"Aqui, as pessoas dizem antes ou depois da guerra ao se referirem a 1986. E agora dizem que já estamos vivendo a segunda guerra da nossa geração", Nikolai Soloviov, sobrevivente do desastre de Chernobyl

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Quatro décadas depois da explosão que transformou Chernobyl em símbolo global de desastre, a história de Nikolai Soloviov revela como o passado e o presente se entrelaçam na Ucrânia. Mecânico de turbinas na noite de 26 de abril de 1986, ele testemunhou o caos imediato da tragédia nuclear e, hoje, enfrenta os efeitos de uma nova guerra, iniciada com a invasão russa em 2022. Entre radiação e bombardeios, sua trajetória expõe o impacto contínuo de dois conflitos que moldaram uma mesma vida.

Na noite da explosão, Soloviov estava na unidade 2 da usina e lembra que não ouviu o estrondo, mas sentiu o impacto. “Senti como se fosse um terremoto. As turbinas continuaram girando, um barulho muito forte.” Ao se aproximar do reator destruído, encontrou colegas em estado grave. Alguns vomitavam, outros estavam caídos. “Eu vi o céu através do buraco”, relata.

Naquele cenário, bombeiros tentavam conter o incêndio sem saber que estavam expostos a níveis letais de radiação. Muitos morreriam dias depois. Entre os trabalhadores, a percepção da morte iminente era rápida. “Duas semanas”, disse um colega sobre o tempo de vida que restava. Soloviov lembra que voltou a fumar naquela manhã. “Melhor morrer jovem e bonito”, comenta hoje, em tom irônico.

Apesar da gravidade, a rotina em Pripyat seguia aparentemente normal nas primeiras horas. Moradores circulavam pelas ruas enquanto caminhões lavavam as calçadas com produtos químicos. O silêncio das autoridades marcou os dias seguintes. “A direção insistiu no teste para agradar os soviéticos”, afirma, ao relembrar as decisões que antecederam o acidente.

Soloviov continuou trabalhando na usina nos anos seguintes, participou das operações de contenção e viu colegas morrerem ao longo do tempo. Dos 22 trabalhadores de sua equipe naquela noite, apenas quatro continuam vivos. Ele atribui sua sobrevivência à saúde, ao estilo de vida e ao que chama de “bons genes”.

Quatro décadas depois, a experiência daquele 26 de abril ganhou um novo significado. “Aqui, as pessoas dizem antes ou depois da guerra ao se referirem a 1986. E agora dizem que já estamos vivendo a segunda guerra da nossa geração”, afirma.

A nova guerra chegou em 2022, quando tropas russas ocuparam a região de Chernobyl por semanas. O local voltou a ser associado ao risco de um novo desastre. Drones passaram a sobrevoar a área e estruturas da usina foram novamente ameaçadas. “Isso é a outra guerra”, resume.

O impacto também atingiu sua família. Seu filho mais novo se alistou no exército ucraniano e desapareceu em combate em 2023. A perda transformou o cotidiano do sobrevivente, que decidiu se aposentar.

Hoje, vivendo próximo a Slavutich, cidade criada para abrigar os evacuados da usina, Soloviov vê a história se repetir sob outra forma. A radiação invisível deu lugar ao ruído constante da guerra, mas a sensação de ameaça permanece. Para ele, não são episódios isolados, mas capítulos de uma mesma trajetória marcada pela sobrevivência. (com AFP)

Retratos exibidos ao lado de flores em um memorial às vítimas de Chernobyl, no 40º aniversário
Retratos exibidos ao lado de flores em um memorial às vítimas de Chernobyl, no 40º aniversário AFP
 

“O mundo não pode permitir que esse terrorismo nuclear continue, e a melhor maneira de impedi-lo é forçar a Rússia a interromper os seus ataques imprudentes”

Em mensagem nas redes sociais no 40º aniversário da tragédia de Chernobyl, neste domingo, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que, com a invasão iniciada em 2022, a Rússia está “mais uma vez levando o mundo à beira de um desastre provocado pelo homem”. “O mundo não pode permitir que esse terrorismo nuclear continue, e a melhor maneira de impedi-lo é forçar a Rússia a interromper os seus ataques imprudentes”, acrescentou. Ele ainda enfatizou que drones russos sobrevoam regularmente a área da usina, e que um deles chegou a colidir com a estrutura de proteção do reator no ano passado  – episódio que reacendeu o alerta internacional sobre os riscos nucleares em meio ao conflito com Vladimir Putin.