Entre a fé e o perigo - Um crucifixo se ergue diante do símbolo da radiação em Pripyat, um contraste que resume o que restou: a tentativa humana de encontrar sentido diante de um território ainda marcado pela ameaça invisível. Quarenta anos depois, o risco não desapareceu -  (crédito: AFP)

Entre a fé e o perigo - Um crucifixo se ergue diante do símbolo da radiação em Pripyat, um contraste que resume o que restou: a tentativa humana de encontrar sentido diante de um território ainda marcado pela ameaça invisível. Quarenta anos depois, o risco não desapareceu

crédito: AFP

O cenário é de um filme de terror, apocalíptico, digno de uma superprodução de Hollywood que imagina o mundo após uma guerra nuclear; mas lá não há efeitos especiais, não há trilha sonora, não há roteiro. Há silêncio real, concreto, permanente. A paisagem lembra, e em muitos aspectos supera, a cena clássica de Planeta dos Macacos, quando o astronauta George Taylor, interpretado por Charlton Heston, caminha cambaleando por um vale proibido que se abre para uma praia deserta, até que, ao longe, surge algo impossível, a silhueta da Estátua da Liberdade parcialmente soterrada, inclinada, consumida pelo tempo. Ele se aproxima devagar, como quem não quer acreditar no que vê, até cair de joelhos diante do monumento destruído, gritando em desespero ao compreender que não está em outro planeta, mas na própria Terra, devastada pela ação humana, num dos finais mais simbólicos e perturbadores da história do cinema.

Em Pripyat, a sensação é semelhante, mas mais incômoda, porque ali não há metáfora, não há ficção, não há distância segura entre o espectador e a tragédia. O cenário pode ser observado nas imagens que ilustram esta reportagem: prédios descascados, salas de aula abandonadas, brinquedos espalhados pelo chão e a roda-gigante enferrujada que nunca chegou a funcionar.

Em Pripyat, na Ucrânia, o tempo não passou, ele foi interrompido; quarenta anos depois, a antiga cidade soviética, criada para ser símbolo de progresso, tornou-se um dos retratos mais contundentes do abandono humano no mundo contemporâneo. Fundada em 1970, Pripyat foi construída para abrigar trabalhadores da usina nuclear de Chernobyl e planejada com infraestrutura moderna para os padrões da época; rapidamente se consolidou como modelo urbano da União Soviética, reunindo cerca de 49 mil habitantes, com escolas, hospital, centros culturais, supermercados e até um parque de diversões que simbolizava a promessa de uma vida confortável e estável.

A população era jovem, com idade média em torno de 26 anos, e vivia sob a lógica de um futuro garantido pelo avanço tecnológico; Pripyat representava o ideal soviético de desenvolvimento, uma cidade funcional, organizada e voltada para o amanhã.

Esse futuro, no entanto, durou pouco: na madrugada de 26 de abril de 1986, durante um teste de segurança, o reator 4 explodiu, dando início ao desastre de Chernobyl, considerado o maior acidente nuclear da história; a explosão lançou uma nuvem radioativa que rapidamente se espalhou pela região, atingindo diretamente a cidade.

Apesar da gravidade, os moradores não foram informados imediatamente; por horas, a vida seguiu aparentemente normal, com crianças brincando ao ar livre e famílias caminhando pelas ruas, sem saber que estavam sendo expostas a níveis perigosos de radiação.

A evacuação só começou no dia seguinte e foi anunciada como temporária, mas se revelou definitiva; em cerca de 36 horas, quase 49 mil pessoas deixaram a cidade com a orientação de levar apenas o essencial, acreditando que voltariam em poucos dias, o que nunca aconteceu.

Casas ficaram intactas, com mesas postas, roupas nos armários e brinquedos espalhados; Pripyat foi abandonada às pressas, congelando um cotidiano que jamais seria retomado.

Entre a fé e o perigo - Um crucifixo se ergue diante do símbolo da radiação em Pripyat, um contraste que resume o que restou: a tentativa humana de encontrar sentido diante de um território ainda marcado pela ameaça invisível. Quarenta anos depois, o risco não desapareceu
Entre a fé e o perigo - Um crucifixo se ergue diante do símbolo da radiação em Pripyat, um contraste que resume o que restou: a tentativa humana de encontrar sentido diante de um território ainda marcado pela ameaça invisível. Quarenta anos depois, o risco não desapareceu AFP


Ruínas e restrições

Nos anos seguintes, a deterioração se impôs: saques, ação do tempo e ausência de manutenção transformaram o espaço urbano em ruínas, incorporadas à zona de exclusão criada para restringir o acesso humano devido à contaminação.

Quarenta anos depois, Pripyat permanece sem moradores permanentes; a presença humana é limitada e controlada, com cientistas, técnicos e equipes de segurança atuando em regime de revezamento, monitorando níveis de radiação e estruturas remanescentes, enquanto alguns idosos, os chamados retornados, vivem em áreas rurais da região mais ampla, desafiando recomendações oficiais.

“Eu deixei tudo para trás. Minha casa, minhas fotos, minha vida. Até hoje sonho que vou voltar e encontrar tudo como era”, relatou Lyudmila Ignatenko no livro Vozes de Chernobyl, da jornalista Svetlana Alexievich, publicado em 1997; em outra ponta dessa história, quem decidiu voltar sustenta uma relação visceral com o território, como afirmou Hanna Zavorotnya, uma das babushkas de Chernobyl, em entrevista à Reuters em 2015, ao explicar por que retornou à zona de exclusão: “Aqui é nossa terra. A radiação não matou o que a gente sente por esse lugar”.

Enquanto o ser humano se afastou, a natureza avançou; sem interferência urbana, a região se transformou em um laboratório natural, com espécies retornando e, em alguns casos, ampliando sua presença, lobos, alces e aves passaram a circular livremente, e estudos indicam aumento da biodiversidade apesar da contaminação.

“A ausência humana teve um impacto maior do que a própria radiação em alguns aspectos”, explicou o biólogo Jim Smith, da Universidade de Portsmouth, em entrevista ao The Guardian, em 2016; entre os casos mais curiosos estão sapos que desenvolveram coloração mais escura, possivelmente como resposta adaptativa à radiação, além dos cães que vivem na região, descendentes diretos dos animais abandonados em 1986 e que sobreviveram, se multiplicaram e hoje são monitorados por pesquisadores.

 

Turismo e a guerra

Pripyat também se tornou, ao longo dos anos, destino de turismo controlado, com guias conduzindo visitantes por áreas consideradas seguras; esse cenário, no entanto, mudou em 2022 com a guerra entre Russia e Ucrânia, quando a zona de exclusão passou a ter importância estratégica e chegou a ser ocupada por tropas russas no início da invasão, em 2022; a presença militar, somada ao risco de minas terrestres e à instabilidade, levou à suspensão das visitas, tornando o acesso hoje restrito e incerto.


Mais do que uma cidade abandonada, Pripyat consolidou-se como símbolo global, um lugar onde o tempo parou não por escolha, mas por consequência de um erro que ultrapassou gerações; entre prédios vazios e ruas tomadas pela vegetação, permanece uma memória silenciosa, um lembrete de que, mesmo diante do avanço tecnológico, o risco nunca desaparece completamente; Pripyat continua ali, não como cidade, mas como advertência, uma paisagem que, assim como o fim da União Soviética, revela de forma abrupta o colapso de um projeto que se acreditava sólido e permanente, deixando para trás estruturas, símbolos e promessas que não resistiram ao próprio peso da história.

 

Outras Cidades evacuadas

Chernobyl
Centro administrativo regional, foi evacuado após o acidente. Hoje abriga equipes técnicas e operações de controle da zona de exclusão.

Kopachi
Aldeia altamente contaminada, foi demolida e enterrada para reduzir os efeitos da radiação no solo.

Poliske
Evacuada anos depois, tornou-se exemplo do impacto prolongado da contaminação radioativa sobre áreas habitadas.