A jornalista britânica Maureen Cleave com os Beatles. Em março de 1966, ela publicou no london Evening Standard a entrevista em que John Lennon fez a declaração que marcou a trajetória da banda -  (crédito: Arquivo)

A jornalista britânica Maureen Cleave com os Beatles. Em março de 1966, ela publicou no london Evening Standard a entrevista em que John Lennon fez a declaração que marcou a trajetória da banda

crédito: Arquivo

Há 60 anos, John Lennon declarou que os Beatles eram mais populares que Jesus. A frase, pronunciada durante uma entrevista ao jornal britânico London Evening Standard, em sua casa nos arredores de Londres, atravessou o Atlântico e desencadeou, nos Estados Unidos, uma onda de protestos, discos queimados, boicotes e ameaças de morte. Pressionado, Lennon precisou se explicar diante da imprensa norte-americana. Em Memphis, a explosão de um rojão durante um show fez os músicos temerem que alguém tivesse sido baleado. Dez dias depois, os Beatles encerrariam suas turnês. Seis décadas após, o Estado de Minas reconstrói a declaração que abalou a Beatlemania e afetou seus personagens. Da frase de 1966 à canção “God”, o EM relata a busca espiritual de Lennon, a transformação musical dos Beatles e a trajetória do grupo até a separação, em 1970.

‘‘Somos mais populares que Jesus agora” - a frase que incendiou o mundo

A declaração isolada que abalou os princípios dos EUA

Na casa de John Lennon, nos arredores de Londres, na Inglaterra, havia uma Bíblia grande e um crucifixo. Havia também livros, televisores, carros, discos e uma fantasia de gorila. Aos 25 anos, ele já podia comprar quase tudo. O que não podia era voltar a ser anônimo.

Foi nesse cenário, longe de palcos, aeroportos e adolescentes aos gritos, que a jornalista Maureen Cleave encontrou Lennon em março de 1966. Ela queria mostrar quem existia por trás do Beatle. Não havia coletiva de imprensa, empresário acompanhando cada palavra ou campanha de lançamento a obedecer. Era uma conversa dentro de casa.

Lennon falou de dinheiro, hábitos, livros, do futuro e também de religião. Vinha lendo sobre o assunto e enxergava uma Inglaterra que já não parecia viver o cristianismo com a força das gerações anteriores. Em algum momento da conversa, lançou a frase que passaria décadas sobrevivendo às explicações: “Somos mais populares que Jesus agora”.

Ela foi publicada no Evening Standard em 4 de março de 1966. E quase nada aconteceu. Não houve fogueiras, boicotes em cadeia ou multidões protestando no dia seguinte. A frase aparecia dentro de uma reflexão maior. Lennon dizia acreditar que o cristianismo perderia espaço e comparava a presença da religião com a força que o rock havia adquirido entre os jovens.

Era uma opinião. Provocadora, certamente. Não uma pesquisa sobre popularidade, muito menos uma medição capaz de colocar uma banda e uma religião na mesma escala. Esse detalhe desapareceria pelo caminho.

Maureen Cleave conhecia os Beatles havia anos. Formada em história moderna em Oxford, começara no jornal como secretária até conquistar espaço na reportagem musical. Já estivera em Liverpool quando aqueles quatro rapazes ainda começavam a descobrir o tamanho da própria fama. Tinha acesso suficiente para enxergar algo que as entrevistas promocionais geralmente escondiam. Eles deixavam de ser apenas quatro personagens engraçados de ternos iguais.

 

Queima de discos e protestos contra os Beatles se espalharam pelos Eua em 1966, após a repercussão da declaração de Lennon
Queima de discos e protestos contra os Beatles se espalharam pelos Eua em 1966, após a repercussão da declaração de Lennon Arquivo

Lennon, especialmente, parecia cansado de representar o tempo inteiro o papel do Beatle simpático.

A Inglaterra também mudava. Uma geração começava a questionar instituições, costumes e a religião herdada dos pais. Nesse ambiente, a observação de Lennon podia incomodar, mas não parecia incompreensível. Durante quase cinco meses, ficou assim.

Então, a frase atravessou o Atlântico rumo à América. No fim de julho, a revista americana Datebook, dirigida principalmente ao público jovem, republicou trechos da entrevista. Agora aquelas palavras apareciam em um outro país, destacadas de outra maneira e diante de um público para o qual religião, rádio e cultura juvenil mantinham relações muito diferentes das encontradas na Inglaterra.

A frase continuava igual. O mundo ao redor dela, não.

Em poucos dias, locutores começariam a pedir que discos dos Beatles fossem retirados das estantes. Igrejas discutiriam Lennon. Políticos se manifestariam. Haveria fogueiras, ameaças e pressão para cancelar apresentações.

Uma conversa ocorrida numa sala em Weybridge havia adquirido vida própria.

Quando Lennon embarcasse para os Estados Unidos em agosto, já não seria suficiente dizer que suas palavras tinham sido mal interpretadas. Milhões de pessoas acreditavam saber o que ele havia dito e, principalmente, o que aquilo significava.

Antes de cantar, ele teria de se explicar.

4/3/1966
O London Evening Standard publica a entrevista de Maureen Cleave com John Lennon, realizada em sua casa, em Weybridge. Ao falar sobre o futuro do cristianismo, ele afirma que os Beatles são “mais populares que Jesus agora”. A declaração passa quase despercebida na Inglaterra.

JULHO DE 1966
A revista americana Datebook republica trechos do perfil. Destacada da conversa original, a declaração chega aos Estados Unidos às vésperas de uma nova turnê. A crise ganharia dimensão internacional.


Julgamento transformado em arma contra a música

Para participar do protesto, não bastava desligar o rádio. Era preciso levar o disco. No verão de 1966, jovens começaram a aparecer com álbuns e compactos dos Beatles nas mãos. Objetos que pouco antes tinham sido comprados, guardados e ouvidos como pequenas preciosidades agora eram empilhados para serem quebrados ou lançados ao fogo. A transformação começara numa estação de rádio de Birmingham, no Alabama.

Os locutores Tommy Charles e Doug Layton haviam tomado conhecimento da declaração publicada meses antes na Inglaterra e republicada pela Datebook. Para eles, a comparação de John Lennon entre a popularidade dos Beatles e a de Jesus ultrapassava o limite do aceitável.

A resposta seria pública. A emissora convocou os ouvintes a abandonar a banda.

Naquele momento, a frase deixou definitivamente o ambiente em que havia sido pronunciada. Já não importava apenas o que Lennon tentara dizer em sua casa na Inglaterra. Importava aquilo que uma estação de rádio afirmava que ele havia dito e o que seus ouvintes estavam dispostos a fazer em resposta. O mecanismo foi rápido.

A rádio convocava. O público reagia. Repórteres percebiam a notícia. Agências distribuíam o episódio para outras cidades. Novas emissoras entravam na discussão.

A indignação alimentava a cobertura. A cobertura ampliava a indignação.

O rádio dava velocidade ao protesto. As agências davam alcance. As fogueiras forneciam a imagem capaz de resumir a controvérsia em poucos segundos.

Um disco queimando não exigia conhecer a entrevista de Maureen Cleave nem discutir a diferença entre popularidade e superioridade. Naquele gesto, gostar dos Beatles começava a ser apresentado como uma escolha moral.

De um lado, Cristo. Do outro, quatro músicos ingleses.

Mas nem todos aceitaram essa divisão.

Enquanto algumas emissoras retiravam os Beatles da programação, outras se recusaram a aderir ao boicote. Em Fort Knox, no Kentucky, uma rádio tomou o caminho oposto e passou a tocar a banda justamente para contestar a campanha.

Também entre religiosos não havia unanimidade.

Em Madison, Wisconsin, o reverendo presbiteriano Prichard Pritchard deslocou a discussão. Em vez de exigir a punição de Lennon, sugeriu que os próprios cristãos examinassem a maneira como distribuíam seu tempo e suas devoções.

“Há muita validade no que Lennon disse”, afirmou.

A pergunta deixava de ser apenas como ele tivera coragem de dizer aquilo. Passava a existir outra: e se a provocação estivesse expondo alguma coisa?

Enquanto esse debate crescia, Brian Epstein enxergava um problema muito mais concreto. Dentro de poucos dias, os Beatles começariam uma turnê pelos Estados Unidos. Ingressos estavam vendidos, contratos assinados, arenas reservadas.

E agora havia ameaças.

O empresário atravessou o Atlântico tentando reduzir a temperatura da crise. Precisava explicar a declaração de Lennon sem transformar a própria explicação em outra manchete.

Não conseguiu. A polêmica já havia escapado dos Beatles.

O boicote chegou a outros países, assumindo formas diferentes. A radiodifusão estatal sul-africana vetou a banda. Uma emissora de Pamplona, na Espanha, suspendeu suas músicas. Em Hong Kong, rádios indicaram que continuariam tocando os discos. Não existia uma reação única. Nem americana, nem cristã, nem mundial.

E as imagens das fogueiras, embora poderosas, também não eram pesquisas de opinião. Mostravam pessoas revoltadas. Não diziam quantas continuavam ouvindo, comprando discos ou esperando pelos shows.

Em agosto de 1966, o escândalo já havia alcançado um ponto em que Lennon não poderia mais permanecer na Inglaterra acompanhando tudo à distância.

O avião dos Beatles seguia para os Estados Unidos. Uma sala cheia de jornalistas o aguardava em Chicago.

JULHO DE 1966
Em Birmingham, Alabama, os radialistas Tommy Charles e Doug Layton convocam um boicote aos Beatles. Ouvintes são incentivados a entregar discos, que passam a ser quebrados e queimados publicamente.

AGOSTO DE 1966
Outras emissoras aderem à campanha, enquanto algumas continuam tocando a banda. O empresário Brian Epstein viaja aos Estados Unidos para tentar conter a crise antes da chegada dos músicos. As ameaças tornam a segurança da turnê uma preocupação.
O medo aumenta.