Pelé é o único jogador da história a conquistar a Taça Jules Rimet três vezes: em 1958, 1962 e 1970 -  (crédito: Arquivo)

Pelé é o único jogador da história a conquistar a Taça Jules Rimet três vezes: em 1958, 1962 e 1970

crédito: Arquivo

A notícia atravessou o país na manhã de 20 de dezembro de 1983. Durante a madrugada, ladrões haviam levado da sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Centro do Rio de Janeiro, a Taça Jules Rimet, símbolo máximo da história do futebol brasileiro e patrimônio conquistado em definitivo após o tricampeonato mundial de 1970.

Nas horas seguintes ao crime, ex-jogadores, dirigentes e personagens da trajetória da Seleção foram procurados pela imprensa. As declarações dadas naquele dia ajudam a reconstruir não apenas o impacto do roubo, mas a dimensão simbólica da perda.

Entre todas as reações, nenhuma tinha peso maior do que a de Pelé. Principal nome das três conquistas que garantiram a posse definitiva do troféu, o Rei do Futebol ainda acreditava na possibilidade de recuperação da peça.

Em entrevista concedida no dia seguinte ao desaparecimento, preferiu dirigir-se diretamente aos criminosos. “Se eu tivesse de fazer algum apelo, pediria que os ladrões a devolvessem.” Era um pedido simples, mas carregado de significado. Para Pelé, a Jules Rimet ultrapassava o valor material do ouro. Era a representação física de uma conquista construída por gerações de jogadores e compartilhada por milhões de brasileiros.

Bellini, capitão da seleção campeã de 1958, enxergava a situação de forma diferente. Enquanto o país ainda tentava entender o que havia acontecido, ele já demonstrava pouca esperança na recuperação do troféu.

“Tenho certeza de que nunca mais vou ver a Taça Jules Rimet. Com a facilidade de hoje, onde em cada esquina há uma tabuleta anunciando a compra de ouro, quem roubou vai derretê-la, se já não negociou o ouro.”

A frase, publicada quando as investigações estavam somente começando, acabaria se transformando em uma das previsões mais lembradas de toda a história do caso.

Para Zagallo, a perda tinha uma dimensão pessoal. Ele participou diretamente das três campanhas que garantiram a posse definitiva da taça ao Brasil: como jogador, em 1958 e 1962, e como técnico em 1970. A reação foi imediata. “Meu Deus, que vergonha! O que vão pensar da gente no exterior?”

Pouco depois, refletindo sobre o significado do desaparecimento, resumiu o sentimento de uma geração inteira. “Aquela taça foi conquistada com sangue, suor e lágrimas. Era um grande orgulho do povo brasileiro.”


COMOÇÃO GERAL


Carlos Alberto Torres, capitão da Seleção de 1970 e responsável por erguer o troféu diante do mundo no Estádio Azteca, no México, soube do roubo a milhares de quilômetros de distância. Estava em Nova York (EUA) quando recebeu a notícia. “Eu estava visitando o Cosmos quando um funcionário do clube me contou que haviam roubado a Jules Rimet. Eu tomei um baita susto.”

Apesar do choque, procurou separar o objeto da conquista. “A conquista, em si, ninguém nunca vai conseguir roubar.”

A observação transformou-se, com o passar dos anos, em uma das frases mais emblemáticas associadas ao desaparecimento da taça.

Carlos Alberto Parreira também demonstrou tristeza diante da notícia. Para ele, o roubo representava mais do que a perda de um troféu. “Foi uma perda irreparável para o futebol brasileiro. Representava muito para todos nós.”

Enquanto ex-jogadores lamentavam o desaparecimento, o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, enfrentava questionamentos sobre a segurança do local onde a Jules Rimet era mantida.

Em meio às críticas, respondeu de forma direta: “Depois que o roubo acontece é fácil dizer que a taça poderia estar em outro lugar.”

As palavras revelavam o clima daqueles dias. O país tentava compreender como o objeto mais importante de sua história esportiva havia desaparecido com tamanha facilidade.

Quatro décadas depois, as entrevistas concedidas naquele dezembro permanecem como um retrato preciso do momento em que o Brasil percebeu que havia perdido algo maior do que uma taça.

Nas falas de Pelé, Bellini, Zagallo, Carlos Alberto Torres, Parreira e Giulite Coutinho estão registrados a esperança, o pessimismo, a indignação, a tristeza e a perplexidade que tomaram conta do país.

“Se eu tivesse de fazer algum apelo, pediria que os ladrões a devolvessem”

No dia seguinte ao roubo da Taça Jules Rimet, Pelé manifestou sua tristeza com a ocorrência e tentou sensibilizar os envolvidos. A declaração do Rei causou emoção pelo país, mas não mudou o destino misterioso do troféu