Dra. Daniela Faria é oftalmologista, especialista em catarata e glaucoma. Cursou medicina na UFMG e durante todo o curso acompanhou os passos do pai, o ginecologista e obstetra Walter Pereira Faria, inclusive iniciou especialização na área, certa de que seguiria o mesmo caminho.


Apesar de achar linda a área, seu desejo era sentar no consultório, conversar com o paciente, examinar, acompanhar o paciente, operar, mas também ter qualidade de vida pessoal. Casar, ter filhos e ter tempo para a família.

“O glaucoma é a maior causa de cegueira irreversível, no mundo. É chamado de ladrão silencioso da visão”


Sua irmã Isabela e uma grande amiga estavam estudando oftalmologia, e por meio delas foi conhecendo mais a especialidade e decidiu mudar seu caminho.
Se encantou e fez especialização para oftalmologia, com subespecialização em glaucoma, e é apaixonada pelo que faz.

Descobriu um novo universo?
É um órgão que tem milhões de coisas ali dentro, que nem imaginamos. Glaucoma, catarata, uveíte, retina, córnea, estrabismo, plástica ocular. Um mundo à parte.

O que é uveíte?
É uma inflamação dentro do olho. A principal causa é doença reumatológica. Geralmente dá em pessoas quem têm toxoplasmose, sífilis, lúpus, artrite reumatoide. É uma especialidade dentro da oftalmologia.

Por que escolheu Glaucoma?
Primeiro, porque eu adoro ter segmento com o paciente, e quem tem glaucoma é um paciente crônico, ele não tem alta. Eu gosto de ter meus pacientes, de acompanhá-los, de conversar. Além disso, vemos como o glaucoma é pouco divulgado.

É uma doença silenciosa, não é?
Sim. E muitas pessoas ficam cegas por falta de conhecimento. Quando estava na residência via os pacientes chegando do interior que só faziam exame de vista em ótica, nunca tinham olhado um fundo de olho, e já tinham perdido o campo de visão.

Como começa o glaucoma?
O glaucoma é uma doença do nervo ótico, que é o nervo da visão. As pessoas acham que glaucoma é sinônimo de pressão alta no olho, mas não é. O nervo sai do fundo do nosso olho e vai até o cérebro. Ele que leva nossa visão para ser interpretada pelo cérebro. A doença é multifatorial, a principal causa é a pressão alta no olho.

Como se faz o diagnóstico em quem não tem a pressão alta?
Olhamos o nervo ótico e vemos se há alteração de glaucoma, e se tiver, investigamos outras questões como: apneia obstrutiva do sono, geralmente que tem apneia tem pouco fluxo de oxigênio para o nervo e isso causa alteração; obstrução na carótida, que leva pouco fluxo de sangue para o nervo. Quando não tem a pressão ocular alta, temos que investigar outros fatores.

Quando tem pressão alta é fácil de ver?
Sim, porque o nervo é acometido pela pressão alta do olho. Glaucoma e pressão alta não são sinônimos, mas a pressão alta é principal causa de alterar o nervo, ou seja, a principal causa da doença. Por isso tratamos a pressão, esse é o principal tratamento, baixar a pressão.

Se é uma doença silenciosa, quando fazer o exame preventivo? Tem sintoma para ficar de alerta?
Primeiro, não vá ao oftalmologista apenas quando os óculos estão ruins ou quando estragaram. É preciso ir anualmente para grau, pressão e fundo do olho. Nessa consulta é possível suspeitar se a pessoa tem glaucoma. Se a pressão estiver alta ou se tiver alteração no nervo, o paciente é encaminhado para o especialista.

Como é essa alteração no Nervo Ótico?
Aumento da escavação, que é provocada pela pressão alta. Todos nós temos escavação, mas ela é bem pequena, à medida que a pressão vai machucando esse nervo, matando as fibras dele, o buraquinho vai aumentando. Tem gente que nasce com essa escavação aumentada e não tem glaucoma. Nesses casos tira-se foto e vai acompanhando anualmente. Se é glaucoma, aumenta de um ano para o outro.

Quais os fatores de risco?
Quem tem parente de primeiro grau com glaucoma, pessoa acima de 40 anos, pessoa da raça negra e quem tem alta miopia. Esses não podem deixar de fazer o exame de rotina anualmente. Porque se esperar ter qualquer sintoma o servo já estará muito acometido.

Quando a pessoa que tem glaucoma sente alguma coisa?
Para começar a perceber perda de campo de visão essa escavação tem que ter dobrado de tamanho. Por exemplo, em vez de ser 4, já é 8, e a pessoa já está perdendo campo de visão periférica. E vai aumentando a escavação e diminuindo o campo de visão até virar visão tubular, só enxergar o que está na sua frente. Depois desse estágio, é cegueira. Às vezes a pessoa só nota quando começa a esbarrar nas coisas quando anda.

Não existe cirurgia para recompor o nervo ótico?
Não. O que se perde de fibras nervosas não se recupera, por isso que é irreversível. A catarata, por exemplo, é a principal causa de cegueira reversível. Tampou tudo, mas fez a cirurgia, volta a enxergar perfeitamente. No caso do glaucoma, qualquer coisa que perde, já causa prejuízo que não tem volta. O glaucoma é a maior causa de cegueira irreversível, no mundo. É chamado de “ladrão silencioso da visão”.

Existem tipos diferentes de glaucoma?
Existe o glaucoma de ângulo fechado, 10% dos casos, e 1% causa dor, mas é raríssimo. 90% dos casos é glaucoma de ângulo aberto. O mais comum e não dá dor. A pressão normal do olho é 21, a pessoa convive bem com a pressão de 25, 27, sem sentir nada e matando o nervo. Nos 10% – ângulo fechado – a pressão sobre de uma hora para outra, para 50, e aí dá dor, mas é caso raro.

Qual o tratamento para glaucoma?
Colírio para diminuir a produção de um líquido chamado humor aquoso, que escorre 24h dentro do olho. E colírio para alargar o trabeculado, um “ralinho” que tem no olho por onde esse líquido é drenado. Se o ralo entope, acumula o líquido e aumenta a pressão. Por isso usamos dois, três colírios ao mesmo tempo. Outra forma de tratamento é o laser que chama SLT que hoje é a primeira opção de tratamento de glaucoma de ângulo aberto. O laser é feito no consultório, é indolor, não necessita repouso, e ele desentope o trabeculado. Essa cirurgia dura de três a cinco anos, mas é uma benção ficar esse tempo sem ter que usar colírios todos os dias.

O laser atende pacientes com glaucoma de ângulo fechado?
Infelizmente não, nem nas pessoas que já tem o glaucoma de ângulo aberto muito avançado. Necesse caso tem que ser cirurgia.

Existe cirurgia para glaucoma?
Várias. O objetivo delas também é baixar a pressão. Seja o tratamento que for é para baixar a pressão e estabilizar a doença, nada para recuperar. Isso tem que ficar bem claro para não gerar uma falsa expectativa. A cirurgia é para manter a visão que você tem, como ela está, e não recuperar. Tem uma cirurgia que já tira a catarata e coloca um dreno lá dentro do ralinho para drenar o líquido.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

É possível estabilizar a visão ou não perder nada da visão quando descobre que está com glaucoma?
Se descobrir no começo, claro. Tenho pacientes que tratam comigo há 18 anos e a visão está do mesmo jeito de quando começaram. Não tiveram nenhuma perda porque controlamos. Só dá cegueira quando o paciente procura o médico com o glaucoma muito avançado. 

compartilhe