as regiões Sul, Triângulo Mineiro e Central, onde está Belo Horizonte. Gemiacki afirma que ainda não é possível apontar uma causa climatológica única para o comportamento. A presença das frentes frias ajuda a criar as condições para a chuva, mas não explica sozinha por que determinados pontos de Belo Horizonte recebem temporais mais intensos. No Barreiro, a resposta passa também pelas características do território.


Segundo o meteorologista, a região sofre influência da área da Serra do Rola-Moça. O relevo interage com a circulação atmosférica, enquanto o aquecimento durante o dia contribui para a formação das chamadas áreas convectivas, associadas às pancadas mais fortes. “Geralmente, para ter um evento de chuva assim, juntam-se condições de média e grande escala com condições locais”, afirma.


Ele explica que a combinação entre aquecimento, umidade e orografia (influência do relevo na atmosfera), associada à instabilidade de grande escala, pode favorecer chuvas mais intensas no Barreiro. Assim, o maior volume de chuva na região pode ser explicado pela interação entre as condições locais, as circulações de vale e montanha e o aquecimento diurno, além dos sistemas atmosféricos de grande escala.


A previsão é de mais chuva para os próximos dias, de acordo com o meteorologista. Mas deve haver mudança na intensidade e distribuição pelo estado. Segundo Gemiacki, a frente fria que avançou por Minas passou a atuar como uma frente estacionária e deve permanecer influenciando o estado por mais dois ou três dias.


Obras de prevenção

Em entrevista ao Estado de Minas, o secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Leonardo Gomes, explica que a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) tem uma importante obra de prevenção e mitigação de enchentes em andamento na Região do Barreiro. Ela fica localizada na Praça Deputado José Raimundo e nas vias do entorno, no Bairro Tirol.


“Estamos implantando um novo sistema de drenagem pluvial, que vai aumentar a eficiência do sistema existente e contribuir para o funcionamento das bacias de detenção Olaria e Jatobá, que ficam a jusante (abaixo) da região. É um investimento de R$ 14,7 milhões, com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2027”, ressalta.


Gomes afirma que essa, porém, não é uma ação isolada. Segundo ele, a regional recebeu, nos últimos anos, um conjunto significativo de obras de prevenção e controle de enchentes. “Tivemos intervenções importantes nos córregos Túnel/Camarões, Olaria e Jatobá, Bonsucesso e na Bacia das Indústrias. Só nas duas bacias do Túnel/Camarões, por exemplo, foram criadas estruturas com capacidade conjunta para conter 400 milhões de litros de água. Também foi implantada a bacia Olaria/Jatobá, com capacidade de 70 milhões de litros, além de obras de drenagem, saneamento e tratamento de fundos de vale”, detalha.


O secretário lembra que as intervenções já trouxeram benefícios concretos para a população da região, além de reduzirem os riscos de inundação em diferentes pontos do Barreiro. “A Prefeitura segue monitorando as áreas de maior risco e realizando as obras necessárias para ampliar a capacidade do sistema de drenagem da cidade e proteger a população, especialmente durante o período chuvoso”, pontua.


Em relação a obra de drenagem no Bairro Tirol, Gomes afirma que a intervenção tem enfrentado o desafio das chuvas acima da média, neste ano. “Mesmo diante desse cenário excepcional, a Prefeitura tem atuado rapidamente para mitigar os transtornos, com equipes da Sudecap, SLU e Suzurb mobilizadas na limpeza das vias, bocas de lobo e retirada de materiais carreados pela chuva, além do atendimento às demandas dos moradores”, ressalta. A previsão é que ela seja concluída no primeiro semestre de 2027. “Com a implantação de mais de 3 quilômetros de nova rede de drenagem, a expectativa é de uma melhora significativa na capacidade de escoamento das águas e na redução dos riscos de alagamentos na região”, avalia.

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O secretário lembra que o Barreiro tem um histórico de problemas relacionados às chuvas por questões de microdrenagem. “Justamente por isso foram feitas as bacias Olaria e Jatobá e estão sendo feitas as obras no entorno da praça Deputado José Raimundo. Sobre os transtornos dos últimos dias, são resultado principalmente do volume excepcional de chuva registrado. Entre domingo e a manhã de ontem, foram 100mm em apenas 35 horas no Barreiro – mais que o dobro da média esperada para todo o mês de setembro”, afirma. 

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