Há quase duas semanas, moradores da Região Oeste de Belo Horizonte enfrentam o abastecimento irregular e buscam formas de suprir a falta d'água, que já afeta também escolas e condomínios. Diante das torneiras secas, a busca por caminhões-pipa explodiu na capital mineira, resultando em uma disparada nos preços – que subiram de cerca de R$ 1 mil para até R$ 4 mil por uma carga de 10 mil litros – e no esgotamento total da frota privada, que já não encontra margem para novos atendimentos devido à alta demanda e à seca dos próprios poços artesianos que abastecem os veículos. 

A situação se agravou no último domingo (30/8), quando uma paralisação programada de unidades do Sistema Rio Manso afetou o abastecimento de mais de mil bairros de BH e região metropolitana. O afluente integra o Sistema Paraopeba, responsável pelo abastecimento de água da Grande BH. Na Região Oeste, a situação ainda piorou devido ao rompimento de uma adutora, em 19 de agosto, na Rua Xapuri, no Bairro Nova Granada. Já no Barreiro, um novo rompimento na noite dessa segunda-feira (31/8) provocou um vazamento de grandes proporções e ocorreu enquanto moradores da região já enfrentavam intermitência no fornecimento desde o fim de semana.

Com a falta d'água, a procura por caminhões-pipa disparou. Em uma hora de apuração, a reportagem do Estado de Minas entrou em contato com cinco empresas que prestam o serviço. Nenhuma delas informou ter disponibilidade para realizar um abastecimento na região. Os responsáveis relataram aumento expressivo da demanda e dificuldade para atender todos os pedidos.

Uma das empresas consultadas informou que a procura aumentou tanto que já havia cerca de 200 mensagens aguardando resposta, além de ligações constantes. De acordo com o responsável pelo atendimento, até mesmo os locais que conseguem agendar o serviço podem enfrentar dificuldades, já que a disponibilidade de água para abastecer os caminhões também está comprometida.

Segundo a empresa, o caminhão-pipa que atende a região utiliza água de poço artesiano. O problema é que alguns desses poços também não estariam conseguindo suprir a demanda dos veículos. Para um condomínio de 15 andares no Buritis, por exemplo, uma carga de 10 mil litros está sendo cotada em cerca de R$ 3.350. Outros relatos obtidos pela reportagem ainda apontam preços entre R$ 3 mil e quase R$ 4 mil por carga, enquanto, anteriormente, o serviço custava em torno de R$ 1 mil. Mesmo com a disposição para pagar, porém, não havia agenda disponível para novos pedidos.

Improviso

Em bairros como o Buritis, o cenário é de incerteza e improviso. No Condomínio Village Vivere, formado por cerca de 90 casas, o fornecimento irregular da Copasa obriga famílias a usarem duchas alternativas para arrumar as crianças para a escola e a estocar água durante os breves momentos de retorno da pressão no período noturno.

Sem conseguir contratar caminhões-pipa no mercado devido à falta de agenda e às filas de espera de centenas de pedidos nas empresas, a administração local tem recorrido a um poço artesiano próprio para mitigar o desabastecimento, enquanto os moradores aguardam a promessa de normalização completa do sistema por parte da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) até quinta-feira (3/9).

O zelador, Carlos Souza, contou ao Estado de Minas que o abastecimento chegou a retornar por volta das 5h desta terça-feira (1º/9), mas cerca de 90 casas ainda permaneciam sem água. "Alguns moradores chegaram a comprar caminhão-pipa para conseguir suprir a necessidade. A Copasa não dá nenhuma satisfação para os moradores", alegou.

O síndico do condomínio, Robert Guedes, também relata dificuldades para manter o abastecimento das residências. Segundo ele, a água chegou a retornar durante essa madrugada, mas voltou a faltar posteriormente. "'Tá' complicado, viu? O condomínio está bem tumultuado. Ela chegou a voltar hoje de madrugada, né? Chegou de madrugada, faltou de novo", afirmou ele.

A administração tentou contratar um caminhão-pipa, mas não encontrou empresas com disponibilidade. Para Robert, o aumento da procura provocado pela crise no abastecimento tem dificultado a contratação. "Não conseguiram, porque tá sem... a demanda 'tá' muito alta, 'tá' complicado", reclamou.

Conforme o síndico, o condomínio é formado por casas, cada uma com sua própria caixa d'água. Para ele, essa característica também interfere na contratação do serviço, já que o abastecimento não é concentrado em um único reservatório. O condomínio conta ainda com um poço artesiano, que ajudou os moradores durante o período de falta d'água. 

Com a instabilidade no abastecimento, os moradores passaram a improvisar para manter a rotina. Uma ducha alternativa do condomínio chegou a ser usada pelas crianças antes de irem para a escola. Quando a água retorna durante a noite, os moradores aproveitam o período para utilizar e armazenar o que conseguem nas caixas das casas.

Para Robert, o fato de o condomínio ser formado por casas ajuda a amenizar parte do problema, já que os reservatórios ficam em uma altura menor do que os de prédios, onde as caixas d’água estão em níveis mais altos e dependem de maior pressão na rede para serem abastecidas.

Copasa

A Copasa informou que o desabastecimento é reflexo da paralisação temporária para as obras da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra). A Companhia esclareceu que todas as intervenções realizadas no último fim de semana já foram concluídas e que o sistema de abastecimento encontra-se em processo de normalização. "O fornecimento de água está sendo restabelecido de forma gradativa nas regiões afetadas", comunicou em nota.

A empresa ainda informou que vai passar a divulgar, a partir desta semana, um boletim diário de abastecimento dedicado a detalhar o status operacional da rede de água na Região Metropolitana de Belo Horizonte até que a normalização do abastecimento ocorra nas regiões atualmente afetadas.

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O informativo será emitido duas vezes ao dia – no início da manhã e no final da tarde – com um panorama das intervenções técnicas, bem como os trabalhos de remanejamento da adutora da Região Oeste e as manutenções preventivas do sistema integrado. O primeiro será disponibilizado por volta das 17h desta terça, nos canais oficiais da Copasa.

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