"Na banheira, cuidando das urticárias, o deputado Barreto Pinto atende às ligações. Ora é um correligionário político, ora é uma bailarina que anda mal de vida, ora é um candidato a emprego"
Edmundo Barreto Pinto não era uma das estrelas da Assembleia Nacional Constituinte instalada em fevereiro de 1946. Não comandava bancada, não liderava os grandes debates e tampouco figurava entre os principais formuladores da nova Constituição. Sua presença na Câmara estava ligada à força eleitoral de Getúlio Vargas e às regras do sistema proporcional. O ex-presidente concorrera a diferentes cargos e ajudara a eleger candidatos do recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB. Quando optou por um dos mandatos conquistados, abriu caminho para a convocação de suplentes. Barreto Pinto foi um deles.
Nascido em Vassouras, no estado do Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1900, ele já havia passado pelo Parlamento. Entre 1935 e 1937, exerceu mandato como deputado classista, representando funcionários públicos. A experiência terminou quando Vargas implantou o Estado Novo, fechou o Congresso e suprimiu as instituições democráticas. Com a redemocratização, Barreto Pinto reapareceu ligado ao trabalhismo e à imagem política do próprio Getúlio.
Em 1946, porém, o parlamentar ainda era praticamente desconhecido fora dos círculos políticos. Isso começou a mudar quando recebeu em seu apartamento, na Avenida Atlântica, em Copacabana, dois dos profissionais mais influentes da imprensa brasileira: o repórter David Nasser e o fotógrafo francês Jean Manzon.
A reportagem da revista O Cruzeiro, publicada em 29 de junho daquele ano, já anunciava sua intenção no título: “Barreto Pinto sem máscara”. Na primeira página, Manzon mostrou o deputado dentro de uma banheira, com o telefone encostado ao ouvido. O corpo estava parcialmente submerso, mas o rosto se voltava diretamente para a câmera. Não havia surpresa. Era uma cena produzida.
A legenda deixava claro que o objetivo não era apenas documentar a rotina do parlamentar:
“Na banheira, cuidando das urticárias, o deputado Barreto Pinto atende às ligações. Ora é um correligionário político, ora é uma bailarina que anda mal de vida, ora é um candidato a emprego.”
A frase seguia em tom de julgamento, afirmando que Barreto Pinto se multiplicava “conforme a situação e conforme a sua conveniência”. Antes mesmo de o texto principal começar, a revista entregava ao leitor uma interpretação pronta: o homem fotografado seria um político disponível para qualquer papel, desde que isso lhe trouxesse vantagens.
Ao lado da abertura, um retrato menor identificava o personagem como “Barreto Pinto, o amigo de Getúlio”. Era uma referência calculada. Em 1946, Vargas estava afastado do poder, mas permanecia como a principal figura do trabalhismo e como personagem central da política nacional. Aproximar Barreto Pinto de Getúlio ajudava a ampliar o alcance da reportagem.
David Nasser iniciou o perfil descrevendo o apartamento e a atmosfera da casa. Em lugar de um gabinete austero, apresentou ao leitor um ambiente perfumado, carregado de objetos, personagens e histórias. Uma das primeiras frases dizia:
“O perfumado ‘boudoir’ de Barreto Pinto, na Avenida Atlântica nº 200, começa, de fato, na antiga sala de visitas dessa casa de pensão.”
A palavra francesa boudoir, associada a um aposento íntimo e requintado, era usada para ironizar o gosto do deputado. Nasser não estava simplesmente relatando. Desde a primeira linha, selecionava detalhes destinados a construir uma figura extravagante, vaidosa e pouco compatível com a solenidade de um representante da nação.
A reportagem percorreria 11 páginas. Barreto Pinto seria mostrado na banheira, na praia, no quarto, entre objetos de decoração e vestido apenas com parte de um traje de gala. A fotografia mais famosa ainda estava por vir, mas o personagem já havia sido definido.
Antes de enfrentar a posteridade de cueca, o deputado começava a ser despido pelo texto.