O alicerce da moda mineira é formado por pessoas visionárias, responsáveis por criar a cultura fashion de Belo Horizonte. Personagens de primeira hora como Sheila Emrich dos Mares Guia, que, com a marca Allegra, fez parte do lendário Grupo Mineiro de Moda, mas foi muito além: deixou uma lição de empreendedorismo feminino nas áreas da criação e do varejo, uma verdadeira aula para as novas gerações.
Nascida no Rio de Janeiro, Sheila veio para Minas Gerais acompanhando a família – o pai era diretor de uma siderúrgica em Barão de Cocais. Em Belo Horizonte, chamava a atenção pela beleza e simpatia, o que lhe rendeu o título de Glamour Girl no evento encabeçado pelo colunista Eduardo Couri.
Mas a carreira na moda começa quando já era casada com o empresário e educador Walfrido dos Mares Guia, com o qual teve os dois filhos, Érika e Leonardo, que, por sua vez, lhe deram cinco netos. Quem relembra a história é a estilista Helen de Carvalho, fundadora da Bárbara Bela e sócia de Sheila, por algum tempo, na Allegra. “Ela tinha uma confecção chamada Poli Kalo e veio até a minha loja, na rua Tomé de Souza, com o objetivo de me vender algumas peças da coleção. Foi uma união de almas, passamos a tarde conversando e nos tornamos grandes amigas”.
Um ano após, quando Helen resolveu lançar outra marca, a convidou para uma sociedade. “Ela aceitou na hora e, no dia seguinte, já chegou perguntando o que tinha de fazer. A Allegra tinha a “cara” da Sheila, era chique, elegante e contemporânea. Mas como o negócio cresceu e eu era responsável pelo estilo e pela modelagem das duas empresas, tive que optar pela Bárbara Bela”. O estilista Conrado Segreto, que fazia sucesso na moda, e a editora Regina Guerreiro também passaram pelo estilismo da Allegra, segundo Helen se lembra.
Esse período coincide com a gestação de Érika dos Mares Guia, a filha que se identificou, precocemente, com o ofício da mãe, dando início a uma parceria profícua, materializada atualmente, pela CJ Mares, que tem lojas em Belo Horizonte e São Paulo. “Eu me sinto abençoada por ter tido minha mãe como exemplo, guia, tutora, fonte de inspiração, sócia e melhor amiga. Foi quem me deu asas para voar, me ensinou a desbravar o mundo, dos anos 1980 em diante, um mundo não digital. Era necessário ter faro, olhar apurado, descobrir as coisas em lugares menos óbvios e fazer uma curadoria. Tive, com ela, a oportunidade de aprender a fazer, e não a ter”, ressalta.
Ressaltando o caráter empreendedor de Sheila, Érika revela que isto se mostrou desde o seu início na moda. “A Poli Kalo (que em grego significa “tudo bem”) nasceu com o desejo da mamãe e da Maria Clara Luciano de abrirem uma confecção feminina de qualidade. Não era comum mulheres empreenderem naquela época. Minha mãe pediu um empréstimo no banco, correndo o risco de o negócio não dar certo. Posso garantir que não foi sorte”.
Mirando nesse espelho, aos 16 anos, começou um estágio na Allegra. Através das lentes de Sheila, absorveu uma estética refinada, o que de fato é a elegância. “Na definição dela, isto tem a ver com o jeito de ser e de ver a vida e o outro, mais do que a roupa em si”, enfatiza.
Em família
Lelete dos Mares Guia Farkasvolgyi é outra que sabe falar profundamente sobre a trajetória da cunhada. Além da ligação familiar, veio a profissional, que durou mais de três décadas. “Ela era humana, tinha uma simplicidade encantadora, tratava as pessoas muito bem, preocupava-se com os seus funcionários”, salienta.
Aos 40 anos, estudante de história na universidade, sugeriu à Sheila que lhe repassasse as peças que sobravam na mudança de coleção para vender para colegas e amigas, na sua casa. “Deu muito certo. A Allegra estava crescendo, Érika tinha lançado a Emrich, e ela me convidou para ajudá-la na loja da marca, na galeria BHZ. E, a partir daí, estabelecemos essa parceria duradoura”.
Com a finalização do Grupo Mineiro de Moda, a próxima empreitada de Sheila foi a abertura da Porto e Guia, uma multimarca em sociedade com Roberta Porto Gonçalves, que revolucionou o comércio de Belo Horizonte. Depois da separação das sócias, iniciou-se uma nova e próspera era nos negócios, agora capitaneados por mãe e filha. A M&Guia chegou com foco em marcas internacionais poderosas, território que Érika já vinha desvendando com sucesso.
“Nessa época, passei a viajar com as duas e participar da escolha das coleções”, relata Lelete. Apesar da sua dedicação à gerência, ela menciona a presença constante da cunhada por lá. “Sheila estava presente todos os dias, subia e descia escada com cabides, marcava uma barra, se necessário. Gostava de trabalhar, a loja era sua alegria”, pontua.
Entre as palavras que definem a personalidade da empresária, generosidade e elegância são denominadores comuns. Estão na boca de Phillip Martins, por exemplo, que passou pela casa e cuja experiência foi importante para alçar voos maiores. Hoje superintendente de relações-públicas do Fasano JHSF, trabalhou no marketing da Mares por cinco anos. “Dona Sheila era uma pessoa transparente, verdadeira e confiava a nós, funcionários, informações sensíveis e não sensíveis, o que nos fazia sentir em família. Para mim, sempre foi uma referência de ética, respeito e idoneidade, além da sua grande generosidade”.
A opinião é compartilhada pelos colegas do Grupo Mineiro de Moda, que ela fazia questão de manter por perto. “Nós convivemos com muita proximidade naquela época”, diz Liana Fernandes. “Havia as reuniões, as viagens, os desfiles. Depois que nossos encontros ficaram mais raros, Sheila nos recebia no seu sítio, em Santo Antônio do Leite. Estivemos juntos, inclusive, na comemoração do seu aniversário de 75 anos, dois anos atrás”.
O estilista Renato Loureiro também é pródigo em palavras carinhosas para a amiga “delicada e querida”. “Sua partida me deixa muito triste. Fará falta para todos nós que gostamos tanto dela”, reitera.
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Fora do circuito fashion, a consternação também está no coração de Leila Neiva, mulher de Evando Neiva, sócio de Walfrido desde a fundação do cursinho pré-vestibular Pitágoras. “Fui ao casamento dela, ela foi no meu, vi seus filhos crescerem, acompanhei de perto sua vida e posso falar de uma mulher gentil, generosa e acolhedora, uma verdadeira guerreira. O bom gosto de Sheila não estava só na moda, mas em tudo, era uma dona de casa impecável”, enfatiza. Para Denise Resende, ela foi uma amiga especial, “daquelas que deixam marcas profundas na vida da gente. Tinha uma luz própria, generosa, humana, presente nos pequenos gestos e sincera no carinho. Vai fazer falta”, garante.
