Nos dias 19, 21 e 23 de setembro, o Grande Teatro Cemig Palácio das Artes recebe a ópera inédita “Chica da Silva”, a 100ª produzida pela Fundação Clóvis Salgado (FCS). O espetáculo teve sua pré-estreia no último dia 12, em Diamantina (MG), que, enquanto era Arraial de Tijuco, foi palco da história dessa emblemática personagem mineira.

Croquis da ópera Chica da Silva

William Rausch/divulgação


O figurinista William Rausch teve como missão, nessa ópera com música de Guilherme Bernstein, libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone e direção cênica de Julianna Santos, dar contexto por meio das roupas e, claro, propor adaptações necessárias.


“Tudo começa com estudos em livros e na internet. Vou adquirindo conhecimento sobre o período em que se passa, basicamente entre 1750 e 1790 onde é hoje Diamantina. Depois, começo a desenvolver as peças com base no libreto e nas partituras”, explica.


E são as músicas e as pausas que dão dimensão de que caminho e ritmo William deve seguir. “Quando tenho um minuto para troca de figurino preciso pensar em uma modelagem mais fácil de ser trocada. Um corset trançado, por exemplo, pode ter um zíper escondido que facilita esse processo”, conta. Em outros casos, os artistas já entram com uma meia calça que será usada em uma cena seguinte por baixo da roupa, para que não precisem gastar tempo vestindo essa peça no camarim.


As adaptações, conforme explica William, também estão ligadas à parte estética, além da operacional. “Atualmente, é fácil ter acesso às modelagens da época, o que preciso fazer é adaptar aos corpos atuais e aos materiais disponíveis”.


Nesse ponto, ele destaca a possibilidade de texturizar tecidos para que eles fiquem mais semelhantes aos usados naquele determinado período.


Tons terrosos

Na introdução da ópera, por exemplo, todo o figurino foi produzido em americano cru. “É um tecido que pega bem o tingimento e a introdução da obra é toda em tons terrosos”, conta, sobre a escolha desse material.


A simplicidade e sobriedade desses tons é uma forma de retratar o período da escravidão de maneira menos explícita. “Não quisemos trazer objetos que remetessem à escravidão. Quisemos homenagear os escravizados sem os elementos já muito usados em outros espetáculos”, destaca, referindo-se a uma maneira mais sensível de representar essa realidade.


O quarto ato

Um dos pontos mais desafiadores para William foram os figurinos do quarto e último ato do espetáculo. “Nesse momento vamos para o caminho do afro futurismo”. Esse movimento cultural busca, basicamente, celebrar a ancestralidade africana e trazer a cultura negra para um espaço de protagonismo.


Em “Chica da Silva”, isso se materializa em uma fusão pouco provável para aquela realidade. “Misturamos um pouco do que estava separado nos atos anteriores. Trazemos figurinos de época, mas com turbantes, adereços africanos aplicados, etc”.


É no quarto ato, inclusive, que túnicas aparecem em destaque com detalhes de tecido ankara, que vieram da África.


Acervo

William conta que, como essa ópera teve propostas diferentes em relação ao figurino, ele conseguiu aproveitar um pouco do acervo da Fundação Clóvis Salgado. “Praticamente 90% foi feito, mas 10% do que usamos veio do acervo. Consegui aproveitar algumas calças rústicas, camisa de época, etc”.
Os calçados também, de acordo com o figurinista, são muito pouco comprados e costumam ser reaproveitados. “Usamos muito botas de cano longo e sandálias abertas”.

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Todo o figurino da ópera irá para o acervo futuramente, o que é interessante para o caso de uma remontagem do espetáculo, além, é claro, da possibilidade de outros figurinistas e obras mergulharem nessas criações. 

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