À beira do Rio São Francisco, Luiz Carlos Barreto interrompe por um instante o trabalho para um retrato
Durante quase 15 anos, Luiz Carlos Barreto percorreu o Brasil e o mundo com uma câmera pendurada ao pescoço. Esteve onde a história acontecia. Registrou guerras, tragédias, crises políticas, chefes de Estado, artistas, atletas, trabalhadores, sertanejos e personagens anônimos, sempre com a mesma convicção: grandes histórias nascem do encontro entre o olhar atento e a realidade.
Foi assim que transformou a fotografia em muito mais do que um registro documental. Suas imagens ajudaram a contar o Brasil de uma época marcada por profundas transformações sociais, políticas e culturais.
Nenhuma dessas experiências, porém, marcaria o fim de sua trajetória no jornalismo.
O desfecho viria nas ruas do Rio de Janeiro.
Mesmo depois de se aproximar de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias, Barreto permaneceu ligado a “O Cruzeiro”. A aproximação com o cinema aconteceu de forma natural. Participava de projetos, convivia com a nova geração de cineastas e, ao lado de Lucy Barreto, dava os primeiros passos da produtora que se tornaria uma referência nacional. Ainda assim, continuava sendo, antes de tudo, um repórter.
Em 1964, durante a cobertura dos acontecimentos políticos na Cinelândia, presenciou uma cena que jamais esqueceria.
"Vi um oficial atirar na cabeça de um rapaz. Fotografei a cena."
Segundos depois, instalou-se a confusão. Policiais e militares avançaram contra quem registrava os acontecimentos. Sua câmera foi arrancada. Barreto acabou preso e, mais tarde, libertado. Pela primeira vez, o instrumento que durante anos lhe permitira testemunhar a história transformava-se no alvo daqueles que não queriam vê-la documentada.
Mesmo assim, voltou ao trabalho.
O rompimento definitivo ocorreria pouco tempo depois, durante a visita oficial do presidente francês Charles de Gaulle ao Brasil.
Barreto fotografava De Gaulle ao lado do presidente Castelo Branco. A diferença de altura entre os dois criava uma composição curiosa, quase irônica. Em busca de um enquadramento melhor, ultrapassou discretamente a linha de segurança.
Não conseguiu fazer outra fotografia.
Quatro soldados o agarraram e o lançaram violentamente sobre um canteiro da Cinelândia.
Foi naquele instante, entre a câmera caída e o chão, que percebeu que o jornalismo que aprendera nas ruas já não podia mais ser exercido da mesma forma.
"Não dá mais para fazer jornalismo neste país."
Recolheu os filmes, enviou-os para a redação de “O Cruzeiro” e nunca mais voltou.
Não houve carta de despedida, reunião ou pedido formal de demissão. Tampouco foi dispensado. Barreto costumava contar, com certo humor, que permaneceu durante muito tempo registrado em sua carteira profissional como repórter da revista. Sua saída aconteceu exatamente como vivera o jornalismo: sem solenidades, no meio da rua, depois de uma prisão, uma agressão e uma câmera arrancada das mãos.
O destino, entretanto, já apontava em outra direção.
Nos anos seguintes, Luiz Carlos Barreto ajudaria a construir uma das trajetórias mais importantes do cinema brasileiro. Atravessou o Cinema Novo, enfrentou a ditadura militar, sobreviveu às crises do setor, ao fim da Embrafilme e participou da retomada da produção nacional. Vieram novos filmes, novos parceiros e novos desafios.
O que jamais mudou foi o olhar.
O olhar formado na redação de “O Cruzeiro”, aperfeiçoado em milhares de quilômetros percorridos atrás da notícia e guiado pela certeza de que o Brasil podia ser compreendido a partir de sua gente.
Barreto deixou o jornalismo, mas nunca abandonou o fotojornalista que existia dentro dele. Levou para o cinema a mesma sensibilidade que aprendera nas ruas: observar antes de explicar, enxergar antes de interpretar e confiar que uma imagem, quando nasce da verdade, atravessa o tempo.
Naquele dia, na Cinelândia, arrancaram-lhe a câmera.
O olhar, porém, ninguém foi capaz de tomar.
Principais reportagens
1952
Luiz Carlos Barreto estreia na redação de reportagens com "Nasceu o Filho do Tenente Bandeira", sobre o famoso Crime do Citroën Negro, uma cobertura policial que já demonstrava seu interesse por acontecimentos de grande repercussão nacional.
1953
O ano revela a versatilidade do repórter. Barreto produz reportagens sobre turismo ("A Melhor das Ana Maria", nas praias do Ceará), concursos de beleza ("Miss Uruguai - 1953"), esportes ("Sururu no Maracanã"), política ("Lição de Democracia") e cultura, encerrando o ano com coberturas realizadas em Paris.
1954
Como correspondente na Europa, consolida sua atuação internacional. Destacam-se "Cannes", sobre o Festival de Cinema, a cobertura da Copa do Mundo da Suíça, o Festival de Veneza, além de reportagens sobre o existencialismo parisiense, Carmen Miranda, Gina Lollobrigida e a vida cultural francesa e italiana.
1955
Barreto alterna política, religião, indústria e cultura. Entre os destaques estão "Pio XII", realizada no Vaticano, "Operação Maxwell", acompanhando um cruzeiro de celebridades pela Europa, além de reportagens sobre Assis Chateaubriand, Volkswagen, Amália Rodrigues e o futebol argentino.
1956
O foco internacional permanece forte. Barreto cobre o casamento de Grace Kelly e Rainier de Mônaco, visita Portugal e Lourdes, registra Santos Dumont, Dorival Caymmi e o atleta Adhemar Ferreira da Silva, combinando comportamento, cultura e esporte.
1957
O olhar humano ganha força. O fotógrafo registra o pintor Pancetti, o tapeceiro Genaro de Carvalho, o compositor Capiba e produz uma de suas reportagens mais marcantes, "Quatorze Horas Sem Ver Mamãe", sobre o sequestro do menino Sérgio Haziot.
1958
Barreto divide-se entre grandes acontecimentos esportivos e temas sociais. Destacam-se a cobertura da conquista brasileira na Copa do Mundo da Suécia, Maria Esther Bueno, Roberto Rossellini, a morte de Pancetti e reportagens políticas.
1959
O futebol passa a ocupar espaço crescente em sua produção, com reportagens sobre Pelé, Didi, Heleno de Freitas e o Sul-Americano. Paralelamente, publica trabalhos sobre o Rio São Francisco, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e Nikita Kruschev.
1960
Um dos anos mais importantes de sua carreira. Barreto assina "Orós", considerada uma de suas grandes reportagens, acompanha a inauguração de Brasília, cobre a Conferência de Cúpula, a construção da estrada Acre-Brasília, as Olimpíadas de Roma e produz a reportagem "Côte d'Azur".
1961
A aproximação com o cinema torna-se evidente. Publica "Barravento Traz Luíza", sobre as filmagens do primeiro longa de Glauber Rocha, volta ao Açude Orós e dedica reportagens a Pelé, Garrincha, Genaro de Carvalho, Iúri Gagarin e à renúncia de Jânio Quadros.
1962
O futebol domina sua produção. Barreto acompanha a preparação da Seleção Brasileira, a Copa do Mundo do Chile, produz reportagens sobre Garrincha, Pelé, Vicente Feola e registra também Berlim dividida pelo Muro e a morte de Marilyn Monroe.
1963
O ano é marcado por duas grandes frentes: o aprofundamento da cobertura sobre Garrincha, em "O Que Foi Mesmo o Caso Garrincha", e o protagonismo do Santos de Pelé, além da visita oficial do marechal Tito ao Brasil.
1964
Barreto transita entre política, cinema e esporte. Produz reportagens sobre Brigitte Bardot, Maria D'Apparecida, a crise político-militar de 1964, o sucesso internacional de “Vidas secas” em Cannes, a visita de Charles de Gaulle ao Brasil e o drama final da carreira de Garrincha.
1965
A produção registrada para o ano resume-se à reportagem "Houve Racismo na Copa de 58", retomando os bastidores da conquista brasileira na Suécia e discutindo o preconceito racial no futebol.
1966
A relação encerra-se com duas reportagens produzidas na França: "De Gaulle x Mitterrand", sobre as eleições presidenciais francesas, e "Cannes 66 - Festival de Marmeladas", uma cobertura crítica do Festival de Cannes que dialoga diretamente com a reportagem que Barreto havia produzido 12 anos antes.