Uma história escrita com luta, fé e tijolos erguidos à mão ganhou um novo e definitivo capítulo. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entregou as obras de reforma e contenção de encostas na comunidade quilombola Manzo Ngunzo Kaiango, localizada no Bairro Bonanza, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
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A intervenção recebeu um investimento de R$ 1,18 milhão — valor pago pela mineradora Vale, em acordo firmado com o MPMG — e colocou fim ao risco grave de deslizamento no local. O projeto foi executado pelo Instituto Joaquim Artes e Ofícios no âmbito da Plataforma Semente, em parceria com o Governo de Minas Gerais.
Mais do que uma intervenção física no solo, a obra significou a salvação de um patrimônio vivo e a devolução da dignidade a uma comunidade tradicional bantu.
Anos de vulnerabilidade e a ameaça das chuvas
A fundação do Quilombo Manzo está intensamente ligada à história de Mãe Efigênia (Efigênia Maria da Conceição), matriarca descendente de escravizados que ergueu a comunidade nos anos 1970 com as próprias mãos. O espaço é reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Belo Horizonte (2017) e do estado de Minas Gerais (2018).
Apesar do alto valor cultural, o terreno sofria há anos com a instabilidade geológica. O solo original havia sido alterado ao longo das décadas por camadas de aterro e intervenções de urbanização das ruas vizinhas. Com o tempo e a escavação para a construção das habitações, a estrutura não resistiu às fortes chuvas.
O ápice da crise ocorreu entre 2018 e 2021, quando o deslocamento de terra e o desabamentos de placas soterram a cozinha do terreiro e ameaçaram casas vizinhas. A Defesa Civil interditou e lacrou o terreno, exigindo a desocupação imediata dos moradores.
"O quilombo estava condenado pela Defesa Civil. Para colocar o patrimônio em segurança, removemos as famílias para a sede da Associação do Quilombo, em Belo Horizonte. A casa da minha mãe funcionou quase como um abrigo e galpão para proteger nossos objetos sagrados enquanto o terreiro era restaurado", relembra a liderança do Kilombo Manzo, Makota Kidoiale.
Engenharia e respeito às raízes
Para estancar o problema geológico, a equipe técnica ergueu um muro de contenção de 6 metros de altura e 6 de profundidade, integrado a um novo sistema de drenagem para as águas da chuva. Com a base estabilizada, as instalações do terreiro foram totalmente reconstruídas e adaptadas, incluindo:
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Salão ritualístico e cozinha totalmente reconstruídos;
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Instalações elétricas e hidráulicas renovadas;
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Banheiros acessíveis e anexos estruturados.
Ao longo dos dois anos de obras, cada detalhe — do fluxo de circulação aos acabamentos — foi planejado em diálogo direto com as lideranças para respeitar os rituais e a sacralidade do espaço.
Um dos pontos de maior destaque no novo espaço foi o teto estruturado no estilo colonial. Para Makota Kidoiale, o acabamento vai muito além da estética:
"Muitas vezes o modelo colonial é visto como algo do colonizador, mas o telhado colonial traz tecnologias que sabemos ser do modo de construir do povo preto. O racismo e a desigualdade socioeconômica nos colocam em uma inferioridade cultural que faz perder a arquitetura original do nosso jeito de proteger. Telhado é proteção."
"Para nós, foi uma restauração muito mais da nossa dignidade e do nosso modo de ver o patrimônio reconhecido pelo Estado. Quem passa lá hoje chega a perguntar se os moradores mudaram, porque a visão é de um verdadeiro patrimônio preservado", completa Makota.
Próximos Passos
Apesar da conquista histórica na área do terreiro central, a luta do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango continua. Uma parcela do território ainda aguarda atenção e intervenção do poder público para garantir acessibilidade plena.
As chamadas casas de reza e oração continuam situadas em áreas de terreno acidentado. Atualmente, devido às limitações de mobilidade da matriarca Mãe Efigênia, esses espaços onde são realizadas as bênçãos, simpatias e orações permanecem inacessíveis para ela. A comunidade busca agora sensibilizar a gestão pública para viabilizar a adequação arquitetônica dessa segunda etapa.
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"Nossa expectativa é utilizar essa ação como um instrumento de letramento racial. Queremos que as pessoas entendam que a cultura africana e o patrimônio negro são dignos de serem cuidados, tratados, restaurados e protegidos", conclui a líder do quilombo.
