"Flagrante histórico: o deputado Barreto Pinto enfrenta a posteridade"
A reportagem segue pelas páginas. depois de acompanhar Barreto Pinto pela banheira, pela praia e pelos cômodos de seu apartamento, o leitor finalmente encontrava a imagem que entraria para a história.
O deputado aparece em pé, ligeiramente voltado para o lado. Usa casaca escura, camisa branca, gravata, colete, sapatos sociais e uma ampla cueca samba-canção. Uma das mãos está apoiada na cintura. A outra repousa ao lado do corpo. Próximo a ele, sobre uma pequena coluna, há um busto feminino. O fundo escuro e a iluminação lateral ajudam a produzir uma atmosfera de retrato oficial.
No canto superior direito, a revista apresenta a sentença visual: “Flagrante histórico: o deputado Barreto Pinto enfrenta a posteridade.”
A palavra “flagrante” era enganosa. Nada indicava surpresa. Barreto Pinto estava posicionado diante da câmera, com o corpo ereto e o olhar voltado para fora do quadro. As fotografias anteriores mostravam que ele havia vestido o traje, caminhado pelo apartamento, manipulado garrafas e repetido diferentes poses.
O que existia era uma encenação. A genialidade e também a malícia do trabalho de Jean Manzon estavam em produzir uma imagem posada com aparência de revelação espontânea. O deputado colaborou com a cena; o fotógrafo decidiu como ela seria eternizada.
Barreto Pinto alegaria que fora enganado e que acreditava que as fotografias seriam enquadradas apenas da cintura para cima. A versão é coerente com a possibilidade de o parlamentar ter aceitado vestir a parte superior do traje sem imaginar que suas pernas também apareceriam. Contudo, a reportagem apresenta imagens de corpo inteiro em diferentes posições, o que dificulta a ideia de que ele jamais tenha percebido o enquadramento.
Jean Manzon negou fraude. A existência de uma sequência de negativos e de diversas fotografias da mesma sessão reforçava a tese de que não houve montagem material da imagem. O conflito estava em outro ponto: o deputado compreendia o uso editorial que seria feito das poses?
Provavelmente, não.
Manzon dominava uma linguagem fotográfica moderna, desenvolvida nas revistas ilustradas europeias. Sabia que uma única imagem poderia resumir uma personalidade e dizer mais que o texto que a acompanhava. A combinação do fraque com a cueca oferecia um contraste quase perfeito: solenidade e intimidade, autoridade e vulnerabilidade, aparência pública e exposição privada.
David Nasser compreendeu imediatamente a força simbólica daquela composição. O título “sem máscara” ganhava ali seu sentido definitivo. Para a revista, as roupas formais representavam o papel desempenhado pelo político; a cueca revelaria o homem real escondido sob a aparência respeitável.
A construção era poderosa, mas não necessariamente justa. Uma roupa não comprovava corrupção, abuso de poder ou desonestidade. A fotografia permitia, porém, que o público associasse o ridículo pessoal à indignidade política.
Esse deslocamento seria decisivo para o futuro de Barreto Pinto. Ele não havia sido apanhado cometendo crime ou negociando vantagens. Tinha permitido que a câmera registrasse uma pose considerada incompatível com a imagem esperada de um parlamentar.
Em uma sociedade mais formal e conservadora, a exibição das pernas e da roupa íntima masculina em uma revista nacional causava impacto. Ainda mais quando o retratado integrava a Assembleia responsável por escrever a nova Constituição brasileira. A legenda falava em posteridade. O termo poderia parecer apenas mais uma ironia de Nasser. O tempo, porém, daria razão à revista. O deputado seria lembrado muito menos por seus discursos e posições políticas do que por aquela fração de segundo cuidadosamente produzida.
A fotografia não apenas documentou Barreto Pinto. Virou sua biografia.