A arte tem o poder da cura. E se torna um refúgio para que as pessoas respirem “além das paisagens urbanas”. O pensamento que une teoria e prática – e muita reflexão sobre a realidade dos tempos atuais – vem da boca, das mãos e do coração do escritor indígena Ailton Krenak, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Mineira de Letras (AML) e agora estreando em novo espaço: a empena, parede lateral de um edifício de 18 andares em Belo Horizonte. Aos 72 anos, o filósofo, ambientalista e importante liderança dos povos originários no Brasil figura entre os artistas convidados da edição 2026 do CURA – Festival de Arte Urbana.
Na tarde dessa sexta (29/8), na Praça Raul Soares, Krenak conferiu a reprodução de um desenho seu na fachada do Edifício Pignataro, localizado na Avenida Augusto de Lima, na Região Central. A sensação, para ele, é das melhores, pois mistura sonho e realidade. “Vejo essa oportunidade rara como um privilégio de levar um pouco de sonho à dura realidade da metrópole, pois acho que todas as empenas ficariam mais bonitas com pinturas ou desenhos”, afirma o autor de “Ideias para adiar o fim do mundo” e residente no município mineiro de Resplendor, “numa curva do Rio Doce”.
A obra ocupa 555 metros quadrados e versa sobre a preservação dos rios. Também homenageia os compositores Milton Nascimento e Fernando Brant, com os dizeres “O rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”, da canção “Vida”. Segundo a assessoria do CURA, o artista que assina a empena faz o desenho a ser pintado por uma equipe que pode envolver até mais cinco artistas, dependendo do tamanho da área. Alguns escolhem participar de todo o processo, outros em determinado momento e tem os que só assinam mesmo a obra.
Leia Mais
Após receber orientação da equipe de segurança, Krenak entrou no "balancinho" com a equipe do CURA para assinar a obra. Usando o capacete branco e demais equipamentos de segurança, Krenak brincou: “Estou me sentindo um astronauta andando na lua”. Com a assinatura, a empena foi concluída.
FLAGELOS AMBIENTAIS
Com o olhar sempre atento, Krenak explica que só fez mesmo criar o desenho: “Quem se pendura são os artistas das alturas, eu desenho no chão e o coletivo CURA Crew escala o prédio com a arte que exige muita destreza e coragem”. De todo jeito, “é impactante pensar no desenho nessa escala de prédio, que vira paisagem. Tem um chamado para a subjetividade, para a poesia, para o sonho”. A pintura foi iniciada em 19 de agosto.
Ao ver a cidade a seus pés, Krenak diz que BH é mesmo um convite a paisagens com muitos horizontes. “E empenas têm o poder de trazer imagens de outros lugares, rios e florestas, montanhas que foram engolidas por cimento e vidro.”
A resposta é a deixa para o indígena falar sobre os duros golpes que flagelam o meio ambiente e a humanidade, junto à preocupação com as gerações futuras: “Parece que tudo virou mercadoria, a vida das pessoas e seu mundo vão sendo atropelados pelo mercado. Nossos rios e montanhas são calculados em bilhões. Um assalto ao futuro de quem virá depois.”
Os recentes terremotos na Venezuela e Colômbia, com milhares de vítimas, entre mortos, feridos e desaparecidos, e a tragédia no Nepal, com enxurrada e avalanche na fronteira com o Tibete, podem soar como um poderoso alerta do planeta aos seus habitantes. “A Terra está chacoalhando para nos lembrar que é VIVA, respira e não pode ser revirada em todos os cantos.”
A preocupação de Krenak se volta também para os povos Yanomami, na Amazônia, e os Maxacali, em Minas, alvos de constantes crises sanitárias e humanitárias, e para o Rio Doce. “Os Yanomami e muitos outros povos indígenas seguem resistindo ante o avanço do garimpo e da mineração. Os Maxakali nunca tiveram seu território respeitado aqui mesmo”. O Rio Doce, por sua vez, “foi devastado pela mineração e tudo segue na mesma batida”. Importante lembrar da catástrofe ambiental ocorrida em 5 de novembro de 2015 a partir do rompimento da Barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, Mariana, na Região Central de Minas. O efeito, além das mortes, foi devastador em toda a Bacia do Rio Doce (de Minas ao Espírito Santo).
Mônica Nador, uma das principais muralistas do país, é responsável pela arte na empena do Edifício Florença: autoria compartilhada com a comunidade
ACERVO DE ARTE A CÉU ABERTO
A pintura de Ailton Krenak é uma das duas do CURA 2026, festival de arte pública que há quase dez anos cobre fachadas de prédios de Belo Horizonte com murais em grande escala. A segunda empena é de Mônica Nador, uma das principais muralistas do país. Ela fundou, na periferia paulistana, o Jardim Miriam Arte Clube (Jamac), onde as paredes das casas e das ruas são pintadas com padrões criados junto com os moradores – assim, conforme divulgado, a autoria da obra deixa de ser só da artista para ser compartilhada com a comunidade.
O tema do CURA 2026 é “Descansar Enquanto”. Em uma sociedade atravessada pelo excesso de estímulos e urgências, o festival propõe o descanso não como pausa, mas como posicionamento: um direito ainda não garantido, atravessado por desigualdades de gênero, raça e classe. A reflexão dialoga com o livro “Descansar é Resistir”, da norte-americana Tricia Hersey, para quem o descanso é uma recusa ativa às estruturas que operam pela exaustão. A curadoria artística foi feita com a contribuição da curadora convidada Luciara Ribeiro, pesquisadora dedicada às artes africanas, afro-brasileiras e indígenas e à decolonização da história da arte.
Desde 2017, o CURA cobre fachadas de edifícios de BH com murais de grande escala, feitos por artistas brasileiros e estrangeiros. São mais de 30 prédios pintados, conjunto que se tornou um dos principais acervos de arte pública a céu aberto do país. A edição de 2026 é a última de um ciclo que, ao longo de cinco anos, transformou a Praça Raul Soares, no Cento da cidade, em galeria vertical, e antecede os 10 anos do festival, em 2027.
Além das empenas, a edição traz uma programação gratuita e ao ar livre. Na quarta e quinta-feira (26 e 27), seis artistas fizeram uma sessão de pintura ao vivo em painéis montados ao ar livre, e as obras ficam expostas até o fim do festival. A programação reúne ainda mirante com vista da cidade, travessias (‘highline’) entre os prédios do Centro, mesa de desenho aberta ao público e atividades para crianças e famílias.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
