Em uma época na qual as crianças estão voltadas para o digital, a falta de atividades que desenvolvem o fazer manual pode deixar uma lacuna importante no desenvolvimento dos pequenos, que poderá ser bastante prejudicial na fase adulta.
Lis Anjos, de nove anos
Pensando nisso, profissionais da área da educação, psicologia, terapia ocupacional e outras profissões afins abrem espaços com oficinas de arte e trabalhos manuais para que crianças e adolescentes possam sair da frente de telas e ter um momento especial para dar asas à criatividade e desenvolver sentidos importantes para a vida. Antes do Dia das Crianças, nos dedicamos a compreender esses trabalhos e a importância deles para os pequenos.
Valentina Guerra, de 10 anos
Maria do Carmo Guimarães Pereira e Ana Guimarães são sócias e proprietárias do espaço Maria Arte & Ofício, fundado há 37 anos em Belo Horizonte para ser uma escola de artes onde são desenvolvidas variadas atividades culturais correlacionadas com as artes manuais. Os cursos têm como objetivo contribuir para a formação global de crianças, adolescentes e adultos e harmonizam, com base em atividades artísticas, aspectos cognitivos, comportamentais, emocionais e motores.
Clarice Joviano, de 9 anos
Ana é terapeuta ocupacional, com especialização nas áreas de psicanálise, antroposofia e neurociências. Ela afirma que é através de atividades manuais, artísticas e lúdicas que as crianças encontram a resposta para a pergunta mais importante da vida: Quem eu sou?
“Isto é o cerne do ser humano. Encontrar esta resposta traz o reconhecimento de si mesmo e de suas competências. É por meio desses trabalhos criativos que cada um pode perceber seus sentimentos, entender como e porque chegou até este ponto, e o que faz com tudo isso”, explica Ana Guimarães.
A profissional diz que o trabalho manual é fundamental para o amadurecimento do cérebro até os 7 ou 8 anos de idade. O que antes acontecia de forma natural com as brincadeiras na rua, foi interrompido e substituído por telas. Isso resultará em uma modificação do comportamento humano.
Ana Guimarães Sócia-proprietária do Maria Arte &Ofício
O trabalho da escola com as crianças faz com que elas passem a se reconhecer e fortalecer suas identidades. Além de conseguir perceber o que lhes dá prazer e o que não gostam. Desenvolvem a criatividade, aprendem a lidar com regras. Aprendem a sentir, perceber, pensar. Segundo Ana Guimarães, os pais de hoje não permitem que os filhos tenham nenhum tipo de angústia, nem de espera. Tudo tem que ser a tempo e a hora.
Por meio do trabalho com argila, aquarela e até culinária Ana trabalha sentimentos, sensações, cognição, técnica, rejeição, aceitação do diferente, formas, pensamentos organizacionais, segurança.
Hoje, a autoestima está muito baseada na opinião e aprovação do outro sobre você, através dos likes recebidos em redes sociais. O trabalho feito nas oficinas age na contramão desse caminho, faz com que a criança adquira segurança em si mesma, com a segurança vem a independência, que traz a autonomia, a autoconfiança e a autoestima. Tudo pelo reconhecimento de quem é, sem depender do que o outro pensa ou acha.
Culinária
Para Valentina Guerra, de dez anos, e Clarice Joviano, de nove anos, a aula de culinária é a atividade favorita no Maria Arte & Ofício. “As receitas que aprendo lá, repito em casa”, conta Valentina, que se apaixonou por uma minipizza.
Clarice, por sua vez, chama a atenção para uma atividade realizada com gelatina colorida. O clássico doce dos anos 1980 serviu como uma metáfora para a vida. “O que mais gostei de fazer recentemente foi essa gelatina. Com ela, a Ana falou sobre incluirmos as pessoas. Todo mundo é diferente, mas, no fundo, somos todos humanos”, refletiu a pequena, com base nas diferentes cores de gelatina que convivem em um mesmo recipiente.
Apesar da pouca idade, Valentina e Clarice sabem o bem que as oficinas fazem a elas. “Quando chego, sinto felicidade porque estou aprendendo muito, e quando saio sinto orgulho do meu trabalho”, reflete Valentina, que ainda diz acreditar que o tempo lá faz bem para a sua concentração e diminui a ansiedade.
“Na hora de sair de lá eu fico triste, porque queria ficar mais, mas sei que vou voltar na próxima sexta”, destaca Clarice, que acredita que aprende muito a acolher e escutar outros.
Texturas
Cláudia Felga é fundadora e proprietária da Escola da Vila, de existe há quase 30 anos e do Ateliê da Vila, que abriu há dez anos. Ela conta que criou o espaço buscando trazer para as crianças, uma materialidade que fosse além da canetinha e do giz de cera – apostam, por exemplo, nos tecidos, na argila e na aquarela.
Por mais que isso possa parecer simples, não é. As texturas, temperaturas e sensações causadas por cada material são importantes para o desenvolver na infância. “As crianças hoje estão muito acostumadas com plástico e MDF, apenas materiais artificiais, então vemos muitas com hipersensibilidade sensorial, que não gostam de pisar na grama ou areia, por exemplo”, destaca Cláudia.
“Muitas vezes essas crianças não têm contato com outras texturas desde pequenas, outras materialidades. Quando brincam só com o plástico, não são apresentadas a variações táteis ou olfativas”, completa a psicóloga de formação.
Investigação
O trabalho ou as artes manuais também oferecem algo fundamental para as crianças: a possibilidade de criar e investigar. Conforme explica Cláudia, quando vão fazer uma cerâmica de um bichinho ou mesmo um humano, elas precisam calcular uma base, ou o tamanho de um pé que sustente toda a estrutura. Elas precisam saber bem como materializar algo que está na imaginação. “Esse momento não é necessariamente de estimulação, mas aterramento, investigação”, destaca Cláudia.
Ela também pontua o mesmo que Ana no que diz respeito a crianças com cada vez menos frustrações. “Sinto que hoje as crianças desistem muito fácil e querem as coisas muito rápidas. É interessante porque quando fazem aula de costura e descobrem que o botão não nasce na roupa, passam a dar muito mais valor, descobrem camadas e dimensões do processo de fazer”.
E para além disso, o fazer também gera um prazer diferente do da compra. “É importante elas encontrarem dificuldades e superarem. Normalmente, as coisas com as quais elas se dedicam, elas amam e se apaixonam mais, sentem orgulho”.
As telas
É praticamente impossível sair por aí sem se deparar com uma criança vidrada em uma tela, seja ela de celular, tablet ou notebook – sem falar das que estão disponíveis em casa, como as televisões. Os malefícios delas são inúmeros, e Cláudia conta que é fácil perceber quando um aluno que chega ao Ateliê já foi exposto às telas. “A tela é muito dinâmica. E as crianças que assistem TV antes de vir para cá chegam bem mais agitadas do que as que acordam e vem direto ou da que não tem acesso a esses dispositivos”.
Na contramão disso, as brincadeiras com as mãos, que segundo ela são comuns em toda cultura, estimulam movimentos importantes para o futuro. “Por exemplo, quando a criança está brincando de corre cutia, precisa perceber o que está atrás dela. Então, nessa brincadeira, a gente trabalha uma atenção que no futuro, tem relação com a direção defensiva, muito importante no trânsito”.
Cerâmica
Lis Anjos, de nove anos, faz aulas de cerâmica no Ateliê da Vila há pouco mais de dois meses. Ela, que é praticamente neta de Cláudia (é neta biológica de seu marido), diz adorar o momento de modelar a argila no torno. “Eu gosto de fazer esculturas e moldes no torno. Para mim, os maiores desafios na aula são os pequenos detalhes, que são difíceis de grudar”.
Mesmo com pouco tempo na oficina, Lis já percebe uma evolução em si. “Eu acho que fiquei mais concentrada, e tenho gostado cada vez mais”. Juliana Anjos, mãe de Lis, concorda com a filha. “Vejo que ela está desenvolvendo muito bem a coordenação motora mais fina e uma concentração mais prolongada. Às vezes, ela fica uns 40 minutos fazendo algo em casa, bem compenetrada”, conta.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O orgulho do qual Cláudia falou, também é percebido por Juliana. “Acho que ela sempre pensa nessa questão da funcionalidade do objeto que faz, e sente orgulho dele pronto”, completa.
