Maria Ignez Coutinho Fonseca seria apenas mais uma mulher madura, que resolveu voltar a estudar, se não fosse por sua liderança nata que resultou na criação da Amide – Associação Mineira de Decoradores de Nível Profissional. A instituição, fundada em 1984, começou a ser concebida nos bancos da Fuma – antiga Fundação Mineira de Arte Aleijadinho, incorporada nos anos 1990 pela UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais –, ganhou asas e se tornou um modelo bem-sucedido de associativismo, cujo trabalho repercutiu em todo Brasil.
Defender os interesses da classe, informar, difundir e ampliar conhecimentos, unificar o setor e, o mais relevante, lutar pela regulamentação da profissão dos decoradores foram alguns dos pilares básicos da Amide ao longo do tempo. Entre as ações pioneiras promovidas pela associação destaca-se a realização do I Salão Mineiro de Decoração, com participação dos associados e de personalidades importantes, ícones como José Duarte de Aguiar, referência em São Paulo, e de Júlio Pechman, em Curitiba. O evento, realizado nas dependências da atual CDL – Câmara dos Dirigentes Lojistas – foi um embrião bem-sucedido da CasaCor e movimentou BH.
Com os filhos já encaminhados, Maria Ignez resolveu correr atrás dos seus sonhos e escolheu o curso de design de interiores como caminho. "Os meninos já eram independentes e sempre tive muito interesse pela história da humanidade a partir do olhar da arte e a sua importância na decoração e no design. Essa evolução, que passa pelos gostos de cada período, e por momentos importantes que definiram a estética no mundo, da era dos Luises da França à escola de Bauhaus, me fascinava. Então eu, que me dedicava à casa e à família, resolvi fazer o cursinho para o vestibular na Fuma, que poderia me oferecer esse conteúdo", recorda.
Na faculdade, ela encontrou colegas que fizeram coro às suas preocupações com o futuro da classe. "Era uma turma muito unida, fiz muitas amizades e formamos um grupo para fazer trabalhos e discutir sobre o mercado. Não via muitas chances de buscar conhecimentos depois que a gente se formasse, assim como de ter nosso trabalho reconhecido", conta. Líder nata, passou a levar essas inquietações para a diretoria da escola em intercâmbio com os alunos. E foi assim que nasceu a ideia de criar uma associação que pudesse fornecer aprimoramento e subsídios intelectuais.
criação
"Quando nos formamos, a Amide já estava registrada", relata. Ela não esquece os apoios que recebeu da família, especificamente do marido, o médico Gilberto Fonseca, que se debruçou sobre o projeto e sobre os trâmites burocráticos necessários para que ele se tornasse realidade. O apoio da Fuma que disponibilizou uma sala na rua Ouro Preto, com telefone e secretária, para que a instituição funcionasse. Eleita primeira presidente – cargo que exerceu por 12 anos seguidos, voltando, tempos depois, para mais um mandato – os primeiros passos se concentraram em arregimentar associados. Todos os alunos da faculdade foram credenciados já levando em conta a profissionalização em nível superior.
Os que convivem com Maria Ignez ressaltam a sua elegância e delicadeza no trato com as pessoas e sua capacidade estratégica para lidar com as situações. No início da associação, temendo ressentimentos dos decoradores autodidatas, que já atuavam no mercado de Belo Horizonte, se reuniu com cada um convidando-os para se tornarem sócios honorários. "Foi a forma que encontrei para trazê-los para nosso lado, reconhecendo o trabalho pioneiro que exerciam e evitando confrontos e mágoas. Eles se integraram e tivemos uma convivência muito proveitosa". Outra estratégia foi se aproximar da imprensa especializada, particularmente deste Caderno Feminino & Masculino do Estado de Minas, ganhando apoio do veículo e da sua editora Anna Marina Siqueira que, com sua influência, sempre ajudou a resolver eventuais dificuldades.
Cícera Gontijo, que atuou como primeira vice-presidente e ocupou vários cargos na diretoria da Amide, foi testemunha desses processos. "Maria Ignez era muito respeitada por todas nós na faculdade, não só pela idade, mas pela forma elegante e educada com que lidava com as questões. A maioria da turma oscilava entre 18 e 20 anos, éramos muito imaturas, mas acreditamos na sua proposta, na sua visão e capacidade de mediar conflitos. Lembro das reuniões realizadas na casa dela, do dr. Gilberto nos explicando todos os passos legais para o registro da associação. Fomos nos organizando como uma equipe, ela com a sabedoria, a gente com o entusiasmo da juventude", pontua. Alba Coelho, outra colega da época, ressalta a admiração que todos nutriam por ela. "Cativou a todos porque sabia ouvir, foi a mão que nos conduziu no sentido de valorizar a decoração e a importância da profissão", pontua.
Repercussão
Com o tempo, a Amide ganhou fôlego e repercutiu nacionalmente por meio das ações que promovia. "A diretoria era muito dedicada e convidamos nomes de fora para participar dos nossos eventos, gente de São Paulo, Rio de Janeiro, do norte e nordeste, como Jorge Elias, João Armentano, Davi Bastos, o que gerou boas trocas. Passamos a ser chamadas para participar dos eventos deles", explica Maria Ignez. Entre os projetos, o Encontro de Decoradores de Nível Superior, que acontecia anualmente, com programação variada, virou referência. Tudo isto despertou a cobertura das revistas brasileiras especializadas em arquitetura e decoração, que começaram a publicar trabalhos dos profissionais mineiros.
Quem acompanha a trajetória do setor se recorda dos congressos nacionais promovidos em Tiradentes, que se tornaram memoráveis pelas personalidades que envolviam. Perspicaz, Maria Ignez enxergou o potencial da cidade, que dava os primeiros passos como roteiro turístico. Pegou sua bolsa, como sempre fazia quando tinha de resolver algum problema, e foi conversar com o prefeito para buscar apoio. Quando George Norman Kutova criou a Unilar, primeira feira de decoração e utilidades domésticas de BH, a Amide estava lá como parceira incondicional, enquanto o evento existiu.
Em uma época em que não havia internet, a associação funcionou como um canal eficiente para a atualização dos associados e para a comunidade do design de interiores em geral. Por meio dos informativos mensais, é possível verificar a variedade de cursos, palestras e workshops realizados com sua chancela. Os temas destacavam desde a importância das cores na decoração, iluminação, tapetes, adornos, tecidos, prata, arte em geral, relacionamento entre lojistas e decoradores, arquitetura, interior, instalações comerciais, até lançamentos de produtos.
"No lançamento do drywall, por exemplo, a Amide construiu um apartamento direcionado para para pessoas com paralisia cerebral, no Ponteio Lar Shopping, utilizando as paredes de gesso como suporte. Outros assuntos sempre abordados eram o papel social da decoração e a democratização dos espaços a partir do olhar dos profissionais", ela relata.
Os informativos traziam entrevistas com artistas de todas as áreas, que faziam parte da cadeia produtiva do segmento. A interação com lojistas e fornecedores foi outro ponto para o sucesso. "Para completar, arquitetos reconhecidos, como Gustavo Penna, Fernando Graça, Éolo Maia, também se sentiram acolhidos, participando ativamente da Amide", ressalta Maria Ignez, que continua ativa, atendendo clientes fiéis.
Foi com tristeza que viu a associação a qual se dedicou tanto, uma bandeira na sua vida, encerrar suas atividades após 30 anos de existência. Sob a presidência de Laura Rabe, as dificuldades econômicas se avolumaram e até a sala onde funcionava precisou ser vendida para pagar as contas. "Chegamos a ter 800 associados. Convivi com altos e baixos e muitos egos nas minhas gestões, mas sempre olhei para frente. Nunca fiz nada visando glória pessoal", afirma.
“Não via muitas chances de buscar conhecimentos depois que a gente se formasse, assim como de ter nosso trabalho reconhecido”
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Coutinho Fonseca,
decoradora
