ENTRE AS RUÍNAS
Bombeiros avançam sobre os escombros do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, depois do colapso das Torres Gêmeas. Onde horas antes havia dois dos edifícios mais reconhecidos do mundo, restava uma massa instável de aço retorcido, concreto, fumaça e poeira. Em meio aos destroços, as equipes procuravam sobreviventes e tentavam alcançar áreas onde ainda pudesse haver pessoas presas. O trabalho atravessaria a noite e continuaria nos dias seguintes, em condições extremas e sob o risco de novos desabamentos. A fotografia de Doug Kanter registra homens quase engolidos pela escala das ruínas, avançando por um cenário que ainda não era chamado pelo nome que entraria para a história: Ground Zero.
Em 26 de fevereiro de 1993, Lolita Jackson estava no 72º andar da Torre Sul quando uma bomba explodiu na garagem subterrânea do World Trade Center. A fumaça invadiu o edifício. A descida levou cerca de duas horas e houve momentos em que ela mal conseguia enxergar a própria mão.
Sobreviveu.
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Oito anos depois, estava novamente na Torre Sul. É essa dupla travessia que organiza o relato que ela daria muito tempo depois.
Na manhã de 11 de setembro de 2001, participava de uma reunião no 70º andar quando viu o voo 11 atingir a Torre Norte.
Desta vez, não precisou aprender como reagir.
Lolita e vários colegas também sobreviventes de 1993 começaram imediatamente a colocar em prática os procedimentos de evacuação que haviam aprendido depois do primeiro atentado.
Desceu de elevador até o 59º andar. Ali, seu colega Thomas Swift decidiu procurar uma sala vazia para telefonar à mulher.
Lolita seguiu.
Chegou ao sky lobby do 44º andar e continuou a descida pelas escadas.
Poucos minutos depois, às 9h03, o voo 175 atingiu a Torre Sul.
Swift morreu.
Lolita conseguiu chegar à rua.
A diferença entre os dois destinos coube em poucos minutos e em uma decisão aparentemente banal: continuar descendo ou parar para fazer uma ligação.
Sobreviver duas vezes ao terrorismo mudou a maneira como Lolita enxergava o próprio trabalho e a vida.
Sua conclusão foi brutalmente simples:"Se você pode morrer no seu trabalho, é melhor amá-lo."
Ela acabaria mudando de carreira.
Anos mais tarde, ao contar sua história, Lolita ofereceu ainda outra reflexão. Para ela, a experiência terrível também transformou a maneira como ela e pessoas próximas passaram a olhar os outros. Tornou-os, disse, melhores cidadãos do mundo.
Sua história é diferente das demais porque começa oito anos antes.
Em 1993, Lolita aprendeu como era descer de uma torre atacada.
Em 2001, descobriu que aquela experiência poderia salvar sua vida.
Poucas pessoas atravessaram duas vezes as escadas do mesmo complexo fugindo de dois atentados terroristas diferentes.
Lolita Jackson foi uma delas.
“LUCY, NÃO VAMOS DEIXAR NINGUÉM PARA TRÁS”
EXAUSTÃO E SILÊNCIO — Um bombeiro descansa próximo às ruínas do World Trade Center em 12 de setembro de 2001, um dia depois dos ataques. Coberto de poeira, com o uniforme marcado pelo trabalho e o olhar distante, ele foi fotografado por Stan Honda durante as operações de busca entre os escombros. Àquela altura, Nova York ainda procurava sobreviventes, enquanto bombeiros e socorristas avançavam sobre uma montanha de aço, concreto e destroços. A imagem se tornou um retrato da exaustão de quem trabalhou durante horas em Ground Zero e também do tamanho da perda sofrida pelo Corpo de Bombeiros de Nova York. Só em 11 de setembro, 343 integrantes do FDNY morreram durante as operações de resgate nas Torres Gêmeas.
Richard Eichen ainda não tinha nem a chave do escritório.
Era sua primeira semana trabalhando para a Pass Consulting Group, no 90º andar da Torre Norte. Naquela manhã, comprou café e um bagel e subiu. Como os colegas ainda não haviam chegado, esperava no corredor quando ouviu um estrondo.
Foi lançado ao chão.
O ambiente se encheu de fogo. Richard percebeu que estava sangrando na cabeça e começou a procurar uma saída. Conseguiu chegar a outro escritório, onde encontrou algumas pessoas, entre elas Lucy Gonzalez.
O teto começava a queimar.
Era hora de sair.
Lucy, porém, estava apavorada. Preferia permanecer ali e esperar pelos bombeiros.
Richard recusou. A frase que ele repetiria sempre que voltasse a contar aquela manhã nasceu ali:
"Lucy, não vamos deixar ninguém para trás. Temos que sair daqui."
Colocou as mãos dela sobre seus ombros e segurou-as para impedir que soltasse.
E então saíram juntos.
A descida tornou-se cada vez mais difícil. Próximo ao 25º andar, Lucy desmaiou. Bombeiros conseguiram reanimá-la com oxigênio.
Richard continuou.
Nos últimos pavimentos, passou a carregá-la e gritava para abrir caminho.
Os dois conseguiram sair apenas minutos antes do colapso da Torre Norte.
Richard entregou Lucy aos paramédicos e caminhou até o hospital para tratar o ferimento na cabeça. Foi ali que, vendo as imagens na televisão, compreendeu pela primeira vez a dimensão do que havia acontecido.
Assustado com a possibilidade de novos ataques, decidiu ir embora antes mesmo de trocar de roupa. Vestiu novamente calças e sapatos, mas continuou com a roupa hospitalar e atravessou a Brooklyn Bridge a pé.
Um desconhecido viu aquele homem ferido, de avental, caminhando sozinho e ofereceu-lhe uma carona até a casa dos pais.
Anos depois, Richard procurou Lucy. Confirmou por e-mail que ela estava viva.
Os dois só se reencontrariam pessoalmente dez anos depois, em 2011. Escolheram um lugar carregado de significado: a Survivor Tree, no recém-inaugurado 9/11 Memorial.
A beleza e a paz do Memorial afetaram todos eles, recordaria.
Vinte e cinco anos depois dos ataques, a frase continua no centro de sua história:
"Não vamos deixar ninguém para trás."
“ROSELLE ESTAVA CALMA. ENTÃO EU TAMBÉM FIQUEI”
O ATAQUE DO ESPAÇO Às 11h30 de 12 de setembro de 2001, um dia depois dos ataques, uma extensa coluna de fumaça ainda subia do local onde estavam as Torres Gêmeas. A cena foi registrada pelo satélite Landsat 7 e mostra a dimensão da tragédia por uma perspectiva incomum: do espaço. Em meio à geometria de Manhattan, a fumaça se espalha sobre o sul da ilha e avança em direção às águas ao redor de Nova York. No solo, bombeiros e equipes de resgate continuavam procurando vítimas entre os escombros, enquanto focos de incêndio permaneciam ativos no complexo destruído. A imagem transforma aquilo que havia sido visto das ruas em uma marca perceptível a centenas de quilômetros de altitude: mesmo no dia seguinte, o World Trade Center ainda queimava.
Michael estava no 78º andar preparando uma reunião. Ouviu o estrondo e sentiu o edifício inclinar-se. Pessoas ao redor tentavam entender o que havia acontecido. Do lado de fora, pedaços de papel em chamas atravessavam o céu.
Michael não podia vê-los.
Precisava construir a realidade por outros sinais: sons, cheiros, movimentos e aquilo que Roselle lhe transmitia pelo corpo.
A cadela permanecia calma.
Michael decidiu confiar nela.
Ao contar a experiência, faria questão de desfazer o mito: Roselle não era uma espécie de animal milagroso que conhecia a saída do World Trade Center. A relação entre os dois funcionava como uma equipe. Ele determinava para onde ir; ela o ajudava a chegar com segurança.
Entraram na Stairwell B. Michael percebeu um cheiro conhecido. Lembrou-se das lanternas a querosene usadas quando era escoteiro.
Era combustível de aviação.
Começou a longa descida.
Foram 78 andares, durante aproximadamente uma hora. Ao redor, pessoas também tentavam sair enquanto bombeiros seguiam na direção contrária.
Roselle continuava trabalhando.
Michael lembraria o reconhecimento que ela receberia depois por aquilo que era e pelo que fez.
Os dois chegaram à rua aproximadamente meia hora antes do colapso da Torre Norte.
Mas a história não terminou ali. Hingson passou a falar publicamente sobre aquela manhã, não apenas como sobrevivente, mas também para questionar uma interpretação que o incomodava: a ideia de que, por ser cego, necessariamente teria sido uma pessoa indefesa esperando ser salva. Para ele, o que ocorreu foi o contrário.
Preparação importou. Conhecer o prédio importou. Manter a calma importou. Confiar em Roselle importou. E trabalhar em conjunto importou.
Roselle morreu em 2011, com Michael e sua mulher, Karen, ao lado dela. Sua coleira, com seis identificações metálicas, integra hoje a coleção do 9/11 Memorial & Museum.
Vinte e cinco anos depois, Michael continua contando a história daquela descida. Não como a história de um cão que conduziu um homem cego para fora de uma torre.
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Mas como a história de dois parceiros que confiaram um no outro quando tudo ao redor parecia dizer que não havia razão alguma para permanecer calmo.
