O tempo levou seus personagens. Barreto Pinto, David Nasser e Jean Manzon ficaram na história, assim como O Cruzeiro, uma das publicações mais marcantes do Brasil. Mas a força daquela reportagem permaneceu
A reportagem foi publicada em junho de 1946, mas a perda do mandato só ocorreu em maio de 1949. Entre uma data e outra, o escândalo fotográfico transformou-se em disputa política e inaugurou a discussão brasileira sobre decoro parlamentar
A imagem de Barreto Pinto vestido de fraque e cueca provocou repercussão imediata, mas não produziu uma cassação automática. O deputado continuou exercendo seu mandato por quase três anos. A distância entre a publicação e a punição é importante: demonstra que a Câmara não agiu apenas sob o impacto das bancas.
Quando O Cruzeiro publicou “Barreto Pinto sem máscara”, o Brasil vivia um período de reconstrução democrática. A ditadura do Estado Novo havia terminado em outubro de 1945. A Assembleia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro de 1946, preparava uma nova Carta para reorganizar as instituições, devolver direitos políticos e definir os limites dos poderes da República.
A Constituição foi promulgada em 18 de setembro de 1946. Seu artigo 48 previa a perda do mandato do deputado ou senador cujo procedimento fosse considerado incompatível com o decoro parlamentar. A decisão exigia o voto de dois terços dos integrantes da respectiva Casa.
A expressão “decoro parlamentar” não vinha acompanhada de uma relação detalhada de comportamentos proibidos. Cabia aos próprios congressistas avaliar se determinada conduta atingia a honra, a dignidade e a respeitabilidade do mandato.
Barreto Pinto tornou-se o primeiro grande caso submetido a esse julgamento.
Para os defensores da cassação, o deputado havia exposto não apenas o próprio corpo, mas a instituição parlamentar ao ridículo. Ao permitir que uma revista de circulação nacional o mostrasse em roupa íntima, teria demonstrado falta de consciência sobre a solenidade do cargo.
A defesa poderia argumentar que a sessão ocorreu em ambiente privado, que o parlamentar havia sido explorado pelos jornalistas e que a retirada de um mandato popular exigia motivo mais grave do que uma fotografia. Também pairava sobre o processo a disputa política da época. Barreto Pinto era ligado ao PTB, ao getulismo e à oposição ao governo de Eurico Gaspar Dutra.
No dia 27 de maio de 1949, a Câmara aprovou a perda do mandato. A decisão foi formalizada pela Resolução nº 22. O documento, redigido na linguagem seca dos atos oficiais, declarou perdido o mandato de Edmundo Barreto Pinto, representante do PTB pelo Distrito Federal, com fundamento no artigo 48 da Constituição.
A resolução não mencionava a cueca, o fraque, O Cruzeiro, David Nasser ou Jean Manzon. A imagem, no entanto, estava no centro da memória pública sobre o processo.
A reportagem havia realizado uma espécie de julgamento antecipado. Em suas páginas, o deputado era apresentado como um homem vaidoso, oportunista, indiferente ao eleitor, próximo de interesses contraditórios e disposto a transformar a política em espetáculo.
As legendas funcionavam como acusações. Na banheira, ele seria alguém que mudava conforme a conveniência. Na praia, um “atleta de barriga mole”. Em casa, fingiria amizade com os trabalhadores. Vestido de gala, beberia à própria saúde e divertiria o povo sem compreender que era o alvo da diversão.
A frase da página 15 encerrou simbolicamente o caso antes de a Câmara se pronunciar: “O deputado Barreto Pinto enfrenta a posteridade.”
Ele de fato a enfrentou. Depois da cassação, nunca conseguiu se separar daquela fotografia. Voltou a exercer mandato por curto período como suplente, mas sua trajetória política permaneceu submetida ao escândalo de 1946.
Barreto Pinto morreu em 30 de março de 1972. David Nasser morreu em 1980. Jean Manzon, em 1990. O Cruzeiro, que durante décadas foi uma das publicações mais influentes do país, encerrou sua circulação. A imagem, contudo, sobreviveu a todos.
Ela reaparece em livros, exposições, pesquisas acadêmicas e reportagens sobre ética parlamentar. Também serve de comparação sempre que o Congresso analisa denúncias muito mais graves contra deputados e senadores.
O episódio continua provocando desconforto porque não oferece uma conclusão simples. Barreto Pinto colaborou com sua exposição e demonstrou extraordinária falta de percepção. Nasser e Manzon, por sua vez, usaram o poder da imprensa para transformar um homem em caricatura, sem lhe oferecer qualquer possibilidade real de defesa.
A reportagem modernizou o fotojornalismo, mas também mostrou sua capacidade de destruir reputações. A Câmara inaugurou a punição por quebra de decoro, mas deixou aberta a discussão sobre os limites entre comportamento privado, imagem pública e disputa partidária.
O homem desapareceu. O personagem permaneceu de pé, diante da câmera, com uma mão na cintura, fraque sobre os ombros e as pernas descobertas.
Oito décadas depois, Barreto Pinto ainda enfrenta a posteridade.