Minas Gerais apresentou queda em registros de mortes violentas intencionais no comparativo entre 2024 e 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Isso não significa, porém, que a violência esteja em patamares aceitáveis e capazes de gerar na população o sentimento de segurança. Araguari, no Triângulo, ocupa o primeiro lugar do ranking das cidades mais violentas do estado, seguido por Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Já metade dos dez municípios mais violentos de Minas está concentrada na Grande BH. Para especialista em segurança pública ouvido pelo Estado de Minas, o levantamento mostra que há uma expansão da violência, principalmente ligada ao crime organizado, para novas regiões do estado, o que torna o cenário preocupante.


Os dados do anuário do FBSP mostram que as mortes violentas intencionais – que englobam crimes como homicídio, roubo seguido de morte (latrocínio) e lesão corporal que resultou em óbito – tiveram queda de 8,2% no país e de 14,2% em Minas Gerais. No estado, foram 3.219 ocorrências em 2024, contra 2.770 em 2025.


Os homicídios também caíram no estado. Em 2024, foram 3.124 mortes contra 2.698, em 2025, uma redução de 14,2%, o que fez a taxa recuar de 14,7 para 12,6 homicídios por 100 mil habitantes. Assim, Minas ficou entre os cinco estados menos violentos do país, levando em conta a taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes.


Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria das mortes violentas está relacionada ao crime organizado. O especialista em segurança pública Luís Flávio Sapori avalia que, apesar da queda, os números ainda são muito altos.


“Observamos queda no número de homicídios há pelo menos seis anos no Brasil. É um fenômeno nacional, mas isso não é motivo de comemoração, porque estamos em patamares elevados. Por isso, a população não tem a sensação de segurança. Estávamos em patamares muito elevados, agora estamos em patamares elevados”, frisa.


NOVIDADES NO RANKING

A cidade de Araguari, no Triângulo, é considerada a mais violenta de Minas, segundo o anuário 2026 do FBSP. O município registrou, no ano passado, 38,9 mortes por 100 mil habitantes. O que chama a atenção é que outras cidades da região têm taxas bem inferiores. Patos de Minas registrou 10 mortes por 100 mil, Uberlândia 9,2 e Ituiutaba 5,6.


Para Sapori, o ranking das dez cidades mais violentas do estado em 2025 reforça um diagnóstico antigo: o fenômeno se concentrar na Grande BH e no Vale do Rio Doce. Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, ocupa a segunda colocação, seguida por Ribeirão de Neves, Vespasiano e Betim, todas na Grande BH. As outras cidades da região metropolitana são Santa Luzia na sétima e Ibirité na nona posição. Já Coronel Fabriciano, também no Vale do Rio Doce, ocupa a oitava colocação.


“São regiões, historicamente, com maiores índices de homicídios e roubos no estado de Minas Gerais. Isso é um fenômeno de décadas, pelas características locais do próprio tráfico de drogas. Não é surpresa”, afirma.


A novidade, para ele, está em Araguari e nas duas cidades do Centro-Oeste mineiro que aparecem na lista: Divinópolis na sexta posição e Nova Serrana, na décima. “No Triângulo Mineiro, historicamente, Uberlândia e Uberaba é que capitaneavam a violência. Araguari sempre foi uma cidade com baixos índices de homicídio”, observa.


Sapori acredita que os baixos níveis de pobreza, com desenvolvimento econômico elevado e poder aquisitivo alto da população dessas três cidades, podem explicar o que atraiu o crime organizado para lá. O mesmo vale para Divinópolis e Nova Serrana, de acordo com ele.


“São cidades com mercado consumidor de drogas muito atrativo. As organizações criminosas vão se expandir para regiões e cidades economicamente viáveis. As facções que atuavam principalmente em Uberaba e Uberlândia, também passaram a ocupar espaço em Araguari. O mercado do tráfico de drogas está em expansão na cidade. Infelizmente, ela está pagando o preço pelo crescimento econômico, maior poder aquisitivo da população e pela nacionalização das facções do tráfico de drogas”, avalia.


O especialista acredita ainda que há uma nova configuração da violência em Minas, antes concentrada na Grande BH, vales do Rio Doce, Mucuri e no entorno de Uberlândia e Montes Claros, no Norte de Minas.
“Temos uma expansão de grandes cidades do estado que passam a sofrer com o problema da violência. Certamente, pelo atrativo que estão exercendo nas facções nacionais do tráfico de drogas. São cidades que deveriam merecer uma atenção especial por parte da Secretaria de Segurança Pública”, afirma.
Ele avalia que as estratégias de combate ao crime organizado não estão surtindo o efeito desejado. “O fenômeno está crescendo muito, principalmente, na Grande BH. Temos uma realidade muito diferente daquela de dez anos atrás e um grande problema a ser enfrentado”, conclui.


NO TOPO DA LISTA

Para o prefeito de Araguari, Renato Carvalho (Republicanos), não foi uma surpresa a cidade se destacar pela violência, embora não esperasse liderar o ranking. “Esperávamos que os dados não iam nos colocar em uma situação favorável, fruto do que ocorreu no ano passado e início deste ano. Fortalecemos o trabalho de integração com as polícias Militar e Civil para entender o que estava acontecendo. O que ficou claro para nós é que (os homicídios) são decorrentes de uma guerra de facções do crime organizado. São execuções típicas. As cenas de crime mostram casos clássicos de que a pessoa foi até lá sabendo quem queria executar”, pontua.


Carvalho diz que, diante do aumento da violência, a prefeitura decidiu aprimorar o videomonitoramento no município. “Dentro do papel em que podemos atuar, estamos investindo em câmeras na cidade. Hoje, não tem nenhuma entrada e saída de pessoas e veículos suspeitos que não conseguimos identificar por câmeras e inteligência”, enfatiza.


Segundo ele, Araguari conta, atualmente, com 60 câmeras espalhadas pela cidade. “Os radares têm duas finalidades: a segurança do trânsito e ajudar no videomonitoramento. Tínhamos algumas câmeras em funcionamento, de parceria com a Polícia Militar, e agora temos também sinais de trânsito com câmeras instaladas.”


Apesar de toda a tecnologia investida no monitoramento, o prefeito avalia que a ação sozinha não é suficiente para acabar com a atuação do crime organizado no município. “É um serviço macro de segurança pública do estado, além de inteligência integrada com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Federal, Civil e Militar”, afirma.


Carvalho ressalta que as próprias forças de segurança reconheceram o problema em agenda no município, com a presença da comandante-geral da Polícia Militar, coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues, da delegada-chefe da Polícia Civil, Letícia Gamboge, e do secretário de Segurança Pública de Minas Gerais, Rogério Greco, há cerca de dois meses.


“Vejo o governo tendo uma atenção especial e foco nessa questão, aqui em Araguari”, afirma o prefeito. Ele acredita que a repercussão, após a divulgação do documento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado no mês passado, contribuiu para a intensificação da adoção de medidas com o objetivo de conter a violência no município.


INTERIORIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

O prefeito Renato Carvalho destaca que a situação de Araguari é um caso clássico que mostra a interiorização da violência no país e em Minas. “Temos um dos melhores indicadores de qualidade de vida do estado. Estávamos entre as 15 primeiras cidades. Somos uma das cidades mais ricas, estamos entre as 22 primeiras. Uma cidade com esses indicadores e líder de assassinatos mostra que tem uma guerra de facções instalada”, observa.


Apesar do aumento de homicídios, Carvalho acredita que os moradores ainda têm uma sensação de segurança na cidade. “Não temos um número de assaltos muito alto. É muito difícil ocorrer esse tipo de crime aqui. Agora, o que nos preocupa são essas execuções.” Os homicídios, segundo ele, não se limitam apenas às periferias da cidade, acontecem em outros bairros.


O prefeito ressalta que o município faz divisa com os estados de Goiás e São Paulo. “A BR-050 é toda duplicada até São Paulo. No outro sentido, até Brasília e Goiânia. Funcionamos como um entreposto logístico tanto para o comércio de produtos lícitos quanto para o tráfico de drogas.”


Na avaliação do chefe do Executivo Municipal, Araguari teria se transformado em uma rota estratégica para o transporte de drogas para outras cidades da Região Sudeste e Centro-Oeste do país. “Esse posicionamento da cidade, infelizmente, não deixa de ser um atrativo para a rota do tráfico”, reforça.
Outra estratégia que o município tem adotado é na área da educação. “Às vezes, parece que não tem uma correlação, mas estamos investindo em um trabalho de prevenção e educação.” De acordo com Carvalho, a prefeitura criou mais de mil vagas para alunos em escolas de tempo integral. “Para que a criança, que é o adolescente de amanhã, possa ter esse ambiente escolar, alimentação e suporte para não ficar exposta a essa criminalidade. Estamos fazendo um trabalho de busca ativa e combate à evasão escolar. Para que, a médio prazo, possamos atingir o resultado”, conclui.


O QUE DIZ O GOVERNO DE MINAS

A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou, em nota, que nos municípios mais violentos apontados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública houve redução nos crimes violentos como homicídios, estupro, estupro de vulnerável, extorsão, entre outros.


“Em Minas Gerais, os índices de criminalidade são acompanhados, diariamente, pelas forças de segurança e criminalidade em todos os 853 municípios. A partir disso, há adoção de estratégias integradas para prevenção e repressão qualificada da criminalidade”, explica a pasta.


Entre as iniciativas desenvolvidas para conter a violência, a Sejusp destaca o monitoramento de drones criminosos, com o uso de um kit antidrone capaz de abater aparelhos a distância e com precisão militar. Aquisições de armamentos e equipamentos, além de novos postos policiais. “A Agência Central de Inteligência, responsável pela coordenação integrada das Inteligências das forças de segurança estaduais, ampliou o compartilhamento de informações, o mapeamento de organizações criminosas e a definição de ações pronta resposta ao crime”, ressalta.


Há ainda o programa Emergência MG, que implementou em todos os municípios do estado, acionamento das Forças de Segurança por meio da internet, sem necessidade de ligações telefônicas, incluindo os canais 190 (Polícia Militar), 197 (Polícia Civil) e 193 (Corpo de Bombeiros Militar), “oferecendo maior sigilo, segurança e comodidade para vítimas de violência ou para casos de emergência em saúde, por exemplo”.


A pasta destaca também o trabalho investigativo da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) que coleta informações por meio da inteligência policial e faz operações em todo o estado para o combate à criminalidade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Há ainda atuação preventiva, em áreas de maior vulnerabilidade, como o programa Fica Vivo!, voltado a jovens de 12 a 24 anos de comunidades de diversas cidades mineiras. 

compartilhe