Vice-campeão mundial desabafa sobre saúde mental: ‘Robôs não funcionam para sempre’ (Van der Wiel tomou cartão amarelo na final da Copa de 2010)

A final da Copa do Mundo de 2010, entre Holanda e Espanha, é lembrada pelo gol de Andrés Iniesta na prorrogação e pelo título espanhol. Para Gregory van der Wiel, ex-lateral-direito da seleção holandesa, porém, aquele jogo guarda um significado bem diferente e muito mais profundo.

Titular da Holanda na decisão, o ex-jogador revelou que viveu aquele momento histórico completamente desconectado emocionalmente.

Sensações na final da Copa

Em um desabafo nas redes sociais, ele descreveu com precisão quase mecânica o que recorda e, principalmente, o que não conseguiu sentir.

Eu me lembro do túnel antes da final da Copa de 2010. Tinha 22 anos, era o mais jovem em campo. Lembro do cheiro da grama e da borracha das travas no concreto. Do hino da Espanha começando antes do nosso. Do momento exato em que a fila começou a andar. O que eu não lembro é de sentir qualquer coisa. Nem orgulho, nem nervosismo, nem o peso do momento. Eu fazia isso desde os sete anos, transformando sentimento em execução. O maior jogo da minha vida, e o sistema estava funcionando automaticamente.

A reflexão se estende para além da memória daquele dia. Van der Wiel faz uma conexão direta entre essa automatização e as consequências que surgiram anos depois.

O custo disso não foi em 2010. O custo veio dez anos depois, em 2020, quando eu estava em uma cama de hospital, com todos os exames normais, sem conseguir atravessar minha própria sala. Robôs não funcionam para sempre. Eles só parecem funcionar até que param.

Sucesso por fora, vazio por dentro

A fala do ex-atleta dialoga diretamente com outro relato feito por Van der Wiel meses antes, no qual ele abriu ainda mais o jogo sobre sua saúde mental durante a carreira.

Em fevereiro de 2026, também via redes sociais, ele relatou sofrer com ataques de pânico, depressão e outros sentimentos negativos que o acompanharam por toda a carreira, ainda que nos momentos de sucesso esportivo.

Sabem o que é estranho? Ganhei 16 troféus, mas me sentia completamente sozinho. Estava rodeado de jogadores de classe mundial. Todos festejavam. Um dançava, outro cantava. Mas eu sentia que estava observando de fora, como se não fizesse parte.

O contraste entre conquistas e maus sentimentos centraliza a narrativa do ex-jogador. Mesmo inserido no esporte de alto nível, cercado por estrelas e títulos, ele descreve uma desconexão persistente.

Não sentia emoção, nem alegria, nem tristeza, nada. Estava completamente desligado. Apenas funcionava como um robô.

Van der Wiel dribla Sergio Busquets na final da Copa - (foto: AFP PHOTO / CHRISTOPHE SIMON)
Van der Wiel dribla Sergio Busquets na final da Copa(foto: AFP PHOTO / CHRISTOPHE SIMON)

‘Máscara’ que escondia tudo

Segundo Van der Wiel, esse cenário foi sustentado por anos através de um mecanismo de defesa que se mostrava mediante uma postura forjada para esconder fragilidades.

Eu usava a máscara do nada me importa. E usava tão bem que ninguém percebeu que eu estava me afogando. Nem a minha família, nem os meus colegas de equipe, nem sequer eu, para ser honesto.

A frase revela um ponto sensível do futebol profissional: a dificuldade de lidar com vulnerabilidades em um ambiente que exige desempenho constante e raramente abre espaço para fragilidade emocional.

Em novembro de 2025, o ex-jogador Norberto, com passagens por América e Cruzeiro, fez um relato parecido e exclusivo ao No Ataque sobre a saúde mental no esporte de alto rendimento.

Na ocasião, o ex-jogador disse que foi diagnosticado com burnout, sofreu com crises de ansiedade e abriu o jogo em relação ao preconceito sofrido por atletas que buscam ajuda neste sentido.

Alerta para outros jogadores

Hoje, já afastado dos gramados, Van der Wiel tenta transformar a experiência em mensagem. Em suas publicações no Instagram, ele tem incentivado outros atletas a não ignorarem sinais semelhantes.

Se agora você está num vestiário e sente exatamente o mesmo, não significa que você é fraco, és apenas humano. Não carregue esse fardo sozinho. A máscara vai quebrar.

O ex-lateral também passou a compartilhar conteúdos sobre desenvolvimento pessoal e saúde mental, além de lançar um programa online, iniciativa que, apesar de críticas, reforça seu posicionamento público sobre o tema.

O caso de Van der Wiel escancara uma realidade cada vez mais discutida no esporte: o impacto psicológico da alta performance. Em um ambiente competitivo, exposto e muitas vezes pouco acolhedor, sentimentos são frequentemente suprimidos em prol do rendimento.

No relato do holandês, essa lógica aparece de forma clara: o jogador que funciona em campo pode, silenciosamente, estar se desconectando de si mesmo.

Van der Wiel e Xabi Alonso disputam lance na final da Copa - (foto: AFP PHOTO / FRANCK FIFE)
Van der Wiel e Xabi Alonso disputam lance na final da Copa (foto: AFP PHOTO / FRANCK FIFE)

Carreira de Gregory van der Wiel

Revelado pelo Ajax-HOL, Van der Wiel rapidamente se destacou no futebol europeu, sendo peça importante do clube holandês antes de se transferir para o Paris Saint-Germain-FRA, onde conquistou títulos nacionais e atuou ao lado de grandes nomes do futebol mundial.

Posteriormente, teve passagem pelo Fenerbahçe-TUR e também defendeu a seleção da Holanda por vários anos, sendo titular na campanha do vice-campeonato mundial em 2010.

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A notícia Vice-campeão mundial desabafa sobre saúde mental: ‘Robôs não funcionam para sempre’ foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo

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