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Era a redação mais vibrante do Brasil dos anos 1950. Entre máquinas de escrever, telefones tocando, fotógrafos revelando filmes e repórteres retornando de viagens pelo país, O Cruzeiro funcionava como uma usina de histórias.

Ali estavam “cobras criadas” do jornalismo brasileiro: repórteres, fotógrafos e editores forjados nas ruas, em longas viagens e diante de personagens improváveis. Profissionais que sabiam que, antes da técnica, era preciso ter olhar.

Sob a liderança de Assis Chateaubriand, os Diários Associados haviam criado uma revista que unia informação, fotografia, cultura e aventura. O Cruzeiro não apenas registrava o Brasil: revelava um país que ainda buscava se conhecer.

Foi nesse ambiente, cercado pelos grandes nomes da reportagem e da fotografia, que o jovem jornalista Luiz Carlos Barreto, vindo do Ceará, começou a construir o olhar que, anos depois, transformaria o cinema nacional.

Antes de levar a luz do sertão para as telas, Barreto aprendeu a enxergar o mundo nas ruas, nas redações e nas páginas de uma das maiores experiências jornalísticas do país.

“Barretão”, como ele era chamado, morreu em 22 de julho, aos 98 anos, em decorrência das complicações de uma pneumonia. Sua trajetória começou na adolescência,no jornal Democrata, em Fortaleza, como revisor e depois repórter. Ali descobriu o ofício de perguntar, investigar e contar histórias.

Mais tarde, no Rio de Janeiro, após passagem pela Companhia Siderúrgica Nacional, retornou à imprensa por meio de um concurso de reportagem da revista A Cigarra, dos Diários Associados, grupo que editava O Cruzeiro.

Ao lado de Indalécio Wanderley, que se tornaria um dos grandes nomes do fotojornalismo brasileiro, venceu a competição e chegou à redação de O Cruzeiro.

A Copa do Mundo de 1950 abriu o caminho: convocado para a cobertura do Mundial, Barreto passou a integrar uma das maiores equipes jornalísticas do país.

O Cruzeiro era uma máquina de comunicação sem paralelo. Com tiragem de 500 mil exemplares semanais, no Brasil de cerca de 52 milhões de habitantes, alcançava dimensão que Barreto comparava à televisão das décadas seguintes.

Mais do que revista ilustrada, criou uma nova linguagem. Texto, fotografia e design passaram a construir uma experiência única para o leitor.

Foi ali que a fotografia conquistou outro lugar no jornalismo brasileiro. O fotógrafo deixou de ser apenas quem “trazia o boneco” para acompanhar a reportagem. A imagem passou a ter o mesmo valor jornalístico do texto.

A foto passou a informar, revelar e conduzir a história. Repórter e fotógrafo passaram a construir juntos a narrativa.

Dentro da redação, conviviam diferentes escolas. De um lado, Jean Manzon e a fotografia construída, marcada pela encenação e pelo controle da luz. De outro, José Medeiros e Luciano Carneiro, defensores de um olhar mais próximo da realidade, influenciado pelo documentarismo de Henri Cartier-Bresson.

Foi nesse ambiente que Barreto se formou. Começou como repórter de texto, aproximou-se da fotografia e descobriu a força da imagem como linguagem.

Nas viagens, coberturas e contatos com personagens brasileiros e estrangeiros, desenvolveu a percepção que levaria para o cinema.

Em apenas dois anos dentro da revista, Barreto conquistou reconhecimento suficiente para receber uma das missões mais cobiçadas do jornalismo da época: tornar-se correspondente de O Cruzeiro na Europa.

Aquele jovem jornalista que havia começado no Ceará agora seria enviado para o mundo.

Anos depois, ao se lembrar daquela fase, resumiu o significado daquela escola:

“A minha universidade foi a revista O Cruzeiro. Eu só estudei até o terceiro ano ginasial. Tudo o que aprendi sobre o mundo, sobre o Brasil e sobre jornalismo foi ali.”

Sua câmera, que depois revelaria personagens de ficção, havia aprendido antes a observar pessoas reais nas ruas do Brasil.

Foi na redação de O Cruzeiro, entre os grandes mestres da reportagem e da fotografia, que Luiz Carlos Barreto formou o olhar que o levaria muito além do jornalismo e o consagraria com o patriarca do cinema nacional.