O técnico Dorival Júnior, de 61 anos, deverá ser apresentado hoje pela CBF como novo técnico da Seleção Brasileira. Ele assume o time na expectativa de comandar o ciclo até a Copa do Mundo de 2026. A escolha do treinador recai, entre outros fatores, pelos dois últimos trabalhos de destaque no futebol nacional.
Ele assumiu o Flamengo em junho de 2022 e saiu em novembro após conquistar a Libertadores e a Copa do Brasil. No Rubro-Negro, foram 44 jogos e 66% de aproveitamento. Já pelo São Paulo, ano passado, comandou o time campeão da Copa do Brasil.
"Deixo o São Paulo, hoje, pronto para enfrentar os desafios da temporada. No rumo certo e com grandes pessoas e profissionais os guiando", escreveu Dorival nas redes sociais no último domingo. "Chegou a hora de encarar outro desafio, que também era um de meus sonhos, e peço que todos entendam minha decisão."
Dorival é muito querido pela maior parte dos atletas com quem trabalhou. Apesar do bom trato, foge daquele estilo "paizão". O treinador entende que o respeito se adquire com decisões justas e bom diálogo. A amizade não pode impedir as broncas quando necessárias.
Uma característica marcante da conduta de Dorival é evitar problemas em público. Ele mantém o discurso sereno, até nos momentos de maior turbulência. Outro traço de sua personalidade é ouvir os jogadores. Ele briga com os dirigentes para que o elenco saiba com clareza o que vai ocorrer, sem desvios.
O novo treinador da Seleção é autocrítico. Ele estende essa cobrança aos jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes. Ele vai exigir tranquilidade para trabalhar em meio a uma CBF desorganizada e em crise política. O caos afastou momentaneamente Ednaldo Rodrigues da presidência.
Ao ser convidado pela entidade, após a negativa do italiano de Carlo Ancelotti, que renovou com o Real Madrid, e a demissão do interino Fernando Diniz, o treinador brasileiro pediu paz para trabalhar e liberdade para escolher comissão técnica e diretoria.
Ednaldo deve descentralizar as decisões. Além das características ligadas ao futebol, Dorival é extremamente detalhista. Em 2015, ele se apresentou ao Santos e detectou que extintores do CT Rei Pelé estavam vencidos.
No campo
Dorival Júnior não tem um jeito preferido de jogar. Apesar de não ser fechado, ele gosta de comandar times rápidos, ofensivos e com posse de bola. A prioridade é ver equipes que marquem e defendam com a mesma atenção. Uma exceção é o Santos de Neymar "kamikaze" em 2010.
O treinador comandou um Flamengo protagonista e um São Paulo que adotava posturas diferentes. A ideia é sempre se adequar às características do seu time e dos rivais, como quando adaptou Gabigol e Pedro juntos no Rubro-Negro.
Ao que tudo indica, ele vai primeiro buscar esse equilíbrio na Seleção. A equipe começou mal nas Eliminatórias, mas depois ele deve soltar o time. A oportunidade de convocar os melhores anima e muito o comandante.
Sem esquema fixo
O São Paulo de Dorival Júnior alternava as formações. Ora com dois atacantes abertos, ora com dois meias ou o tradicional losango no meio-campo. O técnico deve continuar nessa toada na Seleção: treinar alternativas e escalar a melhor de acordo com o adversário.
A tendência é que o Brasil jogue com dois zagueiros, um volante de maior marcação, dois meias e três atacantes. A forma como esses atletas se adaptarão em campo mudará a partir da necessidade.
Contra o rebaixamento
Até alguns anos atrás, o nome de Dorival Júnior raramente aparecia entre os mais cotados para assumir o posto de treinador da Seleção Brasileira.
Apesar de campanhas vitoriosas que lhe renderam sete títulos estaduais ao longo da carreira, acabou tendo como trabalhos mais lembrados nos anos 2010 as brigas contra o rebaixamento, casos do Palmeiras (2014) e São Paulo (2017).
À frente da seleção brasileira, além de conviver com a constante instabilidade na direção da CBF, Dorival terá como desafio recuperar a equipe da má fase na qual terminou 2023.
Com Fernando Diniz, o Brasil acumulou marcas negativas dentro de campo, como a sequência inédita de três derrotas nas Eliminatórias, que deixaram a equipe na sexta posição -última que garante vaga direta ao Mundial.
Na Seleção, o treinador também deve voltar a trabalhar com Neymar pela primeira vez desde que protagonizou uma das maiores polêmicas da carreira.
Em 2010, Dorival foi demitido do Santos, mesmo após ter conquistado o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, em um braço de ferro perdido contra Neymar. Ele impediu o então jovem atacante de bater um pênalti e o afastou do time por sua reação contra a comissão técnica.
"Acho que estou fazendo o melhor para o atleta. Para o clube, talvez, mas é o melhor para o atleta", afirmou Dorival à época, em referência à decisão de manter o atacante afastado do time titular – o que resultou em sua demissão.
Passados 14 anos do episódio, os dois devem se reencontrar em momentos bastante distintos da carreira. Dorival vive seu auge, no posto que sempre almejou de treinador da seleção brasileira, enquanto Neymar está longe da melhor fase, em uma liga de pouca expressão no futebol mundial e com previsão de retorno aos gramados apenas no segundo semestre por conta de uma lesão. (Folhapress)
Problemas para
o tricolor
Dorival Júnior afirmou que deixou o São Paulo "pronto para enfrentar os desafios da temporada" ao se despedir do clube. Há, no entanto, algumas indefinições importantes no radar do Tricolor para 2024. A saída do treinador tornou-se uma dor de cabeça para a diretoria, que já recebeu dois "nãos" nos últimos dias, um de Juan Pablo Vojvoda, do Fortaleza, e outro de Pedro Caixinha, do Bragantino. Por enquanto, Lucas Silvestre, filho de Dorival, comanda os treinos do Tricolor Paulista antes da estreia da equipe na temporada.
44 jogos
Fez Dorival Júnior pelo Flamengo,
com 66% de aproveitamento
