A linha atravessa o tempo. Costura memórias, remenda silêncios, inventa futuros. Em Belo Horizonte, ela ganha corpo, cor e presença na Quermesse da Mary – Edição Bordada, que acontece entre esta sexta-feira (12) e domingo (14), reunindo artistas de diferentes lugares em torno de um gesto comum: o fazer manual como linguagem e resistência.

Idealizadora e curadora do evento, a designer Mary Arantes traduz o espírito da edição como um retorno ao essencial. “O bordado nunca desapareceu, ele ganhou outra camada de valor. O novo luxo passou a ser o feito à mão”, afirma. Para ela, há uma mudança silenciosa em curso — uma espécie de desaceleração necessária diante de um mundo que produz em excesso e descarta com pressa.

“As peças feitas à mão nascem como resposta à vida moderna, à obsolescência programada. Quando escolhemos o que dura, escolhemos também outro ritmo de vida.”

Mary fala de um tempo em que mulheres guardavam pequenos universos em caixas de costura — linhas, botões, restos de tecido, memórias. Hoje, esses fragmentos voltam ressignificados, transformados em obras que carregam histórias. “Mudou o foco, mudaram as mulheres. Em comum, permanece o uso de sobras para construir memória”, diz. O bordado deixa de ser apenas técnica e passa a ser narrativa.

A proposta é aproximar criadores e público em uma experiência sensível. “Precisamos reinventar o tempo de sonhar, bordar e costurar. O feito à mão nos lembra que nem tudo precisa ser rápido para fazer sentido.” Na marca de três anos do projeto, novos talentos dividem espaço com nomes consagrados, ampliando o diálogo entre percursos e territórios.

Saber ancestral

Na lista, a parceria entre o Instituto Renato Imbroisi (IRI) e a Absolutamente Necessaire, um encontro entre lugares e linguagens, unindo o saber artesanal do sul de Minas à pulsação urbana de São Paulo. Sob a batuta de Renato Imbroisi e Cris Pereira Barretto, peças bordadas pelas artesãs do Muquém ganham forma a partir dos desenhos de Mônica Maciel, que traduzem o cotidiano rural e as paisagens da Serra da Mantiqueira.

Instituto Renato Imbroisi, Absolutamente Necessaire e Tati Polo

Quermesse da Mary/Divulgação

Tati Polo apresenta obras que transitam entre culturas e saberes - o têxtil se torna forma de leitura do mundo e reorganização da memória, com cores naturais e manualidades que evocam silêncio e ancestralidade. Douglas Tavares, à frente da 1985 d.D., encontra no bordado uma forma de expressão que mistura moda e cultura brasileira, criando flâmulas e peças autorais atravessadas por referências diversas. 

Nas criações da A Semente Viva, o bordado ganha dimensão educativa e afetiva, com bonecas que narram o ciclo da vida e promovem cuidado e consciência ambiental. Com a Borda do Céu, a artista Luísa Lacerda transforma aves em poesia têxtil, fazendo nascer painéis que falam de liberdade e da urgência ambiental, com fios que parecem escorrer como o tempo.

Borda do Céu e Bordadeiras de Burnier

Quermesse da Mary/Divulgação

As Bordadeiras de Miguel Burnier trazem um trabalho profundamente enraizado no território, em que o bordado é também ferramenta de autonomia, escuta e pertencimento. Peças repletas de paisagens, histórias e afetos de um distrito que resiste entre montanhas e memórias. A Crocherie surge do legado familiar, entrelaçando técnicas como crochê, tricô e costura em objetos que celebram cor e continuidade.

Tempo devagar

O estilista Douglas Carlos apresenta sua moda lenta, feita de reencontros. Em seu ateliê, peças garimpadas em brechós e bazares ganham novos significados por meio de bordados discretos e intervenções delicadas. Linho, algodão e o tempo necessário para criar transformam roupas do passado em itens que desafiam a velocidade do consumo contemporâneo.

Desde 2014, Bianca Poppi utiliza o bordado como voz. Sobre roupas garimpadas, frases bordadas à mão transformam tecidos em manifestos delicados, mensagens que falam de sustentabilidade, sensibilidade e da possibilidade de uma moda que não apenas veste, mas também comunica.

A bordadeira Heloisa Mota leva para a Quermesse uma história costurada por gerações. Foi com a mãe e a avó que aprendeu os primeiros pontos, tradição que mais tarde se transformaria na marca Trem Bonito. Seus colares evocam abrigo e pertencimento. Fios coloridos, miçangas e paetês se entrelaçam para criar pequenas moradas simbólicas, feitas para repousar sobre o colo.

As peças da Trapo Insano revelam o universo exuberante de Márcia Motta. A artista produz colares, broches e bolsas repletos de botões antigos, rendas, contas e pequenos fragmentos resgatados do esquecimento. Aquilo que parecia sem importância renasce em vida nova.

Heloisa Mota e Trapo Insano

Quermesse da Mary/Divulgação

A designer uruguaia Valeria Ferré, da Valezero, apresenta uma moda construída a partir do desperdício evitado. Utilizando técnicas de upcycling e modelagens de desperdício zero, ela faz de retalhos e materiais descartados roupas de formas geométricas e texturas surpreendentes.

Rosa Borda e Valezero

Quermesse da Mary/Divulgação

Artistas do Bairro e Bordados de Ouro

Quermesse da Mary/Divulgação

Representando o projeto Artistas do Bairro, Maria da Conceição de Paula traz bordados que retratam o cotidiano da região de Tiradentes. Jardins floridos, mulheres da roça, ruas sinuosas e frases poéticas surgem em toalhas, almofadas e lenços coloridos.

A Bordados de Ouro imprime em suas concepções a delicadeza de uma tradição transmitida entre gerações. Entre fios coloridos e desenhos que parecem emergir da alma, a chamada “pintura de agulha” une técnica e sensibilidade, enquanto preserva saberes ancestrais e cria oportunidades para mulheres que encontraram no bordado não apenas uma fonte de renda, mas um espaço de pertencimento.

Crocherie e Dila Vaz Bordados

Quermesse da Mary/Divulgação

A Dila Vaz Bordados mantém vivo o saber herdado de mãe para filhas, transformando o cotidiano em delicadeza artesanal. Eduardo Cunha Castanheira rompe com a técnica tradicional e aposta em uma abordagem pictórica, em que o bordado se aproxima da pintura e da abstração.

Colorindo com linhas

Quermesse da Mary/Divulgação

Pincel da história

Na obra de Gaby de Aragão, a linha vira pincel e memória - resgata cenas de infância e afetos cotidianos em séries que dialogam com o imaginário popular. Isabela Emiliano borda sobre folhas secas, criando paisagens que misturam natureza e arquitetura, enquanto Leonardo Longati Nunes, da Folhando Momentos, usa folhas como suporte para costurar reminiscências familiares em obras delicadas e orgânicas.

Eduardo Castanheira e Gaby de Aragão

Quermesse da Mary/Divulgação

Isabela Emiliano e Folhando Momentos

Quermesse da Mary/Divulgação

A LINDAAAH!, de Cynthia Paulino, é um universo à parte — um caldeirão de referências que mistura magia, teatro, espiritualidade e poesia em bordados talismânicos. Cada item parece detentor de um segredo. Marcela Ghirardelli, com suas miniaturas e miudezas bordadas, constrói pequenas narrativas cheias de humor e sensibilidade.

Lindaaah! e Marcela Ghirardelli

Quermesse da Mary/Divulgação

Meninas de Sinhá e Torchon

Quermesse da Mary/Divulgação

O grupo Meninas de Sinhá mostra a força da cultura popular e da convivência, reunindo mulheres que transformam vivências em arte, música e cuidado. A Rosa Borda traduz a natureza em acessórios delicados - pontos que parecem respirar o ritmo das flores e dos ciclos naturais. A Torchon, de Alba Coelho, faze de panos cotidianos elementos cheios de significado, entre Minas e Paris, para vestir a casa.

Entre cores e sabores

A ala gastronômica da Quermesse Bordada é um percurso sensorial onde tradição e reinvenção caminham lado a lado. A Aparesidra chega como um sopro de frescor contemporâneo. Distante da imagem adocicada que por muito tempo definiu a sidra no imaginário popular, a marca mineira aposta em uma bebida artesanal, inspirada no estilo inglês, que valoriza a pureza da maçã e o rigor do processo.

Também movida por propósito, a Cafem ressignifica o café em uma narrativa feminina. As irmãs Laura e Luiza celebram o reencontro com as próprias raízes, junto à vontade de dar visibilidade a mulheres produtoras. O resultado é um café que se posiciona como gesto político — delicado, mas firme.

Cafem e Aparesidra

Quermesse da Mary/Divulgação

Na Dama de Empadas, o clássico ganha nova leitura sem perder o aconchego. A aposta é na produção artesanal e no cuidado minucioso para transformar um salgado cotidiano em experiência. Cada empada carrega o gesto de quem cozinha com intenção.

É também o afeto que move a Dedé Pães Artesanais, de André Gabrich. Os pães de fermentação natural, feitos em pequena escala, respeitam o tempo e a matéria-prima. Entre croissants, brioches e fornadas semanais, há sempre a sensação de algo vivo, em constante transformação.

Dama de Empadas e Dedé Pães Artesanais

Quermesse da Mary/Divulgação

Na doçura da Dona Torta, memória e invenção caminham juntas. Criada por Dudu Pônzio durante a pandemia, a marca lança mão de receitas de família para conceber sobremesas que abraçam. De sabores clássicos a combinações mais ousadas, o passado encontra o presente em cada mordida.

A Julieta Biscoito explora uma simplicidade que emociona. Idealizada por Ana Laura Faria, transforma lembranças em pequenos gestos comestíveis. Os biscoitos, feitos à mão, evocam combinações clássicas, como queijo e goiabada, ao mesmo tempo em que dialogam com uma estética contemporânea.

Dona Torta e Julieta Biscoitos

Quermesse da Mary/Divulgação

Na Mantiqueira Bela, cozinhar é um ato coletivo. Gerações que se reúnem em torno de receitas que atravessaram o tempo, misturando influências mineiras, italianas e portuguesas. Ingredientes selecionados, produção artesanal e práticas sustentáveis formam a base de um trabalho que valoriza tanto o sabor quanto o impacto.

A Polvilha, por sua vez, parte de um ícone para reinventar. O pão de queijo aparece em releitura no bolo de pão de queijo, crocante por fora e macio por dentro. Entre versões que vão do tradicional ao doce, a proposta é brincar com o familiar e provocar o paladar.

Mantiqueira Bela e Polvilha

Quermesse da Mary/Divulgação

Na Prata da Marieta, o tempo é ingrediente essencial. Produzidos em Ravena, os doces carregam mais de um século de história familiar no cultivo da banana. Preparados no fogão a lenha e sem agrotóxicos, os bombons revelam uma doçura profunda, construída lentamente.

O Queijo Juá traz consigo a força da tradição do Serro. Produzido por gerações da mesma família, o queijo artesanal respeita processos seculares, desde o uso do leite cru até a maturação cuidadosa. O resultado é uma peça viva, de casca firme e interior macio, cujo sabor evolui com o tempo.

Prata da Marieta e Queijo Juá

Quermesse da Mary/Divulgação

O Empório Acarajeca, de Casa Branca, em Brumadinho, nasceu da vontade de unir Minas e Bahia à mesa. O resultado é um cardápio que mistura tradições, sabores e histórias. O acarajé é ponto de partida para uma narrativa culinária construída com peixes, frutos do mar e muita memória afetiva.

Das encostas da Serra do Rola-Moça vêm os aromas da Especiarias Casa Branca. Os temperos artesanais criados por Virgínia Trivelatto, partem de receitas de família, ervas cultivadas no próprio sítio e nomes inspirados na paisagem mineira. São produtos que parecem guardar dentro dos potes um pouco da serra, das flores e do tempo desacelerado do interior.

Empório Acarajeca e Especiarias Casa Branca

Quermesse da Mary/Divulgação

A Serra Negra Doces reafirma a potência da doçaria mineira. Com seu doce de leite marcante, aposta naquilo que Minas tem de mais reconhecível. Em meio à diversidade do evento, é um ponto de retorno: um sabor que acolhe, sempre capaz de surpreender.

Na confeitaria de Sá Marina, o bordado deixa a linha e encontra o chocolate. Suas criações traduzem para a gastronomia a delicadeza dos trabalhos manuais, transformando doces em obras efêmeras que podem ser admiradas e degustadas. Uma arte que se dissolve na boca sem perder a força de sua mensagem.

Ao final, o que se vê é um território sensível onde o tempo desacelera. Onde cada ponto é gesto, cada fio é memória e cada peça, um convite - a olhar com mais calma, tocar com mais atenção e, sobretudo, lembrar que há beleza no que é feito devagar.

Sá Marina e Serra Negra Doces

Quermesse da Mary/Divulgação

Expositores 

1985 d.D. /@1985dd_

A Semente Viva/@asementeviva

Absolutamente Necessaire/@absolutamentenecessaire

Artistas do Bairro/@artistasdobairro

Borda do Céu/ @borda.do.ceu

Bordadeiras de Burnier/@bordadeirasdeburnier

Bordados de Ouro/ @deourobordados

Coletivo Bordado: @douglascarlosmodalenta/@_apoppi/@coloridocomlinhas
Crocherie/@crocheri.e

Dila Vaz Bordados/@dila.vazbordados

Eduardo Cunha Castanheira/@eduardocunhacastanheira

Gaby de Aragão/@gaby_de_aragao

Heloisa Mota/@trembonito_heloisa

IRI (Instituto Renato Imbroisi) @institutorenatoimbroisi

Isabela Emiliano/@_isabelaemiliano

Folhando Momentos/@folhando_momentos

Lindaaah!/ @lindaaah

Marcela Ghirardelli/@marcelaghirardelli

Meninas de Sinhá/ @meninasdesinha

Rosa Borda/@_rosaborda

Tati Polo/@polo.tati

Torchon/ @torchon_bh

Trapo Insano/@trapoinsano_mmarciamotta

Valezero/ @valezero_


Gastronomia

ApareSidra Hard Cider/ @aparesidra_dard_cider

Cafem/@cafembrasil

Dama de Empadas/@damadeempadas

Dédé Pães Artesanais/dede.paes.artesanais

Dona Torta/@donatortabh

Empório Acarajeca/ @emporioacarajeca

Especiarias Casa Branca/ @especiariascasabranca

Julieta Biscoito/ @julietabiscoito

Mantiqueira Bela/ @mantiqueirabela

Sá Marina/ @samarina.br/ Marina Mendes/ presente na abertura do evento

Polvilha/@polvilha.bh

Pratas da Marieta/@pratdamarieta

Queijo Juá/@serro.queijojua

Serra Negra Doces/@serranegradoces


Quermesse da Mary| Edição Bordada
Curadoria Mary Arantes

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12,13 e 14 de junho
Sexta e sábado, de 10h às 19h
Domingo, de 10h às 17h
Rua Ivaí 25, Serra
Entrada gratuita
Evento Pet friendly

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