Minas virou "entrocamento" no caminho de desastres e prejuízo com caminhões
Com a maior malha viária do país e operando como ligação entre diferentes regiões do país, estado é especialmente vulnerável a sinistros com o transporte pesado
Minas Gerais, por ter a maior malha rodoviária do país, exerce papel estratégico na logística nacional, funcionando como um verdadeiro entroncamento entre as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Por isso, grande parte das mercadorias transportadas no país passa pelas rodovias mineiras, o que gera um intenso fluxo de veículos de carga, fazendo com que o estado sofra diretamente com os impactos dos acidentes que envolvem caminhões e carretas.
A constatação é do vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Adalcir Lopes. “Os acidentes nas rodovias representam um custo para toda a sociedade brasileira, compondo o chamado ‘Custo Brasil’. Além dos prejuízos econômicos, existe o impacto imensurável das vidas perdidas e das pessoas feridas, afetando famílias e comunidades inteiras”, pontua Lopes.
Ele lembra que, como apontou a CNT, em 2025 ocorreram 72.476 acidentes nas rodovias federais brasileiras, com 6.040 mortes e um custo estimado em R$ 16,82 bilhões. Em Minas Gerais, ocorreram 9.559 acidentes, com 764 mortes e um custo estimado de R$ 2,21 bilhões. Desse total, 3.140 acidentes envolveram caminhões.
O tamanho do problema
“Os impactos econômicos são expressivos. Além dos danos aos veículos e às cargas, há despesas com remoção, seguros, paralisações operacionais, congestionamentos, atrasos nas entregas, perda de produtividade da frota e aumento dos custos logísticos para toda a cadeia produtiva”, descreve o vice-presidente do Setcemg.
Adalcir Lopes aponta que outro fator que aumenta a complexidade das operações e potencializa os acidentes com veículos de carga em Minas é a geografia do estado. “O relevo acidentado, com serras, curvas e longos trechos de aclives e declives exige atenção permanente dos motoristas. Além disso, muitos condutores provenientes de outros estados não conhecem as características das rodovias mineiras.”
O representante do Setcemg ressalta que, embora os caminhões tenham evoluído significativamente em tecnologia, potência, sistemas de frenagem e segurança, a infraestrutura rodoviária não acompanhou essa evolução com a mesma velocidade. “Em diversos corredores logísticos ainda faltam terceiras faixas, melhorias de traçado, áreas de escape, sinalização preventiva e investimentos que proporcionem maior segurança e fluidez”, constata.
Segundo ele, os acidentes afetam não apenas o setor transportador, mas toda a economia. “Como o transporte rodoviário é responsável pela maior parte da movimentação de mercadorias no país, qualquer interrupção compromete a competitividade da indústria, do agronegócio, da mineração, do comércio e das exportações”, diz.
O empresário salienta que as ocorrências envolvendo veículos de carga provocam impactos imediatos e em cadeia sobre toda a logística nacional. Quando uma rodovia é interditada, mesmo que parcialmente, caminhões podem permanecer parados por horas ou até dias, comprometendo cronogramas de entrega, operações de carga e descarga e a produtividade dos veículos e motoristas.
Os prejuízos se estendem aos setores da indústria, do comércio, da mineração e do agronegócio, que dependem da regularidade do fluxo logístico. “Um acidente grave pode interromper o abastecimento de insumos, atrasar exportações, comprometer linhas de produção e provocar perdas econômicas em diversos segmentos”, afirma Lopes.
A conta para o consumidor
Os impactos dos acidentes com o transporte rodoviário de cargas acabam se refletindo em custos mais elevados para o consumidor final de mercadorias, afirma o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva. “Em Minas Gerais, esse efeito é ainda maior devido à posição logística estratégica e à segunda maior malha rodoviária federal do país”, diz ele.
“Os acidentes com veículos de carga não causam apenas danos humanos e materiais, mas também prejudicam a logística, atrasam prazos e aumentam custos. O varejo depende de previsibilidade. As interdições causam atraso na reposição, risco de falta de estoque e impacto no abastecimento, afetando também preços e disponibilidade de produtos ao consumidor”, observa o presidente da CDL/BH.
Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais/Divulgação
Danos financeiros e uma perda irreparável
Os altos prejuízos dos sinistros no transporte de mercadorias ficam evidentes em desastres como o que envolveu três veículos de carga no Km 474 da BR-251, na Serra de Francisco Sá, Norte de Minas, na manhã de 12 de julho. Na ocasião, o motorista de um caminhão que transportava 8 toneladas de camarão perdeu o controle do veículo, que invadiu a contramão e colidiu lateralmente com uma carreta carregada com adubo. Na sequência, bateu em uma segunda carreta, que subia a serra transportando bicarbonato. Essa última pegou fogo, assim como o veículo que deu origem às batidas, cujo motorista morreu carbonizado, preso às ferragens. Somente com os carregamentos dos dois veículos incendiados, o prejuízo foi estimado em R$ 312 mil, além da perda da vida, esta irreparável.
Problemas afetam do produtor ao comprador
O representante do comércio lojista na capital aponta os setores mais afetados por paralisações provocadas por acidentes em rodovias: “Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde há maior densidade de consumo e cadeias de abastecimento mais intensas, o atraso nas entregas afeta, principalmente, operações que trabalham com giro rápido, estoques enxutos e reposição frequente, como supermercados, farmácias, distribuidores de alimentos, atacarejos, varejo de bens de consumo e também segmentos industriais que dependem de recebimento contínuo de insumos”, informa Marcelo de Souza e Silva, da CDL-BH
Os acidentes aumentam também o custo do frete, que está embutido no preço das mercadorias, afirma. “Por isso, a discussão sobre acidentes, segurança viária e conservação das rodovias não é apenas uma agenda de mobilidade ou infraestrutura. Trata-se de uma agenda econômica. Quando as estradas funcionam mal, a economia perde eficiência, o comércio opera com mais dificuldade e o consumidor paga mais.”
Qual o custo na indústria?
Para a indústria, os acidentes com veículos de carga representam custos que vão além dos prejuízos imediatos. Além das perdas associadas a danos em veículos, equipamentos e mercadorias, os sinistros provocam atrasos logísticos, interrupções no fluxo de insumos e produtos, aumento dos gastos com seguros e manutenção, além de impactos sobre a produtividade das empresas. A afirmação é de João Gabriel Pio, economista-chefeda Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
“Em um contexto de elevada dependência do transporte rodoviário, a segurança viária torna-se um elemento fundamental para a eficiência das cadeias produtivas, influenciando diretamente os custos operacionais e a competitividade da economia mineira”, avalia Pio.
Ele reforça que a insegurança viária eleva o “Custo Brasil” ao reduzir a eficiência logística e aumentar os gastos com movimentação de cargas. “Acidentes, interdições e congestionamentos comprometem a previsibilidade das operações, elevam os tempos de viagem e ampliam despesas com combustível, manutenção, seguros e gestão da frota”, destaca o economista.
Os reflexos no agro
Ocorrências envolvendo a frota do transporte de cargas atingem em cheio da mesma forma o agronegócio, por também elevar custos e atrasar a chegada de produtos, muitos deles perecíveis, ao mercado consumidor. A avaliação é de Nathalia Rabelo, analista de agronegócios da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg).
A especialista lembra que, atualmente, o transporte rodoviário, que responde por cerca de 65% de toda a carga movimentada no Brasil, é ainda mais relevante no agronegócio. No caso específico da soja, principal commodity agrícola do país, aproximadamente 69% do volume é transportado em caminhões. “Esse cenário evidencia uma exposição elevada do agro aos riscos operacionais das rodovias, incluindo acidentes”, assinala Nathalia.
A representante da Faemg lembra que a insegurança rodoviária gera impactos diretos e sistêmicos para o agro mineiro, “sobretudo em função da elevada dependência do modal rodoviário na matriz logística brasileira”. Entre os impactos, ela aponta interrupção de fluxos logísticos em corredores estratégicos; aumento do tempo de viagem e imprevisibilidade na entrega; elevação do custo do frete, dos seguros e da gestão de risco; perdas físicas de cargas decorrentes de tombamentos ou avarias; e desorganização da cadeia produtiva, especialmente em períodos críticos de safra.
A economista salienta que o custo logístico interno é um dos principais gargalos do agro brasileiro. “Em algumas rotas, o custo de transportar grãos por rodovias até o porto pode superar o custo do frete marítimo internacional, reduzindo a competitividade do setor”, informa. “Outro ponto crítico é que o Brasil ainda apresenta deficiências estruturais na malha rodoviária, o que amplia o risco de acidentes e pode elevar o custo do frete em mais de 30% em determinadas regiões”, destaca Nathalia Rabelo.
A analista afirma que os impactos dos acidentes rodoviários são mais intensos em segmentos com alto giro logístico e com maior risco sanitário ou maior sensibilidade a prazo, entre os quais estão os setores de hortifrúti, flores e leite, alimentos perecíveis e aves, suínos e bovinos – nesse caso, há impactos no transporte de ração e animais vivos, risco ao bem-estar animal, interrupção de abates e efeito direto sobre custos industriais.
Produtos lácteos são mais sujeitos a impactos, pela alta sensibilidade à temperatura e à ação do tempo. Já os grãos (soja, milho e feijão) sofrem impacto dos acidentes por terem elevada dependência do modal rodoviário, enfrentando perdas por tombamento e aumento de custo em longas distâncias (os fretes podem representar de 15% a 40% do valor final do produto).