Luzia Pinta é o nome de uma mulher desconhecida da maioria dos brasileiros, embora dona de uma história fortalecida em luta, resistência, espiritualidade, trabalho e, principalmente, coragem para enfrentar a Inquisição. Nascida na região de Luanda, África, no fim do século 17, e vendida em sua terra para ser escravizada no Brasil, ela morou durante mais de 20 anos na antiga Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, atual Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Na vila, em 1742, foi presa, levada para o Rio de Janeiro e, finalmente, a Portugal, a fim de responder diante do tenebroso tribunal inquisitorial, o “Santo Ofício”, criado para investigar e punir heresias, negação da fé e práticas consideradas feitiçaria e bruxaria.
Neste mês, quando se lembra a Abolição da Escravatura, proclamada em 13 de maio de 1888, o Estado de Minas conta parte da trajetória de uma mulher destemida que, exatamente 170 anos antes da Lei Áurea, conseguiu comprar sua liberdade, embora, mais tarde, tenha se tornado vítima de denúncias que a fizeram cair em desgraça. Hoje, séculos após sua morte, Luzia Pinta continua a desafiar estudiosos para que escrevam, sem lacunas, todos os capítulos de sua vida, passada em três continentes.
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O QUE FOI A INQUISIÇÃO?
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Também chamada de “Santo Ofício”, foi um tribunal eclesiástico criado para investigar, julgar e punir os então considerados crimes contra a fé católica. O objetivo era combater desvios doutrinários, blasfêmias e práticas consideradas perigosas, usando métodos extremos, entre eles tortura e confisco de bens. Atuou intensamente entre os séculos 16 e 18 na Europa e nas Américas. No Brasil colonial, perseguiu cristãos-novos (judeus convertidos) e outros acusados de feitiçaria, heresia e práticas sexuais proibidas. Embora não houvesse tribunais fixos por aqui, “visitações” dos inquisidores, principalmente no Nordeste, resultaram na condução de centenas de pessoas a Lisboa. “Houve um processo na Idade Média, entendido como Inquisição, que era muito diferente da Inquisição da Idade Moderna (estruturada como reação à Reforma Protestante). A Inquisição que conhecemos é muito mais posterior ao século 16 do que anterior a isso. Até mesmo na estrutura. A Inquisição moderna tem uma forte relação entre Igreja e Estado, quase uma simbiose”, explica o historiador Douglas Lima. No ano 2000, o papa João Paulo II – que seria canonizado em 2014 –, pediu perdão pelos abusos cometidos pelo “Santo Ofício”.
