A moda brasileira já viveu bons dias no mercado internacional. No auge dos movimentos da década de 1990, entre eles a São Paulo Fashion Week e a criação da Associação Brasileira dos Estilistas (Abest), várias marcas se arriscaram a empreender na Europa e nos Estados Unidos, além de marcarem presença na agenda de desfiles de importantes semanas de moda.

Liana Atelier

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Pouco a pouco, as contingências econômicas e o desequilíbrio entre o mercado interno e externo desencorajaram os empreendimentos no exterior e esse avanço arrefeceu. O que não significa que os produtos de moda feitos no país não tenham presença lá fora, seja por meio de agências de incentivo à exportação, de feiras ou de voos solos de algumas marcas.


O que sempre se soube é que a prosperidade de negócios do lado de cima da linha do Equador exige muito conhecimento e perseverança. Que o diga Renato Pagani, que mora em Nova York e vem desbravando esse território há 11 anos. À coragem de empreender se soma um passado repleto de experiências enriquecedoras: filho de pais donos de lojas de sapatos e roupas em Governador Valadares e Teófilo Otoni, aos 22 anos, foi estudar moda na Paris American Academy, em Paris.

Arízio Melo

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Produtor de moda em Belo Horizonte, atuou na área de figurinos da Rede Globo, no Rio de Janeiro, durante três anos e depois se tornou consultor de moda da Via Flores, loja hypada na capital carioca, por mais 11 anos. Com uma carreira consolidada no Brasil, pintou aquele desejo do “algo mais”, que o fez buscar um curso de branding, na Parsons School of Design, nos Estados Unidos.


Nessa mais de uma década no país, Renato trabalhou com representações importantes, como a do grupo Restoque, detentora da Rosa Chá, John John, Le Lis Blanc. E está à frente da comercialização da carioca Lenny, que tem ótima aceitação por lá.


Agora, o mineiro está apostando em um novo projeto, que começou a ser pensado em 2019, foi gerado durante a pandemia e já está redondinho. Em uma extensão do que já vem fazendo, criou a Anda Strategy, cujo objetivo é levantar produtos autorais brasileiros com propostas originais para lançar no mercado estadunidense, criando estratégias especiais para cada um deles de forma que possam andar para o mundo. Daí o nome Anda.


“E a isto não se aplica só às roupas, mas a outras criações que se enquadram no perfil, como a premiada Alva Design, de Belo Horizonte, que produz movelaria e cerâmicas maravilhosas”, explica Pagani. Pragmático, ele introjetou a essência da sua cultura capitalista do país, onde as pessoas, segundo ele, se recompensam gastando dinheiro.


“Tudo que você nem imagina que existe, já existe nos Estados Unidos. O que é necessário é entender o business daqui, que vai além de um produto bonito. Em compensação, o norte-americano é ávido por novidades, pela origem e história dos produtos. Isto vale muito e é assim que vamos trabalhar no mercado internacional”, pontua.


Na área do vestuário, a Liana Atelier é outra convidada da Anda. As peças criadas pela estilista Liana Fernandes são autorais, minimalistas e com edições limitadas. “É uma marca especial, slow fashion, com uma pegada artesanal, um trabalho que é muito valorizado aqui”.


Curadoria

Para auxiliá-lo nesse garimpo, ele convidou outro mineiro, o também experiente Arízio Melo. “Precisava de uma pessoa que me conhecesse para ajudar nessa tarefa, um olho para fazer com que o projeto ecoe no Brasil”, afirma Renato. Nascido em uma família de costureiras e bordadeiras de Esmeraldas, Arízio herdou o lado estético dos seus antepassados.


Entre o comercial e o marketing, começou nos anos 1980, mais exatamente no escritório de representação de Mariângela Cançado, ao mesmo tempo em que trabalhava em um banco para custear a faculdade de economia. No meio do curso, viu que ofício não tinha nada a ver com ele, largou a faculdade e foi fazer o que gostava.


O batismo oficial se deu quando apresentou a Fiorucci à Nice Lima e se juntou a ela para alavancar a franquia em Belo Horizonte. “De lá, conheci Martielo Toledo, que desejava montar uma marca arrojada e fui cofundador da Salve Rainha. Isso me abriu portas para o trabalho em outras empresas, como Fourteen, Urban Cave e Carmim, na qual substituí Martielo como agente de negócios de moda em Belo Horizonte”, relembra.


Entre outras empreitadas, assumiu a diretoria de comunicação de grifes relevantes, entre elas Coven, Printing e, mais recentemente, Lucas Magalhães. No meio desse caminho, produziu desfiles, editoriais e ações importantes no mercado mineiro. São mais de 40 anos de carreira no setor, segundo ele, com o mesmo entusiasmo, garra e energia.


“Fiquei muito feliz com a proposta do Renato Pagani e pela oportunidade de aplicar os meus conhecimentos nesse projeto”, ele diz. A ideia é captar marcas alinhadas com a moda, novos produtos, novos talentos, levar esse trabalho para fora e gerar negócios. Entre os nomes elencados, ele cita o designer de bijoux Carlos Penna e Lucas Magalhães, que faz sucesso com os pijamas da Cansei. “A moda mineira e brasileira oferece um vasto campo para minha curadoria”, garante Arízio. 

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