Neste mês de celebração da Independência do Brasil, destacamos um mineiro importante nessa história, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira (1775-1856), homem de forte influência nas decisões de dom Pedro I (1798-1834). Natural de Diamantina, Padre Belchior, como ficou conhecido, morou por mais de quatro décadas em Pitangui, uma das Sete Vilas do Ouro de Minas Gerais. A cidade do Centro-Oeste, onde seu nome impõe o maior respeito, ainda está em comemoração pelos 250 anos do nascimento do confessor e conselheiro do imperador brasileiro – o ponto alto ocorreu em 8 de dezembro de 2025 com uma série de homenagens, incluindo o coroamento, com flores, do seu túmulo.


“Há muito ainda para se conhecer sobre a vida do Padre Belchior, inclusive sobre o ano exato do seu nascimento, já que algumas fontes indicam 1778”, informa o historiador Israel Almeida, do Instituto Histórico de Pitangui.


A reverência à memória do religioso que estudou no seminário de Mariana e se formou em direito canônico em Coimbra, Portugal, se mantém mais viva com a recente pesquisa de Israel Almeida. “Era um homem à frente do seu tempo. Pela competência e conhecimento político, chamou a atenção do príncipe regente dom Pedro I. Primo de José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, estava junto aos correligionários do futuro imperador quando esse proclamou nossa independência”, afirma o historiador.


Para entender melhor essa história, vamos aos fatos. Ao ler as cartas com as ameaças de Portugal, o príncipe regente se dirigiu ao conselheiro: “E agora, Padre Belchior?”, que, prontamente, disse a frase que todo mundo conhece em Pitangui”, lembra Israel: “Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das Cortes e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho senão a separação e a independência”. Para Israel, as palavras do padre “soaram como sinos de uma catedral na mente do príncipe regente, alertando-o sobre os riscos e consequências que poderia enfrentar caso obedecesse ao governo de Portugal”.


No espírito entusiasta e em meio a expectativas que dominavam todo o cenário nacional, da economia às artes, o príncipe se declara o primeiro imperador do Brasil em seu famoso "Grito do Ipiranga", em 7 de setembro de 1822. Somente três anos mais tarde, Portugal reconheceria a independência da antiga colônia.


EXÍLIO

No novo cenário imperial, muitos foram exilados, inclusive Padre Belchior. “Dom Pedro I queria um poder centralizado e extinguiu a Assembleia Constituinte de 1823. Assim, o mineiro vai para França, retornando ao Brasil somente em 1829, quando assume outra vez o posto de vigário em Pitangui. O panorama nacional ainda era de crise devido aos conflitos políticos com a antiga metrópole e a política aqui no Brasil.”


O que pouca gente sabe é que padre Belchior reconheceu como herdeira, em seu testamento firmado em 4 de outubro de 1854, Júlia Angélica de Oliveira, que foi casada com Antônio da Silva Cardoso (ou Antônio José Cardoso). “Ele declarou que sempre a considerou filha e que a reconhecia como tal”, diz o pesquisador. O documento citado se encontra sob guarda permanente do Instituto Histórico de Pitangui e faz parte da série de Inventários do fundo Imperial Brasileiro, estando disponível para consulta a toda comunidade civil e acadêmica.


Na avaliação de Israel, é preciso que o Executivo e o Legislativo de Pitangui retomem a entrega da Comenda Padre Belchior, concedida desde 2002 e interrompida há alguns anos. “Essa honraria reforça os laços culturais que contribuíram para a construção da história nacional e, ao mesmo tempo, reconhece publicamente o trabalho de muitos filhos da nossa terra.” A casa onde o padre morou é hoje sede da Prefeitura de Pitangui.

RÁDIO INCONFIDÊNCIA COMPLETA 90 ANOS...

Quando o “Gigante do ar”, apelido da Rádio Inconfidência, soltou sua voz pela primeira vez, em 3 de setembro de 1936, Belo Horizonte não tinha ainda nem completado quatro décadas de sua inauguração. Era o tempo das ondas curtas, das válvulas de transmissão e dos programas de auditório, início de uma era na qual despontaram grandes artistas, a exemplo da cantora mineira Clara Nunes. Pois tudo isso e muito mais está contado na exposição “Inconfidência 90 anos – História e Memória”, aberta ao público na sede do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), no chamado Prédio Verde da Praça da Liberdade, em BH. Destaques para o microfone da marca Marconi Reisz (foto), usado na estreia da rádio, antigos LPs, fotos, documentos e recriação de um auditório como o que existiu na Feira de Amostras, prédio demolido para construção do terminal rodoviário da capital. Em cena, um vestido azul para homenagear Clara Nunes e velhos rádios de válvula, em caixa de madeira. 


...E TEM SUA HISTÓRIA CONTADA EM BH

Fundada na gestão do governador Benedito Valadares, a Rádio Inconfidência nasceu pública para integrar o interior de Minas à capital e cumprir papel educativo. Em 2019, foi declarada de relevante interesse cultural do estado, e atualmente integra a Empresa Mineira de Comunicação, ao lado da Rede Minas. Foi em 1969 que a Inconfidência ganhou o apelido de “Gigante do ar” pelo seu alcance inclusive intercontinental. Em décadas anteriores (de 1930 a 1950), a emissora contava com orquestras fixas, auditórios lotados, radionovelas e apresentação de grandes nomes da música, entre eles Orlando Silva, Emilinha Borba e Nélson Gonçalves. Impossível falar na Rádio Inconfidência sem ressaltar a tradição de “A hora do fazendeiro”, que estreou em 1936 e continua no ar diariamente, sendo considerado um dos programas de rádio mais antigos do mundo – só para lembrar: no Brasil, a primeira transmissão radiofônica ocorreu em 7 de setembro de 1922. Já em 1979, foi inaugurada a frequência FM, apelidada de Brasileiríssima, por tocar exclusivamente música nacional e valorizar o movimento do Clube da Esquina e demais artistas da nossa terra. A exposição fica aberta de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Entrada gratuita.

GOSTEI DO QUE VI

Já contei aqui da minha visita a Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, onde fiquei bem surpreso – e satisfeito – com a preservação do patrimônio e os equipamentos culturais abertos ao público. É o caso do Memorial de Itapecerica, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Esporte e em funcionamento na Praça do Centro Gastronômico. Visitantes podem ver mapas, entre eles um de 1877, época da fundação da Vila de São Bento, maquete, documentos, esculturas feitas pelo filho da terra, o GTO, como ficou conhecido Geraldo Teles de Oliveira (1913-2006), e ambiente criado para mostrar os mais de 200 anos da Festa do Rosário (foto), em louvor a Nossa Senhora do Rosário. A história de Itapecerica, que ficava no Caminho Novo da Picada de Goiás, começa no tempo da exploração do sertão brasileiro, quando muitos se aventuravam pelas matas desconhecidas em busca de ouro, prata e pedras preciosas. “O Memorial expressa os tempos fortes nas áreas da memória, da cultura e das festividades religiosas, com foco também na educação patrimonial”, diz Erivelta Diniz, historiadora da Secretaria Municipal de Cultura e Esporte. Aberto de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h, e aos sábados, das 9h às 13h. Entrada gratuita.

CONGONHAS 1

“Alto Maranhão: Distrito berço de Congonhas” é o nome do livro (foto) de autoria da professora e pesquisadora Maria da Paz Pinto, associada do Instituto Histórico e Geográfico e integrante da Academia de Ciências, Letras e Artes da chamada “cidade dos profetas”. Fruto de estudos durante 11 anos e com 752 páginas, a obra foi lançada recentemente no Museu de Congonhas, com a presença de mais de 200 pessoas, e tem previsão de novos lançamentos em Alto Maranhão, localidade mais antiga do município, e em Conselheiro Lafaiete. Com especialização em arte sacra, Maria da Paz conta que o trabalho nasceu “do desejo de resgatar, narrar e preservar a história do lugar onde nasceu, cresceu e aprendeu a amar”. Distante seis quilômetros do Centro de Congonhas, Alto Maranhão tem entre seus destaques a Igreja Nossa Senhora da Ajuda, do século 18, restaurada a partir de mobilização comunitária.

CONGONHAS 2

Para escrever “Alto Maranhão: Distrito berço de Congonhas”, Maria da Paz reuniu fotografias e ouviu relatos de antigos moradores que, por décadas, presenciam as transformações e guardam histórias transmitidas de geração a geração. “Nos primórdios, Alto Maranhão se chamava Arraial do Redondo. Esta localidade, na região do Alto Paraopeba, tem mais de três séculos e ocupa lugar muito especial na formação histórica, cultural, religiosa e administrativa de Congonhas”, afirma a autora. Para ela, mais do que narrar episódios, a obra procura valorizar as pessoas e expressões populares que construíram a história, incluindo famílias, trabalhadores e lideranças ao lado de manifestações de fé, costumes e tradições. “Esse é o conjunto que faz parte do patrimônio e da identidade do nosso povo”, ressalta.

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Entre 17 e 19 deste mês, será realizada a 4ª Feira Literária de Mariana (Flimari), no Centro de Convenções e na Casa de Cultura do município, que, como reza a história, foi a primeira vila, diocese e cidade de Minas. Desta vez, além de celebrar a literatura, o evento explora também o significado dos quintais na vida e na cultura local. Conforme os organizadores, o tema “Quintais” convida à reflexão sobre os espaços nos quais “se cultivam sonhos, se fortalecem laços familiares e se constroem novas amizades”. Os visitantes terão à disposição duas livrarias oferecendo livros a preços populares e o Ônibus Biblioteca da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

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