O dinâmico, criativo e inquieto Ronaldo Fraga completou 60 anos no último dia 27, e está celebrando 30 anos da sua marca. Depois de participar da 61ª edição do São Paulo Fashion Week passou uma semana em Belo Horizonte e abriu sua concorrida agenda para participar do podcast Opinião com Estilo.
Ronaldo falou de sua infância. Ele perdeu a mãe aos 6 anos e o pai, quando tinha 10 anos. Cresceu com os irmãos, em Santa Tereza, e a diversão era desenhar. Ele, e o irmão Rodrigo desenhavam todas as paredes da casa, e isso para ele era muito normal. Vizinhos pediam desenhos para ele.
Ronaldo conta do seu primeiro emprego, desenhista de uma loja de tecidos no centro da cidade. Não se interessava por moda, mas o fascínio pelo desenho e pela possibilidade de aprimorar ainda mais o talento que sempre o seduziu. Se assustou quando viu uma enorme fila de mulheres aguardando por seu desenho.
“Elas não queriam uma criação minha, e acho que nem saberia criar, naquela época, algo condizente com cada uma. As clientes traziam a página da revista pedindo para eu desenhar aquela roupa e elas mesmas já detalhavam o que queriam que fosse mudado. Eu apenas executava o que era pedido. Com o tempo passei a dar palpites. Amava desenhar”, relembra.
Quando foi fazer vestibular tentou, entre outros cursos, a Escola de Belas Artes da UFMG, e acabou escolhendo o recém-inaugurado curso de Moda. “Valeu a pena, se não pelo curso todo, só pelas aulas do gigantesco e saudoso Décio Noviello. Ele era figurinista e cenógrafo, mas nos deu uma visão de mundo, do que é importante na vida. Ele me ensinou muito do que sou hoje. Foi e é uma grande referência para mim”, exalta o estilista.
Em 1992, Fraga ganhou bolsa para uma pós-graduação na Parson's – The New School for Design, em Nova York. De lá foi para Londres, onde estudou na Saint Martins School. Na entrevista, conta o que vivia na época, onde a moda borbulhava, mas sentia que tinha que trazer toda essa efervescência para sua terra, e foi esse desejo que o trouxe de volta ao Brasil.
Com o olhar internacional e a borbulhante criatividade brasileira, Ronaldo Fraga conta da sua participação no concurso Phytoervas Fashion, em 1996, quando lançou sua marca e desfilou a primeira coleção “Eu amo coração de Galinha”. Ganhou o concurso e teve repercussão nacional.
Ele fala dos desfiles que quebraram paradigmas quando colocou na passarela modelos fora do esteriótipo dos modelos, como pessoas gordas, baixas, velhas, assim como Vivienne fez em seus desfiles na Europa, colocando punks, gordos, velhos e prostitutas nas passarelas nos anos 1970 e 1980. Esse incomodo e desconforto que ele causou na plateia repercutiu muito, mas também foi prejudicial porque revistas e jornais não queriam estampar aquelas imagens em suas edições.
Outro tópico abordado foi ter sido um dos sete estilistas do mundo escolhidos, em 2014, para apresentar peças no Designs of the Year, promovido pelo Design Museum, em Londres.
Relembramos várias de suas coleções, com imagens dos desfiles e fechamos com a sua mais recente coleção, Cartas de Algodão, criada para celebrar os 10 anos do projeto Sou de Algodão e os 60 anos da marca Ronaldo Fraga, e que fique registrado que não são de carreira.
Para quem não conhece, o projeto Sou de Algodão foi criado pela Abrapa em 2016, como um movimento para unir a cadeia produtiva e têxtil e estimular o uso do algodão brasileiro. Eles queriam ser grandes e se tornaram únicos.
O movimento é hoje um grande centro criativo que gera conexões entre produtores de algodão, fiações, tecelagens, malharias, confecções, varejistas e, claro, um público final que prioriza a fibra natural e nacional.
Ronaldo Fraga colocou a criação autoral no centro da celebração. Em Cartas de Algodão, Ronaldo partiu de correspondências manuscritas, lembranças familiares e objetos cotidianos para investigar aquilo que permanece quando o tempo passa.
Estampas inspiradas em envelopes e correspondências reforçam o diálogo com a escrita, enquanto detalhes artesanais revelam outras possibilidades de trabalhar o algodão, das superfícies delicadas às estruturas mais encorpadas. Ele recuperou a ideia de correspondências que nunca chegaram aos destinatários, mas preservaram sentimentos e testemunhos de outras épocas. Como escreveu no texto de apresentação da coleção, o algodão assume o papel de “papel, pele, memória e território”.
E fechando toda essa deliciosa conversa, Ronaldo fala da novidade para o próximo ano: o bloco de carnaval que criou e sairá pela primeira vez em 2027.
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O motivo? Ele ama carnaval, ama festa e já fez alguns carnavais no seu Grande Hotel, com sucesso.
O nome ainda é provisório, mas o local, formato e data já estão definidos, e tudo isso você saberá no final do nosso papo, no podcast, neste domingo.
