Há 17 anos, o pesquisador mineiro Douglas Lima busca desvendar a trajetória de Luzia Pinta. Os estudos foram incorporados à dissertação de mestrado defendida por ele na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2014, e publicada seis anos depois no livro “Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais”. Nesta entrevista, o leitor vai conhecer mais sobre a vida da africana que viveu em Sabará e sofreu os horrores impostos pela Inquisição, primeiro no Brasil, depois em Portugal.
Vamos começar pelo mais importante. Quem foi Luzia Pinta?
Luzia Pinta nasceu na região de Luanda, em Angola, no fim do século 17. Na época, ocorriam graves conflitos internos em alguns reinos centro-africanos. Essas guerras resultaram em grande número de pessoas reduzidas à escravidão e vendidas do interior de Angola e do Congo para Luanda, então um porto escravista controlado por portugueses. Foi em uma família com trajetória marcada por esse processo histórico que nasceu Luzia Pinta. Devido a isso, ela já era cativa em solo africano. É possível que tenha aprendido a falar português paralelamente ao quimbundo, a língua nativa da família.
Luzia foi batizada como católica ainda na infância, entretanto, isso não significou rompimento com a religiosidade que seu povo professava em paralelo ao cristianismo. Assim, participou ou recebeu informações de rituais que envolviam possessões por espíritos chamados “quilundos”. Ela não teve muito tempo para viver plenamente essa experiência e refinar seu conhecimento, pois foi vendida na juventude e desterrada para Salvador, provavelmente no início do século 18.
Como Luzia chegou a Minas?
Em algum momento, Luzia foi enviada para Minas Gerais e, acredito, chegou a Sabará entre as décadas de 1700 e 1710, no início da exploração aurífera. Durante alguns anos, acumulou recursos até conseguir pagar um alto valor em ouro por sua alforria, em 1718. Depois disso, viveu décadas na região de Sabará. Como forra, tornou-se senhora de alguns escravos e dona de sítio próximo à Igreja Nossa Senhora da Soledade, nas cercanias da Vila de Sabará. Foi nesse sítio que realizou, por anos a fio, um ritual chamado “calundu”, ao que tudo indica, um termo derivado de “quilundo”. Luzia recriou e possivelmente reformulou rituais que havia aprendido em Angola. Sua atuação como “calunduzeira” era conhecida da comunidade e suas habilidades envolviam também adivinhação e curas de doenças.
Quem frequentava o “calundu”?
As cerimônias que Luzia presidia eram frequentadas por pessoas de todo tipo, até da elite local. Ela chegou a atender inclusive o ouvidor da Comarca do Rio das Velhas, um dos homens mais poderosos da Capitania de Minas. Por conta de suas atividades, foi denunciada à Igreja, ainda em 1727, sem maiores consequências. Embora sua religiosidade atentasse contra o catolicismo hegemônico, por muitos anos ela viveu em relativa segurança. Penso que isso mudou devido a um forte abalo sofrido em sua rede de proteção, formada por indivíduos poderosos. Não por acaso, sua queda em desgraça ocorreu pouco depois que o tal ouvidor retornou a Portugal. Assim, a partir de 1741, ela foi presa e enviada para Lisboa. Ali, foi processada, torturada e condenada pela Inquisição. Perdeu seus bens e foi proibida de retornar a Sabará. Cumpriu a pena de degredo em um local chamado Castro Marim (Sul de Portugal). Não se sabe quando morreu, mas há indícios documentais de que, mesmo depois de tudo o que viveu, Luzia Pinta continuou a exercer o calundu, de forma mais sigilosa, em Portugal.
“Luzia foi batizada como católica ainda na infância, entretanto, isso não significou rompimento com a religiosidade que seu povo professava em paralelo ao cristianismo”
Como o senhor descobriu a história de Luzia Pinta? Também encontrou a carta de alforria dela, certo?
Descobri a carta de alforria por acaso, quando cursava o mestrado, em 2012. Há anos, eu estava investigando documentos semelhantes na Casa Borba Gato, arquivo histórico do Museu do Ouro, em Sabará. Até então, eu conhecia a trajetória de Luzia apenas por meio dos trabalhos de outros historiadores que haviam pesquisado o processo inquisitorial que culminou em sua condenação. Esse manuscrito, atualmente preservado em Portugal, era o único registro conhecido sobre a personagem. Assim, a carta de alforria encontrada em Sabará foi o primeiro documento localizado no Brasil relacionado diretamente a Luzia Pinta. Posteriormente, tive acesso ao processo inquisitorial e, por meio do cruzamento de informações, consegui reconstituir grande parte da complexa trajetória dela em Sabará, entre as décadas de 1710 e 1740. Recorri também a fontes do Arquivo Público Mineiro, que já haviam sido pesquisadas diversas vezes, mas meu objetivo era buscar referências específicas à personagem. A partir dessa investigação, consegui escrever sobre muitos aspectos de sua vida, sem me restringir à questão religiosa, foco mais comum dos trabalhos baseados no processo da Inquisição.
Que outros registros sobre a vida dela, em Sabará, o senhor localizou?
Encontrei um registro de Luzia morando no largo da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Sabará, em 1721. Naquele momento, já era senhora de três escravos. Também localizei outros documentos que revelam sobre o entorno social de Luzia. Esse material foi incorporado a uma parte de minha dissertação de mestrado, defendida em 2014 e publicada em livro em 2020 (“Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais”). Nos últimos anos, descobri outros documentos relacionados à vida de Luzia Pinta em Sabará. Atualmente, escrevo um livro inteiramente dedicado a ela, baseado nessas fontes documentais, muitas delas ainda inéditas.
Por que foi morar tão distante do Centro de Sabará?
Luzia Pinta era dona de um sítio nas proximidades da Igreja Nossa Senhora da Soledade, uma área de serras afastada alguns quilômetros da parte urbana de Sabará. Hoje, é um espaço rural, com poucos moradores. Luzia certamente escolheu o lugar para se distanciar da área que hoje corresponde ao Centro Histórico da cidade. Na Soledade, tinha mais segurança e liberdade para exercer sua fé, além de tranquilidade para receber e cuidar das pessoas que buscavam seu auxílio. Entretanto, é possível que, naquela época, a região tivesse mais moradores do que atualmente. Encontrei diversos documentos que indicam pequenas propriedades rurais e até mesmo um pequeno arraial nas redondezas. Assim, na Soledade, Luzia mantinha distância de olhares indiscretos e boatos preconceituosos, mas permanecia inserida em uma rede comunitária que não a deixava isolada.
Gostaria que nos contasse como foram as pesquisas e onde foram realizadas...
O processo inquisitorial de Luzia Pinta é conhecido de pesquisadores da história do Brasil desde o século 19. Porém, foi somente na década de 1980 que sua história ganhou maior relevância, a partir do livro da historiadora Laura de Mello e Souza, intitulado “O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial”. Na década de 1990, o historiador Luiz Mott revisou o processo e foi o primeiro a perceber as relações entre o culto que Luzia realizava e manifestações religiosas comuns na África Centro-Ocidental entre os séculos 17 e 18. Mais recentemente, o trabalho de Alexandre Almeida Marcussi ampliou a comparação entre as práticas do calundu no Brasil e a relação com rituais e contextos centro-africanos. O professor Marcussi escreveu artigos inovadores e desenvolveu sua tese de doutorado, em grande medida, a partir do processo inquisitorial de Luzia Pinta. Outros autores também investigaram a mesma fonte.
“O estudo sobre a vida de Luzia Pinta é uma janela para outros aspectos do nosso passado, mineiro e brasileiro”
Ao contar essa história, o senhor foi pioneiro em alguns aspectos...
Fui o primeiro pesquisador a localizar registros documentais de Luzia Pinta no Brasil, preservados na Casa Borba Gato, em Sabará, e no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte. Embora eu também tenha estudado o processo inquisitorial e ele tenha sido importante para minhas conclusões, meu interesse maior é conhecer Luzia Pinta para além do calundu. Esse olhar ajuda a compreender melhor o contexto geral da escravidão, das formas de obtenção da alforria e das experiências de liberdade em Minas Gerais nas primeiras décadas do século 18. Em resumo, a vida de Luzia Pinta não se restringiu ao âmbito religioso e seu estudo mais amplo é uma janela para outros aspectos do nosso passado, mineiro e brasileiro.
Houve um apagamento da história de Luzia? Por quê?
Não acho que houve apagamento. O que houve, isso sim, foi um esquecimento de sua história, assim como de milhares de outras mulheres, africanas e suas descendentes, que viveram em Minas Gerais no século 18, muitas delas tendo alcançado sua alforria. Principalmente depois que o Brasil se tornou independente, nosso ideal de história se baseou na eleição de “grandes heróis nacionais”, de homens poderosos que “construíram a nação”. Esse discurso menosprezou o efetivo papel que indivíduos oriundos de camadas inferiores da hierarquia social desempenharam. Foi somente com a mudança desse entendimento que histórias como a de Luzia Pinta passaram a ser consideradas importantes e saíram do esquecimento. Só conhecemos a história de Luzia Pinta devido ao trabalho de historiadoras e historiadores que, ao longo de mais de 40 anos, enfrentaram com paciência montanhas de documentos antigos em arquivos de Portugal e do Brasil.
Muitos desses registros estão em péssimas condições, escritos com letras que exigem treinamento específico para entendê-las. Eu nunca teria percebido a importância dos documentos que encontrei em Sabará se não tivesse acesso aos trabalhos de Laura de Mello e Souza, Luiz Mott, Eduardo França Paiva, Alexandre Almeida Marcussi e de outros que, aos poucos, estão permitindo que a história de Luzia Pinta e do mundo em que ela viveu seja mais conhecida. Mesmo com recursos escassos, a historiografia brasileira já produziu uma quantidade imensa de pesquisas sobre a escravidão e tudo que ela envolveu ao longo de séculos. Mas precisamos de mais investimento e incentivo para que esse trabalho continue a gerar frutos.
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Qual a importância, hoje, de se conhecer essa história?
Ela nos possibilita acessar parte do contexto histórico daquele período, com suas hierarquias e seus preconceitos, mas também com formas de adaptação e de mudança da realidade desenvolvidas por indivíduos que viveram a escravidão. A partir da trajetória de Luzia, temos uma visão da complexa constituição das religiosidades de matriz africana no Brasil, incluindo suas relações ao mesmo tempo conflituosas e conciliadoras com o catolicismo. Essa reflexão reforça a importância de defender a pluralidade religiosa nos dias atuais. Finalmente, retomando algo que já mencionei, o caso é também uma declaração de amor à História e aos arquivos documentais. Luzia Pinta foi esquecida. Sua trajetória desapareceu até mesmo dos relatos orais e, por séculos, os documentos sobre sua existência permaneceram desconhecidos. Nunca conheceríamos sua história se não fosse pelo trabalho diligente de historiadoras e historiadores profissionais. A trajetória de Luzia Pinta é um lembrete para valorizar o trabalho dessas pessoas – que, muitas vezes sem financiamento e recursos adequados, enfrentam condições insalubres nos arquivos. Esse trabalho é fundamental para entender a história do povo brasileiro, que, não podemos esquecer, possui origens e credos tão plurais.
