"Chamam-me palhaço, chamam-me bobo do rei, mas enquanto isto vou vivendo com fartura e riqueza’’

crédito: Arquivo

A casa de Barreto Pinto não aparece em O Cruzeiro apenas como cenário. Cada cômodo, objeto e visitante foram usados por David Nasser e Jean Manzon para ampliar o personagem iniciado na banheira e desenvolvido na praia.

Em uma das imagens, o deputado surge sem camisa, apertando a mão de um jovem, enquanto outros homens acompanham a cena. A legenda começa com uma ordem irônica:
“Finja-se amigo dos marmiteiros.”

A expressão fazia referência aos trabalhadores que levavam comida em marmitas e formavam parte importante do eleitorado urbano. A revista afirma que Barreto Pinto teria recebido cerca de 600 votos e acrescenta que ele não abria as cartas de seus “raríssimos eleitores”, nem se interessava pelos problemas do povo.

A acusação era grave. Sem apresentar documentação ou depoimentos, a legenda convertia uma cena doméstica em demonstração de desprezo social. O aperto de mão deixava de representar proximidade e passava a simbolizar fingimento.

Na parte inferior da mesma página, Barreto Pinto aparece deitado em uma cama ornamentada. Acima da cabeceira, vê-se um brasão. A legenda informa:
“No leito da Marquesa de Santos.”

O texto afirma que ali teriam dormido “príncipes, doges” e o próprio deputado. A associação com a Marquesa de Santos — figura ligada à corte de dom Pedro I — reforçava a imagem de luxo, teatralidade e pretensão aristocrática. A revista sugeria que Barreto Pinto vivia cercado por objetos que lhe permitiam fantasiar uma importância maior do que a alcançada na política.

Ao lado, o parlamentar segura um boneco. A legenda o chama de: “O palhaço queremista.”

O queremismo foi o movimento que, em 1945, defendeu a permanência de Getúlio Vargas no poder e a convocação de uma Constituinte sob sua liderança. Barreto Pinto era identificado com o getulismo. Ao apresentar um palhaço como objeto político, a reportagem aproximava sua militância de uma encenação grotesca.

A legenda dizia que o boneco havia sido fabricado em São Paulo e reproduzia uma frase atribuída ao personagem: “Chamam-me palhaço, chamam-me bobo do rei, mas enquanto isto vou vivendo com fartura e riqueza”. O conteúdo reforçava o argumento central da matéria: o deputado seria alguém disposto a aceitar o ridículo desde que obtivesse vantagens.

Na página 14, a sequência do traje de gala começa a ganhar forma. Em uma foto grande, Barreto Pinto aparece de costas, usando a casaca, sapatos e meias, mas deixando as pernas expostas. A legenda lança novo ataque: “Sua elegância masculina é admirável, desafia Brummel, o talhe é perfeito.”

A referência era a Beau Brummell, célebre figura britânica associada à elegância masculina. O elogio, evidentemente, era falso. A frase existia para aumentar o contraste entre a formalidade da casaca e a ausência das calças.

Em outra fotografia, o deputado aparece segurando uma garrafa. A revista afirma que ele veste “a casaca das grandes cerimônias” e se dirige à garrafa de champanhe. O parlamentar, diz a legenda, beberia à saúde de si mesmo, da vitória de seus princípios, da própria justiça e da falta de princípios dos adversários.

Na imagem inferior, ele manipula outra garrafa. A legenda o apresenta como “o atleta Barreto Pinto” e afirma que, para atender aos leitores, ele se submeteria a uma reportagem movimentada. O texto conclui que, ali na hora exata em que beberia champanhe à saúde, ele estaria “divertindo o povo”.

A expressão é reveladora. Barreto Pinto talvez imaginasse que divertia o público por simpatia e espontaneidade. A revista O Cruzeiro o apresentava como um homem inconsciente de que o espetáculo ocorria às suas custas.

Além do texto, o designer das páginas demonstram como a reportagem misturava observação, encenação e ataque político. Não bastava mostrar o deputado sem calças. Era necessário preparar o leitor para considerar aquela imagem a consequência natural de sua personalidade.

A casa, a cama, o boneco e as garrafas funcionavam como peças de uma acusação não formalizada. Nasser não oferecia defesa nem contraditório. Manzon não buscava neutralidade. Ambos construíam uma narrativa fechada, na qual cada elemento da intimidade de Barreto Pinto confirmava aquilo que a revista já havia decidido sobre ele.

A máscara prometida no título não era retirada de uma única vez. Era arrancada página por página.