Em Minas Gerais, 67% dos municípios enfrentaram alguma situação de emergência por desastres climáticos nos últimos cinco anos, entre 2020 e 2025, conforme mostra levantamento feito pela empresa de inteligência de dados Codex junto à Plataforma Nacional de Informações de Desastres (S2iD), sistema de monitoramento do governo federal. O percentual coloca o estado na sexta posição entre os mais impactados do Brasil no período, atrás do Acre (100%), Amazonas (98%), Rio Grande do Sul (95%), Santa Catarina (87%) e Roraima (73%).
As cidades avaliadas no levantamento estão distribuídas por todo o estado, indicando que não há regiões em Minas Gerais que estejam livres dos desastres climáticos. A percepção é corroborada pelo coordenador -geral de Operação e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi.
O órgão monitora constantemente 959 municípios em todas as regiões brasileiras e, entre várias atribuições, subsidia as defesas civis com pesquisas e alertas. Em Minas Gerais, 143 dos 853 municípios estão sob o guarda-chuva do Cemaden, concentrados, especialmente, na porção Leste do estado. Seluchi, explica que a definição se tal cidade é mais suscetível a desastres leva em conta diversos indicativos, tais como o histórico de desabrigados, desalojados e de óbitos, assim como a topografia e demografia. A influência de cada um destes fatores varia por todo o estado.
Problemas variados
Conforme exemplifica o coordenador, a Região Metropolitana de Belo Horizonte é vulnerável devido ao tamanho da população. Em cidades históricas, como Ouro Preto, os riscos se devem ao grande número de pessoas com casas em regiões de encosta – situação que se repete na Zona da Mata, nos municípios da bacia do Rio Doce e no Sul de Minas. Ao Norte, as cidades que demandam maior atenção são as próximas ao leito do Rio São Francisco, vulneráveis ao transbordamento.
Ainda segundo Seluchi, a porção oeste do estado, nas regiões Noroeste e Triângulo Mineiro, é menos suscetível a sofrer com desastres pelas chuvas por terem topografia mais plana e não possuírem população muito densa. Porém, isso não as torna imunes a inundações e enxurradas, pois a ocorrência de tais fenômenos é determinada pela capacidade de drenagem das cidades.
“Como nós temos uma frequência cada vez maior desse tipo de fenômeno (chuvas intensas), basicamente não tem região que escape dessa possibilidade. Não temos hoje uma região no país que você possa dizer que é totalmente resiliente aos desastres. Cada região tem uma dinâmica um pouco diferente, mas hoje, basicamente, eu diria que praticamente todo o planeta está sujeito (a desastres climáticos)”, explica o coordenador.
MONITORAMENTO E AÇÃO
A principal ferramenta a que os municípios têm acesso assim que acontece um desastre é a decretação de estado de calamidade pública, iniciativa que possibilita uma flexibilização de regras fiscais e administrativas, e permite aos governantes executar gastos emergenciais sem as restrições normais do orçamento. Outra medida é o pedido de reconhecimento do estado de emergência pela Defesa Civil Nacional, o que permite solicitar recursos do governo federal para ações de resposta e enfrentamento ao desastre.
O diretor de negócios da Codex, Venicios Santos, explica que o monitoramento da resposta institucional aos desastres é relevante para a tomada de decisões nos setores privado e público. Ele exemplifica outro levantamento feito pela empresa, no qual é constatado que 93% das ocorrências de desastres ligados às chuvas no país nos últimos cinco anos foram em municípios com menos de 100 mil habitantes.
“Ou seja, só 7% dos desastres acontecem nos municípios maiores. Há uma amostra muito grande de municípios que são acometidos por desastres naturais, mas há também uma grande dificuldade de resposta e capacidade de responder a isso. É uma análise interessante ver que os municípios de menor capacidade são aqueles mais acometidos pelos desastres”, analisa.
Santos explica que a Codex atua junto ao Poder Público na criação de ferramentas para monitoramento e enfrentamento aos desastres ambientais, e cita o caso das enchentes no Rio Grande do Sul em 2025, no qual a empresa desenvolveu 20 aplicações para subsidiar os trabalhos do governo. Para além destas ferramentas, o diretor defende uma maior integração entre os órgãos de proteção civil de todas as esferas.
“Não adianta só o município fazer as coisas sozinho sem a continuação de uma política que muitas vezes é feita pelo governo federal, que é proposta pelo governo estadual. Então, a fluidez dessa comunicação é bem necessária também pra gente ter uma implementação adequada das ações de resposta a desastres”, defende Santos.
“Como nós temos uma frequência cada vez maior desse tipo de fenômeno (chuvas intensas), basicamente não tem região que escape dessa possibilidade”
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Marcelo Seluchi
Coordenador-geral de Operação e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)
