Cinco anos separam as duas cartas. Entre elas, um golpe de Estado.

A cassação dos direitos políticos.

O exílio.

O papel é o mesmo. A assinatura também. Mas o homem que escreve já não parece ser aquele que, em 1961, deixou o Palácio do Planalto com a serenidade de quem encerrava uma missão.

Na primeira carta, Juscelino agradece aos brasileiros pelo “patriótico apoio à luta” que travou para conduzir “ao pleno êxito a causa do desenvolvimento nacional”.

Não há ressentimento na despedida.

Há orgulho.

“Sinto-me satisfeito em poder proclamar que, na Presidência da República, não faltei a um só dos compromissos que assumi como candidato”, escreve.

JK recorda as metas cumpridas, Brasília erguida no Planalto Central e a Operação Pan-Americana. Afirma ter feito “o Brasil avançar, pelo menos, cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”.
Mas reserva à democracia o lugar mais alto de seu balanço.

Diz ter entregado o mandato “num clima de paz, de ordem, de prosperidade e de respeito a todas as prerrogativas constitucionais”.

É a voz de um presidente que deixa o poder, mas não abandona o futuro.

“Sejam quais forem os rumos da minha vida pública, levarei comigo, ao deixar o honroso posto que me confiou a vontade popular, o firme propósito de continuar servindo ao Brasil.”

Ao final, promete seguir com “a mesma fé, o mesmo entusiasmo e a mesma confiança nos seus altos destinos”.

Cinco anos depois, a confiança ainda existe. Mas precisa disputar espaço com a solidão.

Em 6 de abril de 1966, JK escreve de Nova York ao amigo César Prates. Está longe da Presidência. Longe de Brasília. Longe do país que ajudou a transformar.

“Sua carta foi como que um programa de televisão para mim”, confessa.

Por alguns instantes, ele deixa Manhattan.

Pela memória, retorna à “varanda do Catetinho, diante da paisagem do Planalto”. Ali, volta a sonhar “os mesmos sonhos que nos animaram na fase heroica do início da construção da Nova Capital”.
Na carta de 1961, Brasília aparece como realização.

Na de 1966, como ausência.

A cidade que antes provava sua capacidade de transformar o país agora revela a distância entre Juscelino e o Brasil.

“Considerei o Catetinho e a luta que vocês realizaram a primeira semente que deitamos no Planalto Brasileiro”, afirma.

Depois, deixa escapar a ferida do exílio. Diz viver em “um meio indiferente ao nosso destino”, ignorando aquilo que haviam feito e “constantemente açoitado por um frio que não tem fim”.

O frio descrito por JK não vem apenas do inverno de Nova York.

Está na distância. No silêncio.

Na interrupção forçada de sua vida pública.

Enquanto recorda o céu azul sobre o Catetinho e as estrelas que “piscam sem pausa”, escreve de “um escritório rígido de Manhattan, sem violão e sem whisky, sem luar e sem a paisagem familiar aos meus olhos”.

O homem que, em 1961, contabilizava metas passou a contabilizar ausências.

Depois de “dois anos de uma peregrinação triste e desalentadora”, ainda encontra uma reserva de coragem para esperar dias melhores. Ela vem dos amigos que não permitiram apagar “a chama palpitante de uma amizade”, definida por JK como seu “maior tesouro e privilégio”.

Então, quase ao fim da carta, o homem ferido reage.

“Cansei de evocar. Quero agora viver.” E avisa ao amigo:

“Espere-me para continuarmos o que a maldade dos homens quis interromper.”

As duas cartas mostram o mesmo Juscelino em margens opostas da vida.

Na primeira, o presidente cercado pela obra, pela democracia e pela confiança.

Na segunda, o exilado cercado pelo frio, pelas recordações e pela ausência do país.

Uma fala de tudo o que havia construído.

A outra, de tudo o que lhe fora retirado.

Hoje, quando a morte de Juscelino Kubitschek completa 50 anos, essas páginas conservam mais do que sua letra e sua assinatura.

Guardam a voz de um homem que conheceu o poder e o exílio, a realização e a perda, o futuro e a saudade.

Uma voz que a ditadura silenciou.

 

“Fizemos o Brasil avançar, pelo menos, cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”

JK, CARTA DE DESPEDIDA DA PRESIDÊNCIA, NOVA YORK, 1961

“Dois anos de uma peregrinação triste e desalentadora. (...) Cansei de evocar”

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JK, CARTA DO EXÍLIO, NOVA YORK, 1966

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