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Em 2013, a Doutrina Monroe pareceu ter sido condenada aos livros de história. No entanto, em seu segundo mandato, Donald Trump a devolveu ao centro da política externa norte-americana. Após ter citado o pensamento como uma referência em oportunidades anteriores, um vídeo publicado nas redes sociais do Departamento de Estado dos Estados Unidos, na última terça-feira (11/8), afirma que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, atualizando a ideia nascida em 1823 com o então presidente James Monroe: a de que Washington tem interesses especiais a proteger na região.

Naquela época, Monroe se referiu a interferências europeias. Mais de 200 anos depois, os adversários são outros. Trump mira principalmente China, Rússia e Irã e combina presença militar, inteligência, sanções, tarifas e pressão diplomática para preservar a “preeminência” americana. A Venezuela tornou-se símbolo dessa retomada. A captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, aparece no vídeo como aplicação contemporânea da doutrina. O mesmo impulso está presente nas ameaças ao Canal do Panamá, Groenlândia e na disputa por portos, minerais e rotas estratégicas. Trump batizou essa política de “Corolário Trump”. Os críticos preferem “Doutrina Donroe”. O nome pode ser novo, porém a ambição de reafirmar o continente como área de controle dos EUA parece ser a mesma. Mas, afinal, onde termina a defesa da segurança dos Estados Unidos e começa a pretensão de decidir o destino das Américas?

A Doutrina Monroe nasceu de uma ideia que parecia simples: as potências europeias não deveriam voltar a colonizar nem ampliar sua influência política nas Américas. Em contrapartida, os Estados Unidos permaneceriam afastados das disputas europeias.

Era 1823. Grande parte da América Latina acabara de conquistar a independência e ainda havia o temor de que as antigas metrópoles tentassem recuperar os territórios perdidos.

Foi nesse cenário que, em 2 de dezembro daquele ano, o presidente James Monroe apresentou ao Congresso dos Estados Unidos a mensagem que entraria para a história. Não era uma lei nem um tratado negociado com os demais países americanos. Era uma declaração de Washington sobre o equilíbrio de forças que desejava para o continente.

Seu sentido seria mais tarde resumido na expressão “América para os americanos”, embora Monroe nunca tenha pronunciado exatamente essas palavras.

Naquele momento, os Estados Unidos estavam longe de ser a potência que se tornariam. Sua independência não completara 50 anos e Washington sequer possuía força naval suficiente para garantir sozinho que a Europa permanecesse distante. Na prática, a poderosa Marinha britânica também mantinha as esquadras das demais potências europeias afastadas, movida por seus próprios interesses comerciais e estratégicos.

A importância da declaração estava menos no poder que os Estados Unidos possuíam em 1823 e mais naquele que começavam a reivindicar para o futuro.

Por trás de Monroe estava John Quincy Adams, secretário de Estado e um dos principais formuladores daquela política. E há uma distinção importante. A doutrina original não autorizava Washington a invadir países latino-americanos, derrubar presidentes ou escolher governos. Sua mensagem era dirigida sobretudo às potências europeias. A interpretação intervencionista surgiria depois, acompanhando o crescimento do poder americano.

Ao longo do tempo, a doutrina seria adaptada a novos adversários e circunstâncias. O princípio, porém, permaneceria: o Hemisfério Ocidental ocupava um lugar particular na segurança e nos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

 

Em American Progress (1872), John Gast transformou em alegoria o sonho de expansão dos Estados Unidos: à frente, a luz do "progresso"; para trás, povos indígenas, animais e um mundo empurrado para as sombras. A pintura tornou-se uma das imagens mais emblemáticas do Destino Manifesto, a crença de que o país estava destinado a avançar sobre o continente.
Em American Progress (1872), John Gast transformou em alegoria o sonho de expansão dos Estados Unidos: à frente, a luz do "progresso"; para trás, povos indígenas, animais e um mundo empurrado para as sombras. A pintura tornou-se uma das imagens mais emblemáticas do Destino Manifesto, a crença de que o país estava destinado a avançar sobre o continente. AFP

DESTINO MANIFESTO

Ao longo do século XIX, a Doutrina Monroe passou a conviver com outra ideia fundamental para compreender a expansão americana: o Destino Manifesto.

A expressão foi cunhada pelo jornalista e editor John L. O'Sullivan, em 1845, ao defender a expansão territorial dos Estados Unidos. O'Sullivan deu nome a uma crença que já circulava na sociedade americana: a de que o país estaria destinado a avançar pelo continente, levando consigo suas instituições e seu modelo de sociedade.

Para seus defensores, havia nessa expansão um sentido quase providencial. O crescimento americano era apresentado como uma missão histórica, inevitável e, em algumas interpretações, amparada pela vontade divina.

Essa visão ajudou a legitimar o avanço para o Oeste e a anexação de territórios, mas também acompanhou guerras, expulsões de populações indígenas e conflitos com países vizinhos. A Guerra contra o México, entre 1846 e 1848, tornou-se seu exemplo mais contundente.

Ao final do conflito, os Estados Unidos incorporaram uma vasta extensão territorial, incluindo as atuais Califórnia, Nevada e Utah, além de partes do Arizona, Novo México, Colorado e Wyoming.

Doutrina Monroe e Destino Manifesto, porém, não eram a mesma coisa. O Destino Manifesto oferecia uma justificativa para a expansão dos próprios Estados Unidos. A Doutrina Monroe procurava impedir que outras potências ampliassem sua presença nas Américas. Um legitimava o avanço americano. O outro delimitava o espaço que Washington não desejava compartilhar.

A DEFESA VIRA TUTELA

Essa diferença começou a diminuir no final do século XIX. Em 1895, durante uma disputa de fronteira entre a Venezuela e a Guiana Britânica, o secretário de Estado Richard Olney apresentou uma interpretação mais ambiciosa da Doutrina Monroe.

Washington já não aparecia apenas como defensor do continente contra uma possível recolonização europeia. Passava a reivindicar uma posição predominante nos assuntos do hemisfério.

Em 1904, Theodore Roosevelt foi além. Seu Corolário Roosevelt ampliou a Doutrina Monroe ao sustentar que os Estados Unidos poderiam intervir em países latino-americanos diante de instabilidade, crises financeiras ou dificuldades no pagamento de dívidas externas.

A lógica provocava uma inversão decisiva. Para impedir que a Europa interviesse, Washington reservava para si o direito de agir primeiro. Roosevelt chegou a falar em “poder de polícia internacional”. A defesa começava a ganhar contornos de tutela.

Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana conheceram os efeitos dessa política.

O Panamá tornou-se um dos casos mais emblemáticos. Em 1903, depois que a Colômbia rejeitou um acordo para a construção de um canal, navios americanos apoiaram o movimento separatista panamenho. O novo país logo assinou um tratado que assegurou aos Estados Unidos o controle de uma faixa estratégica em torno do futuro canal.

Durante a Guerra Fria, a lógica hemisférica encontrou um novo adversário: a União Soviética e a expansão do comunismo. Em 1954, uma operação da CIA contribuiu para derrubar Jacobo Árbenz na Guatemala. Em 1961, exilados cubanos treinados e financiados pelos Estados Unidos participaram da fracassada invasão da Baía dos Porcos. No ano seguinte, John Kennedy enfrentou Moscou durante a Crise dos Mísseis de Cuba.

No Brasil, os Estados Unidos acompanharam e apoiaram o movimento que derrubou João Goulart em 1964. No Chile, Washington atuou para enfraquecer Salvador Allende antes do golpe de 1973. Em outros países, manteve relações com regimes autoritários que apresentavam a repressão como parte do combate ao comunismo.

UMA EXCEÇÃO CHAMADA MALVINAS

Em 1982, a doutrina enfrentou um de seus episódios mais desconfortáveis. A Argentina ocupou as Ilhas Malvinas e a Grã-Bretanha respondeu enviando uma força naval ao Atlântico Sul.

À primeira vista, o conflito parecia colocar Washington diante da própria lógica proclamada desde 1823: uma potência europeia empregava força militar no hemisfério.

Mas os Estados Unidos ficaram ao lado de Londres, o seu principal aliado na Otan, fornecendo apoio de inteligência e de logística aos britânicos.

Para boa parte da América Latina, o episódio expôs os limites da velha fórmula. A Doutrina Monroe não funcionava como uma garantia automática oferecida aos países do continente. Era, antes de tudo, um instrumento da política externa dos Estados Unidos, interpretado de acordo com seus interesses estratégicos.

anúncio do fim e nova investida

Em novembro de 2013, diante da Organização dos Estados Americanos, o secretário de Estado John Kerry anunciou que “a era da Doutrina Monroe acabou”.

O discurso defendia uma relação entre iguais no continente e foi recebido ao redor do mundo como o encerramento simbólico de um capítulo de quase dois séculos. Parecia o fim.

Mas, 12 anos depois, a doutrina voltaria a fazer parte do vocabulário oficial de Washington. A contradição que atravessa a sua história permanecia intacta.

Uma política criada para impedir que potências estrangeiras determinassem os destinos das Américas passou, em diferentes momentos, a servir de argumento para a interferência dos próprios Estados Unidos no continente.

E aquilo que parecia enterrado pela história estava pronto para receber um novo nome.

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DOUTRINA MONROE

O QUE É
Política anunciada pelo presidente James Monroe que alertava as potências europeias a não colonizarem nem interferirem nas Américas. Em troca, os Estados Unidos não se envolveriam nas disputas da Europa.

OBJETIVO
Proteger a independência das novas nações americanas e manter as potências europeias afastadas do Hemisfério Ocidental.

A QUEM SE DIRIGIA
Às potências europeias, principalmente Espanha, Portugal, França e Grã-Bretanha.

O QUE NÃO AUTORIZAVA
A versão original não dava aos Estados Unidos o direito de intervir, invadir, derrubar governos ou escolher líderes na América Latina. Essa interpretação surgiria depois.

AO LONGO DO TEMPO
Com o crescimento do poder americano, a doutrina foi ampliada e passou a servir de argumento para intervenções e para a defesa da liderança dos Estados Unidos no continente.

 

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Dois séculos de poder

1823 - James Monroe declarou que as Américas não deveriam sofrer novas colonizações europeias. Qualquer avanço da Europa seria considerado uma ameaça à segurança dos EUA

1895 - Na disputa entre Venezuela e Guiana Britânica, Richard Olney ampliou a doutrina ao afirmar que os Estados Unidos tinham autoridade para intervir nas questões do continente.

1904 - Theodore Roosevelt reivindicou o direito de intervir em países latino-americanos sob o argumento de evitar crises e impedir a presença das potências europeias

1954–1973 - O combate ao comunismo justificou interferências dos Estados Unidos na Guatemala, em Cuba, no Brasil e no Chile, por meio da CIA e de pressões políticas.

2026 - Trump recuperou a Doutrina Monroe para reafirmar o domínio dos Estados Unidos e conter a presença da China, da Rússia e do Irã nas Américas.

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