Durante a reportagem de Luiz Carlos Barreto em O Cruzeiro, o craque foi acompanhado de perto por médicos que avaliavam a lesão no joelho que ameaçava o drible que encantou o mundo. Mais do que o ídolo dos gramados, Barreto revelou o homem diante dos desafios da carreira
Antes de revolucionar a fotografia do cinema brasileiro, Luiz Carlos Barreto transformou o futebol em reportagem humana. Em O Cruzeiro, acompanhou a Copa do Mundo de 1950, documentou o retorno da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1958, contou a trajetória de Didi antes da transferência para o Real Madrid e seguiu Pelé e a Seleção no Campeonato Sul-Americano de 1959. Mas foi ao acompanhar a maior crise da carreira de Garrincha que revelou toda a força de seu jornalismo.
Publicada em 13 de abril de 1963, “O que foi mesmo o caso Garrincha”, assinada por A. N. e L. C. B., rompeu com o tom festivo que normalmente cercava o futebol. Em vez de celebrar dribles e vitórias, Barreto mergulhou nos bastidores da concentração do Botafogo para o confronto contra o Santos e mostrou um clube paralisado pela ausência de seu maior ídolo. A reportagem revelou um ambiente dominado pelo silêncio, pela apreensão e pela expectativa, onde Garrincha, mesmo distante, permanecia presente em cada conversa, em cada corredor e em cada olhar.
As fotografias e o texto transformaram a ausência do camisa 7 em um personagem invisível. Médicos, dirigentes, jogadores e jornalistas conviviam com o peso de uma crise que ultrapassava os gramados. Em um dos trechos mais marcantes, Zagallo descreve um Garrincha completamente diferente daquele conhecido pelo público:
“É, mas já na última excursão e nas concentrações o Mané era o mais triste. Vivia deitado, ouvindo música. Não sei o que é que está acontecendo com êle. Na excursão então você nem imagina. Chegava no quarto, pregava o retrato dela na parede, botava os discos na vitrola e parecia fora de tudo.”
Logo depois, a reportagem conduz o leitor aos minutos que antecedem a partida no Pacaembu. Enquanto o Botafogo desce para o vestiário, massagens são concluídas, uniformes são escolhidos e os jogadores caminham para o túnel. No entanto, a ausência de Garrincha pesa mais do que qualquer estratégia de jogo.
“São onze homens e uma ausência que entram em campo, ouvindo alguns raros aplausos que se distinguem do assovio maciço e penetrante que vem de todos os lados. Onze homens que cumpriram com honra e talento um compromisso difícil. ‘Se o Mané estivesse aí seria tudo mais fácil’.”
Outro momento emblemático surge na conversa entre Barreto e Nilton Santos. Enquanto analisa como marcar Pelé, o lateral reconhece que nenhuma tática compensaria a falta do companheiro:
“Ganhar a gente pode… Mas se o Mané estivesse aí seria muito mais fácil.”
Ao longo da reportagem, Barreto mostra que o drama de Garrincha extrapolava o futebol. Médicos, dirigentes e companheiros convivem com ressentimentos, boatos e um silêncio que ninguém consegue romper. Em vez de reforçar o mito, o fotojornalista revela um homem pressionado pela fama, pelas próprias escolhas e pelas exigências de um esporte que transformava seus heróis em patrimônio nacional.
Essa reflexão ganha força no desfecho da reportagem. Barreto e Antonio Nássara afirmam que Garrincha não era apenas responsável pela própria crise. Para eles, havia uma culpa coletiva: a de um país que transformara o menino de Pau Grande em um semideus, negando-lhe o direito de ser apenas um homem.
“Durante todo o tempo em que esteve no banco dos réus, Garrincha foi uma vítima. Quase um inocente. Sua maior culpa não é dêle: é nossa. Porque fomos nós, os jornalistas, os poetas, os patriotas de um país subdesenvolvido que fizemos dêle um herói nacional.”
A reportagem sustenta que o erro do craque começou quando deixou de ser visto como um menino simples para tornar-se um símbolo do país. O homem real foi substituído pela lenda, até descobrir que sua fama também tinha valor econômico e que podia cobrar por ela. Foi nesse momento, escrevem os autores, que o Brasil passou a enxergar o ídolo como um réu.
O encerramento amplia ainda mais essa crítica. Barreto e Nássara lembram que, em poucas semanas, dirigentes esqueceram tudo o que Garrincha fizera pelo Botafogo, apesar de o jogador ter enriquecido e honrado o clube durante uma década. O texto conclui que ele era apenas mais uma vítima de um futebol bicampeão do mundo dentro de campo, mas ainda administrado pela paixão e pelo amadorismo de seus dirigentes.
o lado mais humano do futebol brasileiro
Mais do que acompanhar partidas, Luiz Carlos Barreto documentou o lado mais humano do futebol brasileiro. Em suas páginas, os ídolos deixavam de ser apenas campeões para revelar dúvidas, dores e fragilidades. “O que foi mesmo o caso Garrincha”, publicada por O Cruzeiro em 13 de abril de 1963, permanece como uma das grandes reportagens do jornalismo esportivo brasileiro e um dos melhores exemplos da maturidade de Luiz Carlos Barreto como repórter e fotojornalista. Nela, texto e fotografia trabalham juntos para revelar não apenas o craque, mas o homem escondido atrás do mito.
“Durante todo o tempo em que esteve no banco dos réus, Garrincha foi uma vítima. Quase um inocente. Sua maior culpa não é dêle: é nossa. Porque fomos nós, os jornalistas, os poetas, os patriotas de um país subdesenvolvido que fizemos dêle um herói nacional.”
Luiz Carlos Barreto, O Cruzeiro, 13 de abril de 1963