"Quando John Lennon diz isso, havia um certo senso comum, inclusive nas universidades europeias e estadunidenses, de que a modernidade conduziria ao fim da religião, não apenas do cristianismo’’

crédito: Gladyston Rodrigues/EM/D.A. Press


Wellington Teodoro da Silva
Doutor em Ciência da Religião E professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas


Para Wellington Teodoro da Silva, a declaração de John Lennon refletia uma época em que se acreditava que a modernidade levaria ao desaparecimento da religião. Sessenta anos depois, a persistência do cristianismo e as transformações das práticas religiosas revelam uma realidade mais complexa. Doutor em ciência da religião, com estágio pós-doutoral em história, Wellington Teodoro da Silva é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas e líder do grupo de pesquisa Religião, Política e Espaço Público. Nesta entrevista, ele analisa a declaração de Lennon, as mudanças religiosas no Brasil e as relações entre espiritualidade e cultura pop.

Quando John Lennon disse que o cristianismo iria “encolher e desaparecer”, ele descrevia algo que já acontecia na Inglaterra? O Censo de 2021, com os cristãos abaixo da metade da população, mostra que ele acertou?

Quando John Lennon diz isso, havia um certo senso comum, inclusive nas universidades europeias e estadunidenses, de que a modernidade conduziria ao fim da religião, não apenas do cristianismo. A modernidade organiza a economia e o poder político fora das mediações da teologia cristã. É nesse contexto que podemos entender a declaração de Lennon. O fato de o número de cristãos estar abaixo de 50% na Inglaterra não me faz pensar que ele tenha acertado. Estamos falando de um contingente relevante. A questão não é quantitativa, mas o fato de o cristianismo persistir na Europa, que é o ambiente da morte de Deus, da secularização e da modernidade. É o epicentro de duas guerras mundiais e do Holocausto. Um continente que, nessa trajetória de violência, matou Deus, por assim dizer.

O Brasil seguiu o caminho oposto ou apenas trocou de religião? Como o senhor lê a queda católica, o crescimento evangélico e o aumento dos sem religião no Censo de 2022?

É difícil fazer essa leitura porque o Censo não oferece elementos para compreender os motivos dessas mudanças. Ele não pergunta por que uma pessoa deixou a religião ou igreja. Penso que estamos diante de um movimento próprio de uma sociedade que se seculariza, urbaniza e amplia suas possibilidades de organizar a existência. O catolicismo brasileiro passou a maior parte no ambiente rural e não se adaptou adequadamente ao mundo urbano. Já o pentecostalismo é urbano de nascimento. O crescimento dos sem religião chama a atenção. Isso não significa que as pessoas não tenham fé em alguma transcendência. Muitas não se sentem à vontade com os processos institucionais de organização da vida religiosa. Há pessoas que saíram do catolicismo, passaram pelas igrejas evangélicas e chegaram ao grupo dos sem religião. Quanto à trajetória brasileira, vale acompanhar Darcy Ribeiro. Nós formamos uma coisa nova. Apesar de nossas elites importarem teorias e estilos de vida, somos uma síntese nova na história humana.

A beatlemania tinha elementos de culto, como multidões, histeria e objetos venerados. Hoje, artistas, influenciadores e jogadores de futebol ocupam esse lugar? A cultura pop concorre com a religião ou convive com ela?

As religiões tradicionais, como o cristianismo e o islamismo, não têm o monopólio de toda a experiência humana que pode ser considerada religiosa. Penso que o ser humano é religioso por natureza. Temos uma necessidade de ontologizar a realidade. Existem estudiosos que investigam, por exemplo, o capitalismo como religião, a espiritualização do consumo, a religião civil e as religiões políticas. Também temos uma tradição de produzir uma espécie de messianismo político, com lideranças apresentadas como salvadores. Nesse sentido, as pessoas podem desenvolver uma relação de devoção e espiritualidade com a cultura pop. Os fãs podem, sim, estabelecer uma relação religiosa, de veneração à pessoa do seu ídolo. A palavra ídolo, nesse caso, não é ingênua.

Em 2008, o jornal do Vaticano tratou a frase como bravata juvenil. Foi perdão, aproximação com a cultura pop ou reconhecimento de que Lennon tinha razão em parte?

Acho que foi uma resposta razoável. Nem considero que seja uma questão de perdão, porque Lennon expressou uma opinião sobre o cristianismo. Também não vejo isso como uma aproximação com a cultura pop ou um reconhecimento de que Lennon tinha razão. É algo que não tem tanta relevância hoje diante das questões que o Vaticano precisa enfrentar.

Se alguém dissesse a mesma frase hoje, qual seria a reação no Brasil?


Penso que haveria uma reação muito negativa contra quem dissesse isso.
Veja o caso da política. Chamar um adversário de ateu ou dizer que ele vai perseguir as religiões é uma maneira muito eficiente de desqualificá-lo no embate político. Isso aconteceu contra Fernando Henrique Cardoso, quando lhe perguntaram se era ateu. É algo que o PT também sofre muito. As esquerdas tendem a sofrer mais esse tipo de acusação. Portanto, acredito que seria muito ruim para quem fizesse hoje uma declaração semelhante à de John Lennon.