Estou em Berlim. Cidade que meu pai amava estar. Era para cá que ele vinha em setembro correr a maratona, sendo sua primeira vez aos 79 anos e a última beirando os 90, pouco antes do isolamento provocado pela COVID. Aqui, na manhã da corrida, encontrava os amigos da avenida Bandeirantes e do Minas que também se aventuravam a percorrer 42 km de um trajeto plano. Daqui, a cada ano, seguia para algum outro país da Europa sozinho.
A loucura é que ele não falava nada em outra língua se não em português. Netas e netos faziam fichas de papel com traduções em inglês e alemão de perguntas básicas para quem precisa comer e locomover-se pelo transporte público, mas tenho minhas dúvidas se as usava.
Ele contava que, durante os passeios pelos pontos turísticos para os quais ia com ajuda do velho mapa em papel, escolhia um restaurante e, ao se sentar, dizia “I Brasil”. Era o suficiente para aparecer alguém capaz de trocar com ele umas palavras e surgir com um prato saboroso e seus complementos. Sempre deu certo, garantia, e ainda lhe rendia um amigo para o qual corria sempre que a fome batia e ele estava por perto. Cada almoço, uma surpresa nem sempre boa, mas valia a emoção.
Sabíamos que ele anotava tudo em uma caderneta, cada rua que passava, cada praça que atravessava. “Dessa forma fica fácil de não me perder”. Nenhum de nós tem ideia de como ele se virava quando ia longe demais ou se confundia. Fato é que, no dia certo, ele voltava para BH já planejando o próximo setembro. Como corria em uma categoria com pouquíssimos concorrentes e sempre completava o percurso, tinha vaga garantida com a isenção da taxa de inscrição.
Não tinha celular, ligava pelo telefone fixo dos hotéis. Isso tem me feito lembrar dele a todo momento. Como sobrevivia sem internet? Fui lavar roupa na lavanderia do hotel e me deparei com máquinas acionadas por um aplicativo. Você escolhe um entre 15 países e, em fração de segundos, o app te indica a máquina disponível mais perto de você. Logo depois de pagar também on-line, “plim” ela liga, e você aguarda uma mensagem de e-mail avisando que sua roupa está pronta para ser retirada. Nada de gente para ajudar ou conversar, moeda para colocar em algum lugar, nem sequer necessidade de acrescentar sabão ou amaciante. Dúvidas? Pergunte à IA.
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Como ele fazia no metrô que parece confuso pela quantidade infinita de consoantes enfileiradas? Estou enfrentando facilmente esse desafio com o Google Maps e suas alternativas, mas e ele que nem celular trazia? Seria coragem ou a verdadeira sensação de autonomia e liberdade?
