Uma das representações do mártir, exposta em Ouro Preto - (crédito: )
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Passados mais de 200 anos da morte do mártir, mineiros se mobilizam para recuperar toda a história do homem cujos ideais traduzem a luta pela liberdade. Na data em que se lembra o enforcamento do inconfidente, grupo reforça a intenção de trazer de volta a Minas marcos essenciais de sua trajetória. Em honra do seu nome, luta e legado
Nome de batismo: Joaquim José da Silva Xavier. Alcunha eternizada na tradição histórica e na boca do povo: Tiradentes. Uma imagem consolidada, ao longo dos séculos, de mártir da Inconfidência Mineira (1788-1789), a célebre conspiração contra a Coroa portuguesa e a opressão econômica nos tempos da rainha Dona Maria I, “a Louca” (1734-1816). Neste 21 de abril, com a tradicional cerimônia em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, o Brasil lembra um dos seus filhos mais dignos, mineiro da Região do Campo das Vertentes cuja vida foi marcada por fidelidade aos ideais, coragem para desafiar o poder de Portugal, amor à terra onde nasceu. Em cada passo, um homem que plantou no solo a semente da independência, e que teve seu nome transformado pela História em sinônimo de luta pela liberdade.
Para fortalecer a memória e valorizar ainda mais um personagem tão ilustre – em 12 de novembro serão celebrados os 280 anos do nascimento do herói –, há duas frentes, em Minas, empenhadas na repatriação de bens importantes em sua história e essenciais ao conhecimento da sua aparência física. Enquanto um grupo de advogados tenta trazer de volta o livro com o registro de batismo de Tiradentes, em poder da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), outro busca a identificação genética dos restos mortais atribuídos ao mártir, enforcado, aos 45 anos, no Campo da Lampadosa, no Rio.
Os esforços para identificação genética e possível repatriação dos ossos, que se encontram no Museu Sacro Histórico de Tiradentes, em Sebollas, atual distrito de Inconfidentes, em Paraíba do Sul (RJ), foi iniciada pelo escritor Flávio Ramos, integrante da Academia de Letras de São João del-Rei. Importante destacar que Joaquim José da Silva Xavier nasceu na Fazenda do Pombal, em Ritápolis, na época povoado pertencente a São João del-Rei, então cabeça da Comarca do Rio das Mortes. A data que consta no registro de batismo é 12 de novembro de 1746. Já o 21 abril, Dia da Inconfidência Mineira, se refere à data do enforcamento, em 1792.
Ainda nesta semana, Flávio Ramos deve ser recebido pelo prefeito de São João del-Rei, Aurélio Suenes, e pelo secretário Municipal de Cultura e Turismo, Caio Andrade, para tratar da viabilização do acesso aos ossos atribuídos a Tiradentes. “Pediremos ao prefeito para entrar em contato com o chefe do Executivo de Paraíba do Sul (RJ), a fim de que seja feita identificação genética no material existente no Museu Sacro Histórico de Tiradentes”, detalha.
Destaque no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, Panteão dos Inconfidentes, destinado a ser o último repouso de integrantes da conjuração, não tem o túmulo de seu principal expoente. Movimento defende identificação e traslado de restos mortais
Beto Novaes/EM/D.A Press – 2/4/12
LENDAS E MISTÉRIOS
Ressaltando que a vida e a morte de Tiradentes ainda estão envoltas, junto aos fatos históricos, em mistério, lendas e relatos orais passados de geração a geração, Flávio Ramos conta que, após o enforcamento, o alferes teve o corpo esquartejado, salgado e exposto em pontos da antiga Estrada Real, que ligava o Rio a Ouro Preto.
“Um desses pontos de exposição foi Sebollas, atual distrito de Inconfidentes, em Paraíba do Sul (RJ). Na localidade, há o museu com ossos encontrados, em 1972, no cemitério de uma fazenda outrora pertencente a dona Ana Mariana Barbosa de Matos. O alferes, que patrulhava a região, costumava descansar nessa propriedade”, diz Flávio Ramos também autor de um romance ficcional sobre a figura de Tiradentes. “Não se tem notícias do corpo do herói. A cabeça, por exemplo, nunca foi encontrada”, observa Ramos.
Em 1972, um grupo de pesquisadores, seguindo a tradição oral e referências históricas, fez a exumação dos restos mortais na fazenda de dona Ana Mariana. “Havia o relato de que ela mandara recolher os ossos, pois não queria que ficassem expostos daquela forma. E fez o pedido para que, ao ser sepultada, os ossos do alferes ficassem no seu jazigo”, acrescenta o escritor. Assim, pouco abaixo dos restos mortais da fazendeira, foram encontrados, conforme atestaram exames disponíveis na época, ossos compatíveis “a um homem na idade em que o herói fora enforcado”.
Peças da forca em que Tiradentes foi supliciado e morto, antes de ser esquartejado. Ossos em museu de Paraíba do Sul (RJ), onde parte do corpo ficou exposta, são atribuídos ao herói
Beto Novaes/EM/D.A Press – 2/4/12
ESPERANÇA NA CIÊNCIA
Naquele ano, os ossos foram levados para o Museu Sacro Histórico de Tiradentes, em Sebollas. E lá estão até hoje. “Queremos que sejam feitos exames de DNA nesse material. Com os avanços tecnológicos, poderemos obter muitas informações sobre a verdadeira fisionomia do mártir da Inconfidência. Além das análises científicas, serão necessários exames forenses para validar a identidade”, observa Ramos.
Pesquisa é fundamental para valorização da história do Brasil, em especial a de Minas, onde nasceu e viveu Tiradentes, avalia o escritor. “Será essencial também, caso o material seja realmente do mártir, que parte dos ossos seja repatriada e venha para o Panteão do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, onde se reverencia a memória dos envolvidos num dos maiores levantes, no período colonial, contra a Coroa portuguesa”, ressalta Flávio Ramos.
OS TEMPOS DO MÁRTIR
Tela de José Wasth Rodrigues/Reprodução
Joaquim José da Silva Xavier se apresenta como alferes(na foto, representação em tela de tela de autoria de José Wasth Rodrigues, tida como mais próxima da realidade) ao Regimento de Cavalaria de Minas em 1º de dezembro de 1775, vindo da Guarda dos Vice-Reis do Rio de Janeiro. Três anos depois, comanda o Registro de Sete Lagoas, a entrada para o Norte da Capitania de Minas. Mais tarde, é nomeado comandante da Patrulha do Caminho Novo, trecho da Estrada Real que ligava Minas ao Rio de Janeiro. Sua revolta contra a Coroa Portuguesa aumenta com a falta de promoção na tropa.
Em 1788, Joaquim José se encontra, no Rio de Janeiro, com o também conjurado Álvares Maciel (1760-1804), quando conversam sobre a rebelião contra a Coroa Portuguesa. Dois meses depois, no batizado de dois filhos de Alvarenga Peixoto (1742-1792), na casa do pároco Carlos Correia de Toledo (1731-1893), em São João del-Rei, alguns dos futuros inconfidentes se reúnem e começam a arquitetar a conspiração. No fim de dezembro, em Ouro Preto (então Vila Rica), a reunião ocorre na casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada. Há novos encontros em Vila Rica e outras cidades.
Em Vila Rica, Tiradentes caminha pelas ladeiras com alguns livros. Para despertar a população para os ideais revolucionários, “apimentava” textos dos “Sermões”, do padre Antônio Vieira (1606-1697) com palavras contra a Coroa Portuguesa e criticava a administração régia. Em 15 de março de 1789, quando está no Rio, Tiradentes é preso, após delação de Silvério dos Reis – ele fala sobre a conspiração ao governador de Minas, o visconde de Barbacena.
O alferes se refugia na casa de Domingos Vieira, mas é feito prisioneiro em 10 de maio. No quarto interrogatório, confessa a conspiração e assume toda a responsabilidade pelo movimento. Silvério dos Reis (1756-1819) era contratador de impostos endividado, amigo de Tiradentes e arqui-inimigo do Padre Rolim, um dos mais ricos entre os conjurados.
Em 19 de abril de 1792, é lida a sentença condenatória dos inconfidentes. No dia seguinte, a rainha de Portugal concede a comutação de pena aos indiciados, exceto Tiradentes. Naquele ano, na manhã de 21 de abril, Joaquim José da Silva Xavier é enforcado no Campo da Lampadosa, no Rio de Janeiro. Tem o corpo esquartejado, sendo partes espalhadas ao longo do Caminho Novo, que ligava o Rio a Vila Rica. Conforme a lenda, a cabeça do mártir teria desaparecido na então capital de Minas.
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais/Divulgação
Para reverenciar a memória de Tiradentes, integrantes do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais estiveram nos dias 10 e 11 de abril, no Rio de Janeiro, mais exatamente no complexo da Ilha das Cobras, administrado pela Marinha do Brasil. Na Forte São José, o mártir da Inconfidência ficou preso (na foto, cela onde o inconfidente ficou detido) incomunicável por sete meses à espera do seu quarto interrogatório. No ato cívico, os visitantes colocaram uma coroa de flores na cela histórica.
O Dia da Inconfidência Mineira, lembrado nesta terça-feira (21/4), se refere, portanto, à data da morte, por enforcamento, no Rio de Janeiro (RJ), de Tiradentes (1746-1792). Já a comemoração do nascimento é 12 de novembro, data do batismo na Capela São Sebastião, quando São João del-Rei era cabeça da Comarca do Rio das Mortes.