Luiz Carlos Barreto documentou o

Luiz Carlos Barreto documentou o "casamento do século" de Grace Kelly e Rainier III

crédito: luiz carlos barreto/o cruzeiro

Entre 1952 e 1954, Luiz Carlos Barreto tornou-se correspondente de O Cruzeiro em Paris, posto que ampliou definitivamente seu alcance como repórter e fotojornalista. A partir da capital francesa, acompanhou alguns dos acontecimentos mais importantes da década de 1950 e consolidou um perfil incomum na imprensa brasileira. Em uma época em que redações separavam rigorosamente as funções, Barreto escrevia e fotografava as próprias reportagens. Em O Cruzeiro, quem dominava as duas atividades recebia pelos dois trabalhos e tinha preferência nas grandes coberturas internacionais. Ao lado de José Medeiros e Luciano Carneiro, integrou esse seleto grupo de jornalistas.

A versatilidade também o aproximou de Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados. "Ele era um gênio da raça", resumiria Barreto muitos anos depois. Ao lado de Medeiros e Carneiro, estava entre os profissionais que mais acompanhavam Chatô em suas viagens pelo exterior. Em depoimento ao Instituto Moreira Salles (IMS), recordou aquele período com simplicidade: "Eu, Medeiros e Carneiro éramos os que mais viajavam com ele. Nós viajamos pela Europa inteira."

A convivência se tornou ainda mais intensa quando Barreto assumiu a correspondência em Paris. Chateaubriand visitava frequentemente a cidade e, juntos, percorreram diferentes países. Para o jovem que começara a carreira como revisor em Fortaleza, aquelas viagens foram uma universidade. Museus, chefes de Estado, artistas, intelectuais, cidades históricas e acontecimentos internacionais passaram a fazer parte de sua rotina. Observava Chatô não apenas como patrão, mas como personagem complexo, imprevisível e visionário, capaz de transformar projetos aparentemente impossíveis em realidade.

Essa experiência consolidou Barreto entre os principais correspondentes internacionais de O Cruzeiro. Mais do que registrar acontecimentos, desenvolveu um fotojornalismo que privilegiava os bastidores, os gestos espontâneos e os instantes que escapavam ao protocolo. Seu interesse estava menos na solenidade dos eventos do que naquilo que acontecia quando as formalidades terminavam.

Em 1954, Barreto assinou o texto e as fotografias da cobertura do 7º Festival Internacional de Cinema de Cannes, produzindo uma das mais completas reportagens brasileiras sobre o maior evento cinematográfico do mundo. Frequentou áreas reservadas à imprensa, acompanhou estreias, recepções, julgamentos do júri e a movimentação dos grandes estúdios. Mas, em vez de reproduzir apenas o brilho das estrelas, preferiu mostrar as contradições de um festival que considerou abaixo das expectativas.

Logo nas primeiras linhas, escreveu que aquela edição “certamente não passará à história como das melhores”. Para ele, o principal erro havia sido antecipar o festival em quase um mês, decisão que “já não foi nada auspiciosa”. A consequência apareceu no clima: durante praticamente toda a programação, "o Sol brilhou só umas três ou quatro vezes", enquanto as águas do Mediterrâneo permaneceram geladas. O comentário mais lembrado da reportagem traduz bem sua ironia: "Um recorde foi batido neste VII Festival: ninguém tomou banho de mar; de água de colônia, certamente."

O olhar crítico estendeu-se à programação oficial. Dos 120 filmes apresentados por 36 países, Barreto escreveu que, “excetuando meia dúzia”, a maior parte poderia ser considerada medíocre. Destacou “A porta do inferno”, do Japão, “From here to eternity,” dos Estados Unidos, e “A grande aventura”, da Suécia, elogiado pela simplicidade e pela poesia. Também revelou os bastidores da competição, marcados por "filmes selecionados e retirados no último minuto", remontagens de última hora e disputas envolvendo a nacionalidade de diretores e produções.

Nem mesmo o cinema brasileiro escapou de sua análise. Depois da repercussão internacional de “O cangaceiro”, Barreto lamentou que o país tivesse desperdiçado a oportunidade de consolidar sua presença em Cannes. Criticou o desempenho de “Canto do mar” e “Naked Amazon” e registrou uma constatação dura: “Nada fizemos para defender o prestígio adquirido.” Chamou a atenção, ainda, para o fato de o Brasil ser praticamente o único participante sem estande destinado à divulgação de sua produção cinematográfica.

Enquanto escrevia sobre os filmes, Barreto também registrava a vida ao redor deles. Fotografou artistas distribuindo autógrafos, conversas discretas entre produtores, negociações de bastidores e a multidão que diariamente cercava a entrada do Hotel Carlton na expectativa de ver uma estrela. Ali, passaram diante de suas lentes nomes como Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Robert Mitchum e Jean Cocteau, presidente do júri daquele ano.

Ao encerrar a reportagem, resumiu o sentimento deixado pelo festival em frase de rara elegância: “Era a aurora para muitos, mas para os participantes do VII Festival de Cinema era realmente o crepúsculo.”

Em em 1954, Barreto deixou o posto de correspondente e retornou ao Brasil. Voltou à redação de O Cruzeiro já reconhecido como um profissional capaz de apurar, escrever e fotografar com a mesma qualidade. Mesmo quando trabalhava em pautas específicas da revista, mantinha o hábito de registrar cenas que não seriam publicadas: personagens anônimos, ruas, pequenos acontecimentos e flagrantes do cotidiano.

A pauta determinava o que chegaria às páginas da revista; a curiosidade definia o que permaneceria em seu arquivo pessoal.
Em 23 de julho de 1955, O Cruzeiro publicou "Pio XII: o cotidiano do homem mais poderoso da Igreja". Com texto do jornalista italiano Giorgio Vecchietti e fotografias de Luiz Carlos Barreto, a reportagem revelou momentos raramente vistos pelo público: as orações da manhã, audiências, reuniões de trabalho, passeios pelos jardins do Vaticano e até cenas nos aposentos particulares do pontífice. As imagens ajudaram a humanizar uma das figuras mais influentes do século 20 e demonstraram o prestígio internacional alcançado pelo fotógrafo brasileiro.

 

As musas Sophia Loren e Gina Lollobrigida eternizadas pelas lentes de Luiz Carlos Barreto em Cannes
As musas Sophia Loren e Gina Lollobrigida eternizadas pelas lentes de Luiz Carlos Barreto em Cannes luiz carlos barreto/o cruzeiro

Dois anos depois de deixar Paris, Barreto retornou à Europa em missão especial de O Cruzeiro para fotografar o casamento do príncipe Rainier III com Grace Kelly.

Publicada em 1956, com texto de David Nasser, a reportagem registrou não apenas a cerimônia, mas a transformação do pequeno Principado de Mônaco, tomado por chefes de Estado, membros da realeza, estrelas de Hollywood e milhares de curiosos que acompanharam aquele que seria conhecido como o “casamento do século”.

No mesmo período, assinou texto e fotografias de uma extensa reportagem sobre a Côte d'Azur. Percorrendo Cannes, Nice, Monte Carlo e Saint-Tropez, apresentou aos leitores brasileiros um retrato da Riviera Francesa que ia além do luxo. Suas imagens revelavam praias, cafés, marinas, hotéis e a intensa vida social do Mediterrâneo, mas também a rotina das cidades e a luminosidade característica da região. Produzida em cores, a reportagem antecipava um dos traços que marcariam sua carreira no cinema: a confiança na força expressiva da luz natural.

Em 19 de janeiro de 1957, O Cruzeiro publicou "Dalí revela a O Cruzeiro como imaginava o mundo do futuro". Com texto de Jacinto de Thormes e fotografias de Luiz Carlos Barreto, a reportagem levou os leitores à residência de Salvador Dalí, onde o artista falou sobre arte, ciência e tecnologia. Barreto registrou sua personalidade extravagante, os objetos que preenchiam a casa e desenhos produzidos especialmente para a revista, compondo um retrato raro de um dos maiores nomes da arte do século 20.

Embora cada reportagem tratasse de universos diferentes (Vaticano, Cannes, Mônaco, Riviera Francesa ou Salvador Dalí), Barreto perseguia sempre o mesmo princípio: encontrar a pessoa por trás do personagem. Mais do que fotografar celebridades, interessava-lhe revelar aquilo que acontecia quando os holofotes se apagavam. Essa combinação de acesso privilegiado, apuração rigorosa e sensibilidade documental fez dele um dos correspondentes internacionais mais respeitados de O Cruzeiro.

Décadas depois, o arquivo que alimentou tantas reportagens transformou-se no livro” Passagem – Memória visual”, lançado em 2021. Em vez de escrever autobiografia convencional, Barreto preferiu reconstruir sua trajetória por meio das fotografias que preservou durante toda a vida.

Naquelas imagens já conviviam o repórter e o cineasta. O jornalismo lhe ensinara a desconfiar da pose, a esperar o instante decisivo e a perceber que, muitas vezes, a verdadeira notícia está justamente naquilo que parece banal. Foi esse olhar, amadurecido nas redações e nas grandes coberturas internacionais, que anos depois revolucionaria a fotografia do cinema brasileiro ao levar para a tela a luz natural, os cenários reais e a força documental que se tornariam marcas de sua obra.

“o Sol brilhou só umas três ou quatro vezes. As tranquilas águas do Mediterrâneo jamais se aqueceram além de 8 graus. As vedetas em momento algum encontraram ânimo para vestir biquínis e descer à praia”

• Luiz Carlos Barreto, em O Cruzeiro, ao relatar o7º Festival de Cinema de Cannes, em 1954