Ele passou pela vida com a velocidade de um cometa, iluminado pelo brilho das roupas que criava. Entre paetês, canutilhos e miçangas, Marcus Vinícius Resende Gonçalves, o Markito, deixou sua impressão digital na moda brasileira. E não foi só no Brasil: conquistou também Nova York, onde era bem-vindo nos points badalados, como o lendário Studio 54.
Claudia Goncalves de Souza, grande amiga
Lá fez amizade com frequentadores assíduos, como Bianca Jagger e o costureiro Halston, conforme conta sua irmã Cecília Resende Gonçalves. Ela é a guardiã do acervo do estilista, que está sendo exibido na exposição “Markito – Cintilações da Noite", em cartaz no Museu da Moda de Belo Horizonte. Entre croquis, documentos, fotografias, objetos biográficos, matérias em jornais e revistas, a mostra reúne 38 peças das coleções de Mônica, da amiga Cláudia Gonçalves de Souza, e do Senac.
A carreira do mineiro, nascido em Uberaba, se situa no panorama cultural da década de 1970 e do início dos anos 1980, se fundindo temporalmente com a era disco, em que a noite era celebrada nos clubes noturnos e os figurinos marcados pelo excesso de brilhos.
A trajetória na moda foi precocemente interrompida com sua morte em 1983, aos 31 anos, no auge do sucesso, devido à complicações da Aids. Se o objetivo da exposição é trazer o legado de Markito, silenciado pelo passar do tempo, para as novas gerações, o projeto expográfico de Alexandre Rousset soube tirar partido da ideia. “Meu pensamento, defendido também pela curadoria, era contar essa história de forma não linear e sob a perspectiva da constelação, dos grandes flashes e das relevâncias da vida do Markito. Isto acabou guiando a construção de uma espacialização mais livre”, explica.
Na primeira sala, o arquiteto apresenta o estilista ao visitante. Uma grande foto, no centro do espaço, o mostra rodeado por mulheres notáveis – Pat Cleveland, Mila Moreira, Sandra Bréa, Mariângela Bordon, Gal Costa, Zezé Motta, Christiane Torloni, Sharlene Shorto, Marília Gabriela e Betty Faria –, um conjunto de estrelas constelando em torno dele.
“Da mesma maneira que o brilho está presente no acervo, a cenografia buscou o brilho da luz, as superfícies retroiluminadas. Temos o neon na sala 2 e um céu estrelado na sala 3. Já no salão nobre, superfícies espelhadas refletem e multiplicam as roupas gerando uma profusão de imagens”, ressalta. A cenografia persegue a atmosfera da noite elegendo como base o preto, os azuis, azuis profundos e azuis noturnos na cartela cromática.
Família
Depois que a mãe faleceu, coube à Mônica, única irmã de Markito, cuidar do seu acervo. Ele deixou tudo muito organizado em arquivos que incluíam os cadernos de desenhos da infância, uma enormidade de croquis, objetos pessoais, entre outras lembranças da sua vida. Segundo Mônica, foi o pai que percebeu a inclinação do filho para o desenho e o encaminhou para as aulas com uma freira holandesa, que havia chegado em Uberaba. Adolescente, no momento de escolher a profissão, a engenharia era uma opção, já que havia muitos engenheiros por parte da família paterna, todos formados pela Escola de Minas de Ouro Preto.
“Minha mãe e ele eram muito amigos, confidentes, e quando Markito pediu um tempo para pensar o que queria fazer, não colocou objeção. Ela desejava desejava que ele fosse feliz’’, afirma. O estilista passou um tempo na casa de uma tia, na Bahia, e por lá descobriu técnicas de tingimento, inclusive o batik. Quando regressou, já expressou a vontade de ir para São Paulo para trabalhar com roupas.
Segundo a irmã, Eugênia Fleury foi uma das primeiras a encomendar as camisetas em filó, que ele fazia, para sua loja, na rua Augusta. Dali para a frente, Markito foi crescendo, conquistando as mulheres, que se encantavam pelo seu trabalho. “Ele era muito alegre, expansivo, conquistava as pessoas”, ressalta. Glória Kalil também vendia as peças do mineiro, na Fiorucci. Das camisetas do início, o estilista chegou à criação dos famosos vestidos em jérsei executados pelas bordadeiras de Uberaba.
Na exposição, uma caderneta de endereços revela as clientes famosas. Entre socialites, artistas e gente da moda, aparecem os nomes de Maria Tereza Goulart, Maria Bethânia, Monique Evans, Maria Alice Celidônio, entre outras. Durante sua carreira, Markito criou figurinos para Simone, Zizi Possi, Lucinha Lins, Ney Matogrosso, além de produções desenvolvidas para os filmes “Eu te amo” (1981), de Arnaldo Jabor, e Rio Babilônia (1982), de Neville de Almeida. Nessas relações, se incluem também a ligação com Lennie Dale, dos Dzi Croquettes, famosos naquela época.
Amizade
Grande amiga de Markito, Cláudia Gonçalves de Souza doou oito vestidos da sua coleção para o Museu da Moda. Eles fazem parte da mostra, que exibe, ainda, o look usado na festa que ofereceu para Pelé, em sua cobertura, em Nova York, para comemorar os 40 anos do jogador. Esse foi emprestado. “Quando a equipe responsável pela exposição me procurou, resolvi doar tudo, porque nada me servia mais e minhas filhas não se interessaram por esse tipo de roupa de festa”, enfatiza.
Claúdia relembra que o primeiro encontro com o estilista foi em uma festa na casa de Marcinho Ferreira, em Belo Horizonte. “Eu o conheci como Marcus Vinícius. Daí fui morar em Nova York, casei, e perdemos o contato. Mais tarde, estive com a Gisele Amaral, mulher do Ricardo Amaral, no Brasil, e me interessei pela sua roupa. Ela me passou o endereço do Markito, mas não relacionei uma coisa com a outra. Foi uma surpresa reencontrá-lo em outro momento”, conta.
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A partir daí surgiu uma grande amizade. Como relações públicas de um dos restaurantes do marido, próximo a Broadway, Cláudia era muito bem relacionada. “Eu era muito extrovertida, conversava com todo mundo, conheci muita gente, inclusive muitos artistas, como Liza Minelli, Paul Newton, que frequentavam o local. Markito vinha para Nova York duas vezes ao ano para vender suas coleções. E eu convidava minhas amigas, ajudava nas vendas, dava todo o suporte. Em troca, ele me presenteava com as roupas. Depois, a gente saia para dançar no Club A ou em boates gays. Markito era da noite”.
