Uma mesa única, inteiramente revestida de cerâmica colorida, que faz curvas e ocupa todo o salão, convidando o público a uma experiência, no mínimo, diferente. Não é difícil entender por que o Restaurante Agnes venceu a 5ª edição do Prêmio Estado de Minas de Arquitetura e Design de Interiores como Melhor Ambiente da CasaCor Minas, no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A ousadia está em muitos detalhes do projeto – vide o piso rosa –, que vai ficar na memória.


Projetado pela dupla à frente do escritório Balsa Arquitetura, Sarah Floresta e Paulo Campos, o restaurante faz uma homenagem a Agnes Farkasvolgyi, pela sua 10ª participação na CasaCor Minas. Eles não conheciam pessoalmente a chef até mergulharem juntos no desafio proposto pelo diretor da mostra, Eduardo Faleiro, que levou como inspiração o Bar Balcão, em São Paulo, famoso justamente pelo mobiliário de madeira curvo e comunitário, com 25 metros de comprimento.


Bastou um breve encontro no bistrô A Casa da Agnes, no Bairro Santo Antônio, Região Centro-Sul da capital, para que os arquitetos decodificassem a alma da chef. “A Agnes entrega tudo quando você a vê, ela não tem segredo”, pontua Paulo, referindo-se, certamente, ao seu jeito de vestir e à decoração do seu restaurante fixo, cheio de obras de arte da própria Agnes, que também é artista plástica.


Não há dúvida de que a mesa é a protagonista do ambiente campeão da CasaCor Minas. São 26 metros de uma estrutura de drywall revestida com um mosaico (totalmente calculado, teve até planilha para ajudar) de azulejos artesanais de diversas cores da marca Antigua, normalmente usados em piso ou parede. “Em tempos de tecnologia, é um projeto que discute a comunidade, o compartilhar e uma coisa que eu amo desse projeto é o trabalho à mão. Essa mesa foi feita azulejo por azulejo”, destaca o arquiteto.


Obra de arte

A homenageada enxerga a mesa como um objeto “escultórico e absolutamente pictórico”, que cumpre o papel de uma obra de arte, capaz de causar incômodo, provocar reflexões e propor o novo. “Acho que ela vai abrir portas para outras oportunidades e vai abrir a cabeça das pessoas. A gente tem que tirar essa ideia de que mineiro é fechado, é difícil”, comenta Agnes, revelando ter sido questionada se tinha perdido o juízo ao topar a ideia.


Indo além, a chef interpreta a peça como uma pintura, que vai se revelando em camadas. À primeira vista, saltam aos olhos as taças e os pratos estampados, que são do seu acervo. Abaixo, ficam os jogos americanos criados por Bárbara Surette, do estúdio criativo Puiipuchii, que seguem as cores da mesa. Mais ao fundo, as cerâmicas do tampo. Quando o prato chega à mesa, podemos dizer que aqueles elementos se transformam em um quadro de comer.


Cores e geometria

O jogo de cores é um ponto importante do projeto. “A gente estava com a ideia de fazer algo colorido [que tem muito a ver com a personalidade e com a comida da chef], mas teve um momento em que a gente relaxou com a composição e as cores saíram quase naturalmente. Isso tem muito da Agnes, de explodir mesmo”, observa Sarah. O piso rosa, as paredes marrons e a marcenaria bordô criam a base para a explosão cromática da mesa.


De todos os elementos coloridos, o mais inusitado é o chão – o tom foi escolhido sem ninguém saber que é um dos que Agnes mais gosta, apesar de atualmente estar com os cabelos pintados de azul, e sempre aparece no seu trabalho. “O rosa era um ótimo complemento para as cores da mesa”, justifica Paulo. Sarah complementa: “Fora que é uma cor quente, de certa forma gastronômica e confortável também.” O rosa está até, sem combinar, no jardim de Nãna Guimarães.


Os arquitetos também brincam com a geometria. A mesa tem formato curvo, ao mesmo tempo em que as cerâmicas se encaixam em ângulos retos e os jogos americanos são circulares e ovais. O teto tem um trançado manual de tecido cru que forma triângulos. Já os cubos de marcenaria, desenhados por Luany Viana, da Marvis Planejados, viram nichos onde ficam peças de Agnes, incluindo objetos garimpados e criados por ela, que mudam de lugar e são substituídos sempre que dá vontade.


Caos criativo

Uma das inspirações para o projeto, explica Paulo, é a desordem. “A desordem é importante porque não anda separada da ordem. É lógico que tem toda uma ordem em volta da Agnes, mas a desordem é o que emociona”, defende. Sarah tem uma percepção parecida. “Na imersão do dia em que fomos ao A Casa da Agnes, vimos coletâneas de muitas coisas, cores, objetos, texturas, quase aleatórias, mas juntas elas fazem muito sentido.”


Agnes recorre ao seu conhecimento de ciência – ela é formada em física e deu aulas por 15 anos – para concordar com o que os arquitetos dizem. “O caos é uma direção de vida”, resume. “A gente acha que o caos é tudo de ruim, mas sem o caos você não consegue pensar na ordem. E esses parâmetros sempre fizeram parte da minha vida. Nunca consegui separar a pessoa do que eu faço, das coisas que eu gosto, e isso é da ordem do caos.”


O que fica

O restaurante, que chamou a atenção dos jurados do prêmio por ser inovador, disruptivo e provocativo, vai deixar marcas em todos os envolvidos. Segundo Sarah, o escritório sai da CasaCor com a identidade mais fortalecida. “Esse ano exploramos muito nossa identidade. Tivemos espaço e aceitação para trabalhar uma vertente mais artística ou projetos mais coloridos”, comenta.


O envolvimento de Agnes com o espaço aponta para mudanças profundas, que vão além da intenção de levar os pratos mais amados para o menu do seu restaurante fixo e de dar uma mexida na decoração dele, já que fica superinspirada ao habitar a CasaCor. “Estou num momento de transição de vida e acho que esse é um marco de um projeto que venho estudando há mais de 10 anos”, conta, ainda sem revelar detalhes. As novidades chegarão em 2027, quando ela completa 65 anos.

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Antes disso, a chef tem planos para a mesa. “No último dia, num horário em que não tiver ninguém, vou subir nesta mesa. Preciso fazer uma performance. Ainda não sei se vai ser com comida, se vai ser com roupa, mas, se não usar a mesa para fazer alguma coisa em cima dela, morro”, adianta Agnes, que já avisou para os arquitetos: vai levar um pedaço da peça para colocar na parede de casa. 

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