SOB PRESSÃO, John Lennon tenta esclarecer sua declaração de que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo -  (crédito: Arquivo)

SOB PRESSÃO, John Lennon tenta esclarecer sua declaração de que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo

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A pergunta veio quase inevitavelmente. John Lennon se arrependia?

Era 11 de agosto de 1966. Em Chicago, uma sala cheia de jornalistas aguardava uma explicação para uma frase dita cinco meses antes, a milhares de quilômetros dali.

O ambiente não poderia ser mais diferente daquele em que tudo começara.

Em março, Lennon estava dentro de casa, conversando com uma jornalista que conhecia. Agora havia câmeras, microfones, repórteres e uma turnê inteira pressionada pela repercussão de suas palavras.

Ele respondeu: “Lamento ter aberto a boca.” Não era exatamente a negação de tudo o que havia dito. Também não era a postura desafiadora que seus adversários poderiam esperar.

Lennon tentou explicar que falara de popularidade, não de superioridade espiritual. Não dissera que os Beatles eram melhores que Jesus. Quisera chamar atenção para o espaço que o grupo e outros elementos da cultura popular ocupavam na vida dos jovens.

Poderia ter falado da televisão, argumentou. Mas falara dos Beatles.

E agora os Beatles enfrentavam as consequências.

Os jornalistas insistiram. Perguntaram sobre adolescentes que repetiam a comparação, sobre a popularidade da banda e até sobre a possibilidade de toda aquela controvérsia ser uma estratégia de promoção.

Perguntaram também sobre as ameaças. Lennon admitiu estar preocupado.

Ao lado dele, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr descobriam que uma frase individual podia produzir consequências coletivas. Paul criticou a queima dos discos. George falou em mal-entendido. Ringo demonstrou a vontade de que tudo terminasse. Não terminou.

No dia seguinte, Lennon voltou a enfrentar os repórteres.

A existência de uma segunda coletiva já dizia alguma coisa. A primeira explicação não havia bastado.

Ele retomou a história desde o início. Falou da relação com Maureen Cleave, da conversa em sua casa e da naturalidade com que o assunto surgira. Sabia que estava sendo entrevistado. O que não imaginara era que, meses depois, cada palavra seria examinada como se tivesse sido uma declaração cuidadosamente preparada.

Um radialista do Alabama queria desculpas. Lennon as ofereceu. Mas estabeleceu um limite. Podia lamentar ter ofendido pessoas sem aceitar que tivesse declarado guerra à religião.

Essa diferença tornava tudo mais difícil. Um pedido de desculpas poderia encerrar uma desavença pessoal. Não encerrava uma controvérsia que já envolvia igrejas, rádios, jornais, políticos, empresários e milhares de fãs.

Os repórteres queriam saber também no que Lennon acreditava.

Assim, uma entrevista sobre um músico havia se transformado num exame público de sua fé.

Ele disse ter recebido formação cristã, embora não se apresentasse como praticante. Hesitava, voltava às frases, corrigia interpretações. O desconforto estava à vista.

Lennon tentava recuperar o controle sobre palavras que já circulavam independentemente dele.

A notícia de que o Beatle lamentava a comparação correu os Estados Unidos. Era verdade, mas não era toda a história.


Ele lamentava o efeito produzido pela declaração e a ofensa causada. Ao mesmo tempo, continuava dizendo que nunca pretendera colocar os Beatles acima de Cristo.

Para alguns, era suficiente. Para outros, não.

Havia ainda um problema maior. Nenhuma entrevista terminava quando Lennon deixava a sala.

Suas respostas seriam resumidas, tituladas, transmitidas pelo rádio e reproduzidas nos jornais. A explicação passaria pelo mesmo mecanismo que havia transformado a frase original.

Mais uma vez, outras pessoas escolheriam quais palavras sobreviveriam.

Na manhã seguinte, os Beatles subiriam ao palco.

A turnê começava. Mas o pedido de desculpas não havia apagado as ameaças.

11/8/1966
Os Beatles chegam à etapa americana da turnê sob pressão. Em Chicago, John Lennon enfrenta jornalistas e diz lamentar ter feito a declaração. Explica que comparava a popularidade da banda à presença da religião na vida dos jovens, não o valor dos Beatles ao de Cristo.

12/8/1966
Diante de novas perguntas, volta ao assunto em outra coletiva. Oferece desculpas a quem se sentiu ofendido, mas rejeita a interpretação de que tivesse afirmado ser superior a Jesus. Segue a pressão.

 

Em Memphis, em 19 de agosto de 1966, um rojão explode durante o show e assusta os músicos: a violência deixou de ser abstrata e virou ameaça real
Em Memphis, em 19 de agosto de 1966, um rojão explode durante o show e assusta os músicos: a violência deixou de ser abstrata e virou ameaça real Arquivo

Um estampido no meio da canção

Em Memphis, um rojão explodiu durante o show e materializou o medo que acompanhava a turnê. Dez dias depois, os Beatles encerrariam definitivamente a vida na estrada.


Primeiro veio o barulho. Seco. Repentino. Por alguns segundos, ninguém no palco sabia exatamente o que havia acontecido.


Era 19 de agosto de 1966, em Memphis. Os Beatles tocavam no Mid-South Coliseum quando um rojão explodiu em meio à apresentação.


O artefato não atingiu John Lennon. Mas naquele instante eles ainda não sabiam disso.
Anos depois, Lennon lembraria que os quatro se olharam imaginando que alguém pudesse ter levado um tiro. Tony Barrow, assessor de imprensa da banda, guardou uma imagem um pouco diferente. “Todos olharam imediatamente para John Lennon”, contou.


A lembrança pode variar. O medo, não. Naquelas semanas, a possibilidade de violência deixara de parecer abstrata.


Memphis estava entre os lugares em que a declaração sobre Jesus encontrara oposição intensa. Autoridades locais haviam criticado Lennon. Lideranças religiosas pressionavam contra a presença da banda. A Ku Klux Klan aparecia nos protestos. Ameaças circulavam antes mesmo de os músicos chegarem à cidade.


Ainda assim, os shows foram mantidos. Haveria duas apresentações naquele 19 de agosto, uma à tarde e outra à noite.


E então veio o estampido. Não foi apenas uma lembrança construída décadas depois. Um despacho daquele mesmo dia registrou o rojão e objetos lançados durante a apresentação. Fotografias e ingressos preservados em Memphis ajudam a reconstruir a passagem da banda pela cidade.


A turnê continuou. Mas o episódio tornou visível aquilo que acompanhava os Beatles desde o início da viagem. Cada palco exigia agora uma preocupação de segurança que ia muito além de controlar adolescentes excitados.

 

No Candlestick Park, em 29 de agosto de 1966, os Beatles fazem sua última   apresentação comercial, encerrando a era das turnês da banda
No Candlestick Park, em 29 de agosto de 1966, os Beatles fazem sua última apresentação comercial, encerrando a era das turnês da banda Arquivo


A frase de Lennon fazia parte desse ambiente. Não explicava tudo.


Quando os Beatles decidiram abandonar as turnês, havia outros desgastes acumulados. No Japão, enfrentaram hostilidade e enormes restrições de segurança. Nas Filipinas, a ausência numa recepção organizada por Imelda Marcos desencadeara uma crise e uma saída tumultuada do país.


E havia o próprio cansaço. Durante anos, a rotina fora avião, hotel, carro, camarim, palco, hotel, aeroporto. Quase sempre cercada por gritos. A música também mudara.


No estúdio, os Beatles experimentavam técnicas, sobreposições, instrumentos e arranjos cada vez mais difíceis de reproduzir ao vivo. Nos shows, tocavam com equipamentos que mal conseguiam disputar volume com milhares de fãs.


Em algum momento, o espetáculo deixara de acompanhar a banda.


Dez dias depois de Memphis, em 29 de agosto, eles chegaram ao Candlestick Park, em San Francisco.
Ninguém anunciou ao público que seria uma despedida.


Mas Paul McCartney parecia perceber que alguma coisa estava terminando. Pediu a Tony Barrow que gravasse o concerto.


A fita girou enquanto os Beatles tocavam. Parou antes do fim de “Long Tall Sally”. A última música ficou incompleta.


O Candlestick Park não estava lotado. Mas seria imprudente atribuir cada cadeira vazia à polêmica religiosa. O desgaste das turnês vinha de muitas direções. Hostilidade, exaustão, limitações técnicas e transformação artística se acumulavam.


O que terminou naquela noite não foi a banda.


Em 1969, os quatro ainda tocariam juntos no telhado da Apple, em Londres.
O que acabou em San Francisco foi outra coisa.


A vida itinerante. Os hotéis. Os estádios. A obrigação de repetir sobre o palco uma versão dos Beatles que eles próprios já começavam a deixar para trás.


Depois de Candlestick, o grupo voltou para casa.


E, pela primeira vez desde a explosão mundial da Beatlemania, não havia outra turnê esperando.
Havia um estúdio. E tempo para descobrir o que fazer dentro dele.

19/8/1966
Os Beatles fazem duas apresentações em Memphis, onde o comentário de John Lennon provocara protestos. Durante um dos shows, um rojão então explode. Os músicos temem, por instantes, que alguém tivesse sido baleado.

29/8/1966
No Candlestick Park, em San Francisco, a banda realiza seu último concerto com venda de ingressos. Paul McCartney pede que Tony Barrow grave o espetáculo, mas a fita termina antes da última canção. Encerram-se ali as turnês. O grupo continua em atividade.