Campeão da Copa do Mundo de 2018 com a França, ídolo histórico do Olympique de Marselha-FRA e dono de uma carreira consolidada no futebol europeu, o goleiro Steve Mandanda revelou ter vivido um profundo vazio emocional após a aposentadoria.
Longe dos gramados desde setembro de 2025, quando encerrou oficialmente a carreira aos 40 anos, o ex-arqueiro decidiu expor publicamente a dificuldade de lidar com o fim da carreira no futebol. O relato faz parte do livro Les jours daprès (Os dias seguintes), que será lançado nesta quarta-feira (13/5), na França.
Trechos da obra, antecipados pelo jornal francês LÉquipe, mostram um Mandanda extremamente vulnerável, perdido e emocionalmente abalado pela ruptura brusca com a rotina que viveu durante praticamente 25 anos seguidos.
O ex-jogador descreve uma sensação constante de vazio, falta de energia e ausência completa de propósito após o fim da carreira.
Há algumas semanas, quase nada tem gosto. É julho, estou sozinho, faz calor, a janela entreaberta, Rennes no auge do verão. Oscilo como um pêndulo. Meus dias são intermináveis e vazios. Vazios de energia. Vazios de sentido.
Em outro trecho, Mandanda aprofunda ainda mais o desabafo e relata o impacto psicológico causado pelo afastamento definitivo do ambiente do futebol.
Estou desempregado, deitado no meu sofá sem nem saber o que espero, sem saber o que quero. Sem vontade de nada.
O relato mais forte, porém, é justamente aquele em que o francês admite não conseguir mais encontrar prazer na própria vida após pendurar as chuteiras.
Eu não gosto de nada da minha vida, agora. Acho que estou infeliz. Pelo menos, perdido. Não tenho mais referência. Não tenho mais minhas duas traves nem o jogo na minha frente. Não tenho mais o vestiário, a braçadeira, os olhares, as palavras, as piadas, os companheiros, nossos cafés, as conversas, as concentrações, os aviões, os treinos específicos, o vídeo, os intervalos, os passes precisos.
Vazio depois do futebol
O depoimento de Mandanda escancara uma realidade silenciosa, mas comum entre atletas de alto rendimento: a dificuldade de reconstruir a própria identidade depois da aposentadoria.
No caso do francês, o choque parece ter sido ainda maior justamente pela dimensão da carreira construída. Durante décadas, sua vida esteve completamente organizada em torno do futebol: horários, treinos, viagens, vestiário, pressão, competição e convivência diária.
Mandanda relata, inclusive, que chegou a buscar ajuda em conversas com antigos companheiros. Um deles foi o lateral-esquerdo Patrice Evra, que também teria compartilhado experiências semelhantes após deixar o futebol.
Outro apoio importante citado pelo ex-goleiro foi Guillaume Hoarau, que o aconselhou a criar pequenas metas e estabelecer uma rotina mínima para combater a solidão e o vazio.
O francês revelou ainda que ganhou peso no período pós-carreira e passou dias inteiros praticamente sem conseguir encontrar motivação para sair de casa.
Ídolo histórico do Marseille
Mandanda encerrou a carreira como um dos maiores goleiros da história recente do futebol francês. Pelo Olympique de Marseille, tornou-se recordista absoluto de partidas disputadas: foram 613 jogos ao longo de 14 temporadas pelo clube.
Além disso, construiu trajetória importante com a Seleção Francesa, integrando o elenco campeão da Copa do Mundo de 2018 e acumulando 35 partidas pela equipe nacional, além de ter feito parte dos elencos dos Mundiais de 2010 e 2022.
Aceitar que acabou
Apesar do peso emocional presente em grande parte do livro, Mandanda afirma que, aos poucos, começou a compreender melhor o processo de aposentadoria.
O ex-goleiro reconhece que ainda sente falta da vida em grupo e do ambiente do futebol, mas diz que passou a enxergar os dias seguintes de forma menos dolorosa.
É aceitar de vez que acabou e encarar esse vazio que o futebol deixa quando acaba, sem afundar por causa disso. É lembrar das coisas boas.
O relato do francês chama atenção justamente por humanizar um tema muitas vezes ignorado no esporte: o impacto psicológico que o fim da carreira pode causar até mesmo em atletas extremamente vitoriosos, admirados e financeiramente estáveis.
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A notícia Campeão do mundo desabafa sobre aposentadoria: ‘Não gosto de nada na minha vida’ foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo
