O lixo e entulho esparramados pelos lotes e esquinas de bairros de Belo Horizonte como o Jardim Felicidade, na Região Nordeste, se empilham com o risco de que, nas primeiras chuvas, se convertam em criatórios para os mosquitos Aedes aegypti, transmissores da dengue, zika e chikungunya. Com o calor como um dos componentes de aceleração do ciclo do vetor e da replicação do vírus em seu organismo, e com chuvas em excesso facilitando a proliferação do inseto, o prognóstico da aproximação de um super El Niño dispara um alerta reforçado pelos impactos do último fenômeno, em 2023 e 2024. “A dengue acabou comigo naquela época. O corpo ficava só dolorido. Não aguentava ficar de pé. Só de cama. Tive de ser tratado na UPA (Unidade de Pronto-Atendimento)”, lembra-se o aposentado José Maria Vieira, de 60 anos, apontando na rua para a sujeira que renova a ameaça.
Disparada de casos de dengue, zika, chikungunya, e escalada de diagnósticos de insuficiências cardíaca, renal e respiratória, trazendo pressão sobre o atendimento de saúde foram alguns dos impactos deixados pelos últimos dois eventos de super El Niño em vários estados do Brasil, sendo 13 deles os mais críticos (veja infográfico na página ao lado), nos biênios 2015/2016 e 2023/2024, de acordo com o registro de internações do Sistema Único de Saúde (SUS).
São situações que podem se repetir, principalmente diante da quase certeza de um El Niño especialmente intenso, entre outubro e novembro de 2026, com até 95% de probabilidade, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos. O Ministério da Saúde brasileiro informou já ter emitido alertas para as unidades da federação e municípios.
Para se ter uma ideia de quais podem ser os setores e locais mais afetados, a reportagem do Estado de Minas seguiu os padrões sazonais (de novembro a abril) dos quadros de saúde mais suscetíveis ao fenômeno climático, de acordo com o Ministério da Saúde do Brasil e a Organização Mundial da Saúde (OMS), e traçou os volumes de internações dos últimos dois eventos de super El Niño, comparando-os com um biênio sem o fenômeno, entre 2018 e 2019 – isso considerando que, de 2020 a 2022, a pandemia de COVID-19 alterou os padrões sanitários.
De acordo com o levantamento, os estados que apresentaram, no super El Niño de 2023 e 2024, mais internações e maior ampliação para os casos de arboviroses (dengue, zika, chikungunya), insuficiências cardíacas, renais e respiratórias nos meses de impacto específicos do fenômeno foram a Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
A situação em Minas e o alerta nacional
Em Minas Gerais, a dengue representou o maior impacto nos últimos fenômenos climáticos, com Belo Horizonte ficando com o nono resultado mais crítico de sua região metropolitana. Em nota técnica, o Ministério da Saúde alertou sobretudo para uma possível nova explosão de casos relacionados às arboviroses. “O ministério encaminhou um alerta a estados e municípios sobre a possibilidade de aumento na transmissão de arboviroses, como dengue e chikungunya. De acordo com projeções desenvolvidas pelo InfoDengue/Fiocruz, o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027”, informou a pasta. Até aqui, o ano com mais casos foi justamente 2024, com 6.563.561 registros da doença e 6.321 mortes.
“O aumento das temperaturas e das chuvas em algumas regiões, assim como os períodos de seca em outras áreas, podem estimular o armazenamento de água e a formação de criadouros do vetor”, acrescenta o ministério. “Diante desse cenário, o Ministério da Saúde recomenda que estados e municípios intensifiquem as ações de vigilância e controle, com a realização de bloqueios de transmissão nos primeiros casos identificados, reorganização das atividades dos agentes de combate às endemias e adoção das tecnologias de controle vetorial preconizadas pela pasta.”
A colaboração da população também é fundamental. “As gestões locais devem reforçar as ações de comunicação e conscientização, para que os cidadãos eliminem possíveis criadouros do mosquito em suas residências, fiquem atentos aos sinais e sintomas das arboviroses e procurem atendimento de saúde ao surgimento dos primeiros sintomas”, informa a pasta.
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No último evento de super El Niño, entre 2023 e 2024, as arboviroses foram justamente o quadro de saúde com mais unidades federativas em situação crítica para internações, atingindo nove estados. Segundo estimativas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em nota técnica de julho de 2026, o semestre atual pode terminar com alta de casos em relação ao mesmo período de anos neutros, nas regiões brasileiras do Norte (+14,3% de casos), Sul (+19,9%) e Sudeste (+61,4%).
